As sílabas marginais/LITERATURIEDADE OU DISCURSO INELEGÍVEL PROFERIDO POR UM INELEGÍVEL A UM GRUPO DE INELEGÍVEIS NA TABERNA DO SENHOR AFONSO/de Nelson Ferraz
joaompmachado
queridas obscuras e queridos obscuros deste condado
desafortunadas e desafortunados ou nem por isso
marginais das margens paralelas às alternativas nativas
nos subúrbios da qualidade:
quero aqui declarar
de uma forma vernaculamente verdadeira
que vou prescindir das vírgulas
para não parar separar ou empatar
escusadamente
o cerne deste discurso.
ora aí vai:
os críticos quase-todos-alguns são uns filhos da puta.
e normalmente são professores de letras grandes
e de outras tretas que também são letras grandes
como por exemplo história português filosofês
ou tudo isso de uma só vez.
são todos eles-quase-todos-alguns conhecidos da praça
ou melhor das capelinhas da praça
e locomovem-se cheios de adesivos agarrados a eles
e que são adesivos que escrevem umas merdas
que eles os críticos-quase-todos-alguns dizem que sim
que são umas merdas a ter em conta.
e se eles o dizem
quem tem tomates ovários ou as duas coisas
para os desdizerem?
além disso os críticos-quase-todos-alguns até podem ter editoras
que nunca são editoras mas sim as editoras.
e até podem ter jornais ou revistas
que nunca são jornais ou revistas mas sim os jornais e as revistas.
e claro que sim dá-lhes jeito e pilim terem coisas tão assim.
os críticos-quase-todos-alguns são uns filhos da puta.
e alguns deles até escrevem.
sendo que uns desses-alguns até escrevem umas merdas sinal mais.
outros desses-alguns escrevem umas merdas sinal mais ou menos.
os outros desses-alguns-muitos escrevem merdas mais menos do que mais ou menos.
mas nem uns nem outros nem outros nem uns dão erros.
e isso é bom. fica-lhes muito bem. nisso estamos todos de acordo.
os críticos-quase-todos-alguns são uns filhos da puta.
por exemplo quando um dos seus inspirados adesivos escreve “hoje está um dia de sol” eles os críticos-quase-todos-alguns muito atentos e visíveis comentam:
excelente maravilhoso soberbo sublime fantástico.
tudo sem aspas.
e o adesivo ganha mais cola e agradece a aderência erudita académica pública.
e o adesivo fica pronto para fabricar mais manifestações finíssimas de literatura apadrinhada e cresce sem esforço algum entre as meticulosas recensões das associações-máfias-quase-todas-algumas organizadas.
os críticos-quase-todos-alguns são uns filhos da puta.
e grande parte deles escreve para publicações de outros críticos-dos-quase-todos-alguns e também eles uns filhos da puta.
e até passam a ser poetas escritores e são premiados e tudo por outros críticos-dos-quase-todos-alguns que são ou não são poetas e que são ou não são escritores o que para o caso e para eles e para nós não interessa absolutamente nada.
os críticos-quase-todos-alguns são tão filhos da puta que são até capazes de afirmar que não são críticos coisa nenhuma mas sim que são só poetas ou só escritores ou as duas coisas em simultâneo. e dos bons (confirmam os adesivos solícitos).
e todos acham obrigatoriamente que sim. ámen.
e ninguém se atreve a apontar-lhes o dedo e a dizer a alguns-deles-bastantes que escrevem mal como o caralho.
os críticos-quase-todos-alguns costumam vomitar elogios aos adesivos e ignoram de forma instituída quem não tenha propriedades de bajulação servil e universal aos doutos e sapientes membros do cartel instituído pelas tradições da letra ou de letra.
os críticos-quase-todos-alguns são uns filhos da puta. já o disse.
mas do pior deles sai o pior: a crítica.
e a crítica não é a esposa do crítico nem o feminino natural de crítico
mas sim uma bênção avalizada para os bem alinhados
e um desprezo consciente e universal para os infiéis desconhecidos
que são todos os outros.
e todos os outros são os inelegíveis
porque ou não são lidos nunca ou são lidos com o olho do cu.
e o olho do cu dos críticos-quase-todos-alguns é uma coisa terrivelmente selectiva merdosa e promíscua como os carimbos das repartições de antanho.
os críticos-quase-todos-alguns são uns filhos da puta.
mas fazem falta. e uma falta do caralho.
para quê?
para promoverem o bocejo
amigarem-se entre eles
e citarem Steiner ao desbarato
nas reuniões de condomínio.
mas isto que vos digo
de tão tradicional e constatado
[como é óbvio]
não é uma quase-nenhuma-alguma-crítica.
queridas obscuras e queridos obscuros deste condado
desafortunadas e desafortunados ou nem por isso
marginais das margens paralelas às alternativas nativas
nos subúrbios da qualidade:
a boa notícia é que
se estas coisas eram atributo dos adiantados primórdios
das literaturas quando os orfeus levantavam questões
romanticamente surrealistas e os galos desfilavam
de penas em riste em bicos de patas e de patas em bico