Quatro democracias em crise profunda: França, Reino Unido, Alemanha e Estados Unidos — Reino Unido – Texto 14

Nota prévia:

Continuamos a fazer circular textos sobre as Democracias em profunda crise, o décimo quarto sobre o Reino Unido.

Quanto ao Reino Unido de hoje direi que ganhe quem ganhar, os Conservadores, os Trabalhistas ou a extrema-direita de Farage, o Reino Unido acordará amanhã pior do que estava ontem.

 

Júlio Mota


Seleção e tradução de de Júlio Marques Mota

3 min de leitura

Reino Unido – Texto 14. As eleições britânicas- não foi bem como previsto

 Por Robert Kuttner

Publicado por  em 5 de Julho de 2024 (original aqui)

 

O líder do Partido Trabalhista, Keir Starmer, sorri enquanto fala aos seus apoiantes na Tate Modern, em Londres, sexta-feira, 5 de julho de 2024.

 

Os trabalhistas ganharam, mas agora Keir Starmer precisa de conquistar o seu mandato

O Partido Trabalhista ganhou cerca de 412 assentos na Câmara dos Comuns, logo abaixo da vitória recorde de Tony Blair em 1997; entretanto, os Tories caíram para cerca de 121, o seu pior resultado de todos os tempos. Mas as sondagens tinham previsto que os trabalhistas venceriam os conservadores na votação popular em cerca de 20 pontos. Na eleição, eles ganharam por apenas dez pontos, cerca de 34 por cento para os 24 por cento dos conservadores.

Isso foi muito abaixo do desempenho do Partido Trabalhista em várias eleições recentes. De facto, o Partido Trabalhista obteve uma parcela muito maior do voto popular (40%) em 2017, quando perdeu a Câmara dos Comuns, do que neste ano, quando a ganhou.

O voto dos trabalhistas foi bem superior a 40 por cento em outras dez eleições pós-guerra, começando com a sua primeira grande vitória em 1945. E a participação neste ano, com pouco menos de 60%, foi a mais baixa desde 2001.

Portanto, esta vitória foi muito menos um mandato esmagador do que um espetacular colapso Tory. O facto de que um terço do voto popular para o Partido Trabalhista se ter traduzido numa maioria de dois terços na Câmara dos Comuns é devido ao mal-estar generalizado com os Tories e ao facto de o voto conservador ter sido dividido entre os Tories e o partido Reform de extrema-direita de Nigel Farage, combinado com o sistema britânico de atribuição de lugares, conhecido como “first-past-the-post”, ou seja, o escrutínio maioritário uninominal.

O líder trabalhista Keir Starmer, não querendo estragar uma coisa certa, recortou tanto que deprimiu o apoio ao seu partido. A boa notícia, no entanto, é que, no fundo, Starmer é mais do que o tecnocrata brando que os seus detratores dizem. Ele até tem um pouco de socialista.

O partido Trabalhista conseguiu reinjetar classe na política britânica. Starmer resistiu à pressão para prometer que não haveria nenhum aumento de impostos às classes mais altas. Ele leva a sério o reinvestimento massivo no Serviço Nacional de Saúde, que já foi a joia da coroa do socialismo britânico.

Ele também propôs uma extensão do imposto sobre o valor acrescentado de 20 por cento para as propinas nas escolas privadas, que atingirá apenas seis por cento dos britânicos mais privilegiados, e dedicar os rendimentos a escolas estaduais subfinanciadas. Uma guerra de classes eficaz não é muito mais palpável do que isso.

Ao contrário dos mais recentes líderes trabalhistas, Tony Blair, Gordon Brown, Ed Miliband ou Jeremy Corbyn, todos com infâncias de gente rica, Starmer é na verdade um produto da classe trabalhadora. O seu pai era um fabricante de ferramentas; a sua mãe era uma enfermeira. Ele vem de uma família trabalhista apaixonada; tem o nome que tem em homenagem ao primeiro líder do Partido Trabalhista, Keir Hardie.

A vice-primeira-ministra de Starmer, Angela Rayner, é uma arquiteta chave da estratégia do Partido Trabalhista para as classes na política britânica, algo que ela viveu. Rayner era mãe aos 16 anos, trabalhou num asilo antes de se tornar líder sindical e, em seguida, candidata trabalhista ao Parlamento.

Os eleitores ingleses, especialmente os não-ricos, sofreram uma verdadeira queda nos padrões de vida desde o colapso financeiro de 2008. Isso deve-se à combinação fatal da economia de austeridade aplicada pelos conservadores com a saída suicida da UE.

O modelo conservador para a economia britânica entrou em colapso, tal como os serviços públicos britânicos. Este modelo deixou de funcionar para construir a economia da Grã-Bretanha com base na banca e esperar que alguma da sua prosperidade se repercuta no resto da economia. O Brexit destruiu a Grã-Bretanha como um centro financeiro, além de acrescentar custos enormes à atividade económica normal.

Starmer precisa de presidir a um programa sério de investimento público, para modernizar a economia britânica e afastá-la do modelo falhado de dependência das finanças. Se for bem sucedido, poderá reivindicar um verdadeiro mandato e fazer do Partido Trabalhista o partido maioritário natural durante uma geração.

Será ajudado pelas contínuas divisões à direita e pela perspetiva muito real de que, nas próximas eleições, os conservadores poderão perder ainda mais lugares e deixar de ser a oposição oficial. Mas, como as eleições mostraram, o colapso dos conservadores não equivale exatamente ao sucesso dos trabalhistas – algo que Starmer ainda precisa de conquistar.

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O autor: Robert Kuttner (1943-) é um jornalista americano e escritor cujos livros apresentam pontos de vista liberal/progressistas. É co-fundador e co-editor do The American Prospect criado em 1990 e professor na Brandeis University’s Heller School. Durante 20 anos foi colunista no Business Week e no The Boston Globe. Atualmente continua a escrever no Huffington Post. É também um dos cinco fundadores do Economic Policy Institute em 1986, integrando presentemente o seu comité executivo. Entre 2007 e 2014, Kuttner aderiu ao centro liberal de investigação e política Demos como ilustree membro senior. O seu último livro é Can democracy Survive Global Capitalism?

 

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