As sílabas marginais/EXTINÇÃO/Nelson Ferraz

 

 

EXTINÇÃO

 

 

Apesar de todos os avisos

Que a névoa espalha pelos anos

Um homem regressa ao quintal

Que já não há.

Senta-se no mais obscuro dos sítios

E permanece escutando as galinhas.

 

O mesmo homem interroga o pessegueiro

Que já não há.

Afasta o céu e as folhas pautadas dos jarros

E arruma o mundo que se extingue.

 

Degrau a degrau percebe que o sol

Sofre de uma catarata irreversível.

 

E conclui:

– Somos uma fábrica de crepúsculos.

Amanhecemos uma noite em cada dia.

 

 

 

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