Nota prévia:
Continuamos a fazer circular textos sobre as Democracias em profunda crise, o sexto sobre o Reino Unido.
Quanto ao Reino Unido de hoje direi que ganhe quem ganhar, os Conservadores, os Trabalhistas ou a extrema-direita de Farage, o Reino Unido acordará amanhã pior do que estava ontem.
Júlio Mota
Seleção e tradução de Júlio Marques Mota
6 min de leitura
Reino Unido – Texto 6 – O vazio moral de Keir Starmer
Os limites éticos do Partido Trabalhista permanecem pouco claros
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Quem é, de facto, Sir Keir Starmer? É bastante claro que o público britânico tem dificuldade em responder a esta pergunta. Apesar de, por esta altura, já terem percebido que ele é filho de um ferreiro, muito mais permanece obscuro. À primeira vista, parece um composto de características contraditórias, como se tivesse sido encontrado num livro infantil de misturar e combinar: as pernas de um jogador de futebol de salão ao domingo; o tronco de um homem de família do tipo faça você mesmo’; a cabeça de um advogado de sucesso. No mês passado, uma sondagem perguntou a que animal selvagem este político mais se assemelhava e concluiu que ele é um terço tigre, um terço doninha e um terço lagarto – nem sequer 100% mamífero.
Em parte, sabe-se quem é um político pelo que ele diz querer, mas aqui as coisas tornam-se especialmente obscuras. Tal como foi descrito em pormenor por Jon Cruddas no seu recente livro, A Century of Labour, Starmer conduziu a sua campanha para a liderança em 2020 parecendo encarnar simultaneamente todas as tradições históricas associadas ao Partido Trabalhista. O liberalismo, o socialismo ético, o pluralismo, o assistencialismo e o estatismo estavam todos algures na mistura. Desde então, para fúria de alguns que relutantemente apoiaram a sua liderança, renegou muitas das promessas que pareciam mais socialistas. Agora já ninguém parece ter a certeza do papel que está a adotar.
As interpretações dos seus compromissos de fundo diferem imenso. Peter Hitchens pensa que ele é de “extrema-esquerda”, na fronteira com o trotskismo; Jordan Peterson prevê que, se ele ganhar, a Grã-Bretanha será “a Venezuela durante 20 anos”. The New Internationalist diz que Starmer é um “Blairista de coração frio” e Andrew Murray, antigo conselheiro de Corbyn, apelida-o desdenhosamente de “liberal centrista”. Deixando-nos uma imagem particularmente aflitiva, George Galloway declarou que “Keir Starmer e Rishi Sunak são duas faces do mesmo traseiro”. Em termos de vasto alcance, Starmer parece ser a Cate Blanchett da política britânica.
Esta semana, Starmer teve uma nova atuação, sob a forma de uma conversa filmada com Gary Neville no Lake District, um local onde a família passava férias quando ele era jovem. “Como é que encontrou este lugar?”, admirou-se Neville, incrédulo, como se Sir Keir tivesse atravessado a densa selva em vez de ter subido a M6 como toda a gente.
No entanto, mais uma vez, o vídeo transmitiu tão pouca informação como uma simples t-shirt branca usada em dia de jogo. Juntamente com algumas promessas repetidas no manifesto, ficámos a saber que o líder trabalhista coloca “o país em primeiro lugar, o partido em segundo”, acredita na “ação e não nas palavras”, quer “colocar a política ao serviço do povo” e pretende uma “década de renovação nacional, corrigindo os fundamentos”. No “primeiro dia, de mangas arregaçadas”, planeia “começar a trabalhar a todo o vapor”.
De facto, trata-se de Starmer a interpretar a personagem fictícia criada durante grupos de discussão antes da eleição para a liderança do Partido Trabalhista, tal como descrito no livro de Deborah Mattinson, Beyond The Red Wall. Em 2020, a mando do influente grupo político Labour Together, Mattinson reuniu antigos eleitores trabalhistas do Norte (apelidados de “Red Wallers”) e atuais trabalhistas mais prósperos das cidades (“Urban Remainers”). A cada um dos lados foi pedido, separadamente, que criasse o seu partido político ideal, com os seus três principais líderes possíveis. Os Red Wallers escolheram Sir Alan Sugar, o guru financeiro da Internet Martin Lewis e o fundador da Wetherspoons Tim Martin. Aparentemente sem medo de parecer cliché, a equipa Urban Remainers escolheu Michelle Obama, Hugh Grant e “um jovem David Attenborough”. As duas equipas voltaram a reunir-se num “júri de cidadãos” para debater o assunto.
A discussão começou de forma pouco promissora com Simon, um contabilista de Londres, a confidenciar: “Não consigo acreditar que estou a passar um dia inteiro na mesma sala que um grupo de pessoas que gostaria que aquele tipo horrível do Wetherspoon’s fosse primeiro-ministro.” Por fim, todo o grupo conseguiu chegar a uma lista de desejos conjunta para as prioridades do partido. E era uma lista que se inclinava visivelmente para as preocupações estereotipadas da Red Wall: mais investimento no Serviço Nacional de Saúde, na habitação, na educação e na polícia; ser duro com a evasão fiscal e colocar restrições à imigração. O líder ideal do grupo, entretanto, seria alguém que demonstrasse uma “liderança forte e objetiva”, que “reconquistasse os descontentes” através da “identificação de um número mais reduzido de políticas definidoras” e que não “se esquivasse nem camuflasse questões difíceis ou desafiantes, mas que as enfrentasse “de frente””.
Mattison acabaria por se tornar o Diretor de Estratégia de Starmer. O então diretor do Labour Together, Morgan McSweeney, viria a tornar-se o novo diretor de campanha do partido e o cérebro do Starmerismo. Quatro anos mais tarde, um Starmer forte e determinado entrou no palco à direita, de queixo assente e mangas arregaçadas, pronto para começar a trabalhar no SNS, na habitação, na educação, na criminalidade, na evasão fiscal e na imigração – de acordo com as instruções.
Para além de sugerir que os liberais urbanos abastados são uns patéticos cobardes nas negociações com a classe trabalhadora do Norte, que mais podemos retirar deste episódio? Parece que o principal objetivo do Starmerismo é agora ouvir o que as “pessoas trabalhadoras” realmente querem e depois tentar dar-lhes isso. Orientada por McSweeney, a equipa de Starmer evita a tecnocracia do topo para a base, enveredando por uma direção superficialmente comunitária. As atitudes liberais em relação à imigração e as exigências radicais de justiça social estão fora de questão, enquanto a comunidade, a família e a justiça estão dentro: parem os barcos, salvem os pequenos pelotões.
Alguns comentadores sublinham que, apesar – ou talvez por causa – da indefinição ideológica, o novo ethos não é nem populista nem paternalista; não incita as pessoas nem lhes fala mal, mas trata-as como sensatas, decentes e mais capazes de resolver as suas próprias necessidades a partir da base. E a abordagem também está a ser apresentada como agradavelmente ágil em resposta a novos acontecimentos. O atual diretor do Labour Together e futuro deputado trabalhista, Josh Simons, sublinhou os benefícios da flexibilidade numa entrevista no mês passado: “Embora possam e devam basear-se no pensamento e nas tradições, New Labour, Blue Labour, Old Right, ou o que quer que seja, se se deixarem seduzir pela ideia de que qualquer um desses quadros pode gerar a política, a estratégia e a agenda política de que precisam, então provavelmente não estão a levar suficientemente a sério a novidade deste momento”.
Em comparação com as projeções fantasiosas de alguns políticos sobre o eleitorado, isto não soa necessariamente mal. No entanto, tem pontos fracos óbvios. Um dos problemas é que, sem uma visão positiva e bem articulada do que é o florescimento humano, o comunitarismo é tão de esquerda quanto a comunidade cujos desejos estão atualmente a ser acomodados; isto é, estará contingentemente à esquerda do espetro político e não essencialmente. E, o que é talvez mais grave, a falta de discussão sobre os valores éticos deixará o eleitorado caótico a procurar alcançar a sua própria cauda.
Os eleitores não saberão o que Starmer realmente defende, porque os eleitores não saberão o que eles próprios realmente defendem. Na sua entrevista, Simons citou o filósofo político Michael Sandel como uma influência fundamental no seu pensamento atual. No entanto, uma das ideias de Sandel é que não se pode divorciar a política ou a economia dos compromissos morais subjacentes e dos valores preferidos. Fingir que estas coisas estão separadas é capitular implicitamente a uma determinada perspetiva moral. Para dar um exemplo óbvio: decretar que as pessoas devem ser livres de fazer o que querem sem prejudicar os outros desvaloriza a importância dos laços sociais herdados.
Parece que o Partido Trabalhista não pode praticar uma versão do comunitarismo que procure o eleitorado sem, ao mesmo tempo, subtrair a sua consciência moral. É possível que se avizinhem tempos económicos ainda mais sombrios do que os atuais; e as pessoas sensatas e decentes tornam-se por vezes menos sensatas sob pressão. Seria bom ter uma ideia concreta de quais são os limites morais do Partido Trabalhista, expressos em termos simples.
E Sandel também é claro na sua escrita de que um comunitarismo viável, explicitamente infletido moralmente, que dê prioridade a determinados valores em detrimento de outros, requer uma participação democrática genuína para funcionar. Na realidade, a Grã-Bretanha não é composta apenas por conservadores sociais que votam no Brexit, obviamente. Hugh Grant também vive cá. Tal como numa versão ampliada do júri de cidadãos de Mattinson, o ideal seria que as equipas opostas debatessem as suas diferenças éticas numa deliberação cívica – não só porque isso diria aos políticos o que poderiam escrever nas promessas eleitorais; mas também porque, sem dúvida, traria maior clareza sobre os valores pessoais, aumentaria a coesão social e alargaria a aceitação de quaisquer eventuais resultados políticos.
Nos últimos meses, tem havido rumores de que os trabalhistas poderão vir a introduzir assembleias de cidadãos para questões socialmente fraturantes, o que seria talvez um passo na direção certa. É certo que precisam de fazer alguma coisa. No fim de contas, ser vago sobre a visão ética concreta do partido, enquanto se submete à sensibilidade do eleitor britânico, não será suficiente.
No livro de Gabriel Pogrund e Patrick Maguire Left Out: The Inside Story of Labour Under Corbyn, um informador interno disse que Starmer teve um período complicado como Secretário de Estado Sombra para a Saída da União Europeia: “Ele dizia que só podia ir até onde a corda o deixasse. Estava constantemente a tentar aumentar o raio de ação em que podia andar”. Se, no futuro, formos responsáveis por segurar a corda de Starmer – e talvez impedi-lo de aumentar o seu raio, se necessário – é melhor encontrarmos formas adequadas de saber onde deve estar o centro.
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A autora: Kathleen Stock é uma filósofa e escritora britânica. Foi professora de filosofia na Universidade de Sussex até 2021. Publicou trabalhos académicos sobre estética, ficção, imaginação, objectivação sexual, e orientação sexual.

