ANTÓNIO MOTA REDOL – CARTA AO BASTONÁRIO DA ORDEM DOS ENGENHEIROS, seguida de OPINIÕES DO BASTONÁRIO DA ORDEM DOS ENGENHEIROS E DE OUTROS NA CONFERÊNCIA “ANÁLISE DE ESTRATÉGICA DA ENERGIA NUCLEAR”
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António Mota Redol
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Bastonário da Ordem dos Engenheiros
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Como resposta ao texto do Eng. Pedro Sampaio Nunes e do Eng. Bruno Gonçalves publicado no nº 179 da revista Ingenium, enviei-lhe um texto que escrevi com base em notícias publicadas em várias revistas de energia nuclear intitulado “Uma História da Oposição à Energia Nuclear no Mundo”.
Respondeu-me que o texto era demasiado longo para publicação na revista, embora o tivesse alertado que esse texto era inédito mesmo a nível internacional por ser o primeiro conhecido que abordava diferentes países. Suponho que merecia ser publicado na íntegra.
Enviei-lhe um texto muito mais pequeno, abordando apenas o caso dos EUA, tendo um seu colaborador respondido que ficava em carteira para futura publicação. No entanto, saíram quatro números da revista sem que o texto fosse publicado.
Tal configura uma falta de visão pluralista da Ordem dos Engenheiros, que não pode nunca ignorar opiniões diferentes no seio dos seus sócios. Nem podem os seus dirigentes impor à Ordem as suas opiniões.
Por outro lado, a Ordem tem estado a promover ou participar em sessões intituladas de “Análise Estratégica da Energia Nuclear” e “Nuclear: O Debate Necessário”, mas que, pelos técnicos convidados são, de facto, sessões de propaganda da energia nuclear, sabendo a Direcção da Ordem que o assunto não é consensual e há-de ofender a opinião de muitos dos seus sócios. Bem sei que tem realizado sessões sobre outras formas de energia.
Quando a energia nuclear civil perdeu toda a credibilidade e se afundou nos anos 80, esta tecnologia já tinha cerca de 40 anos de experiência. Pouco mais havia a inovar. De então para cá muito pouco se adiantou. O actual argumento de que houve francos progressos no domínio da segurança é falso. Os principais problemas desta tecnologia continuam por resolver, se é que têm resolução, pois esta tecnologia já tem mais de 80 anos de experiência.
O empenhamento da França não é de admirar, pois possui uma indústria de construção de reactores em situação de pré-falência, só sobrevivendo devido aos apoios do Estado, e uma indústria do ciclo do combustível também em situação difícil. Está desejosa de encomendas, tal como nos anos 80 para com Portugal e outros países. E a maior parte dos países que a seguem têm uma opinião pública com muitos anos de falta de Liberdade, nomeadamente de imprensa. Em Portugal, a discussão pública sobre esta energia fez-se nos anos 70 e 80 e o país decidiu não investir nela.
Uma Ordem dos Engenheiros não pode estar ao serviço de uma ideologia, mas também não pode estar ao serviço de uma visão restrita para soluções de desenvolvimento económico ou industrial. Tem de estar aberta a diferentes visões e, então, aí sim, a debate de ideias. Caso contrário, arrisca-se a ser acusada de estar ao serviço de interesses específicos ou a ser alvo de outras acusações mais graves.
Costa de Caparica, 27 de Junho de 2024
António Mota Redol
Sócio nº 30.448
Opiniões do Bastonário da Ordem dos Engenheiros e de outros na Conferência “Análise de Estratégica da Energia Nuclear”
Na conferência “Análise de Estratégica da Energia Nuclear”, para o qual apenas foram convidados defensores desta forma de energia, o colega Bastonário falou sobre questões ideológicas que levam a rejeitá-la. Tornou-se moda utilizar este argumento para inquinar os debates sobre vários temas. É um argumento “definitivo”. Se é verdade que muitos dos que combatem a energia nuclear o fazem por razões de concepção de sociedade, muitas outras pessoas, especialmente técnicos, são críticos e outros a rejeitam, como é agora o meu caso, devido aos numerosos acontecimentos que ensombraram a energia nuclear, e não só os acidentes de Three Mile Island, Tchenobyl e Fukushima, mas muitos outros que têm sido divulgados pela própria Agência Internacional de Energia Atómica e várias entidades reguladoras, com relevo para a estadounidense Nuclear Regulatory Comission (NCR). São vulgares as fugas de efluentes líquidos e de gases radioactivos para o exterior de reactores. Para não falar dos problemas com a multiplicação da câncros em minas de Urânio, como aconteceu em Portugal, e nas cercanias de algumas instalações nucleares. Para não falar dos grandes aumentos dos custos de construção, dos grandes aumentos dos tempos de construção, das corrosões aceleradas de componentes fundamentais e de elevado custo, da falência de empresas, dos custos e problemas dos desmantelamentos, do armazenamento dos resíduos radioactivos de longa duração – com tempos de semi-vida, isto é, de redução da radioactividade para metade, de 20.000 a 30.000 anos e não de algumas centenas como foi dito na Conferência – não havendo qualquer instalação de armazenamento definitivo, pelo menos na Europa e nos EUA, etc, etc.
Disse que os acidentes são muito escassos, mas as consequências desses acidentes foram terríveis e duradouras. Não há comparação possível com os acidentes aéreos. Sabe que na Ucrânia ainda existe, ao fim de quase quarenta anos, uma extensa região de exclusão populacional? E quantas pessoas foram atingidas pelo acidente na altura e muitas outras que ainda estão a ter consequências? Os três acidentes referidos mostram que com a energia nuclear, enquanto tudo corre dentro das normas as coisas vão andando, embora com percalços, o pior é quando as coisas descambam e se perde o controlo. E ainda há o segredo. No entanto, o funcionamento “normal”destas instalações provoca problemas de saúde graves.
E, como referi, são houve só os acidentes muito graves. Houve muitos outros.
A indústria nuclear é uma das que mais está sujeita ao segredo. Por um lado, com o pretexto do segredo de Estado quando há nuclear militar associado, o que é frequente. Por outro, no nuclear civil os seus trabalhadores são obrigados a assinar termos de confidencialidade para que nunca se saiba cá fora o que se passa dentro das instalações.
Portugal, se enveredasse pela energia nuclear, nunca seria independente, pois na construção de grupos a participação nacional seria reduzida devido à grande complexidade da tecnologia. Quando nos anos 80 foi avaliada essa participação ela era inferior a 50% e hoje seria muito menor, pois as empresas metalomecânicas que então existiam e tinham experiência em centrais convencionais desapareceram. Cada grupo nuclear teria de ser adquirido chave-na-mão. E os técnicos preparados para o licenciamento nuclear que então existiam e que já não estão operacionais?
E quanto ao combustível, Portugal tem algum Urânio – segundo um estudo realizado na EDP nos anos 80 as reservas de Urânio português dariam para alimentar 2 a 3 reactores de cerca de 900 MW durante a sua vida de 25 anos, mas, entretanto, parte foi extraído e vendido – mas ele teria de ser enriquecido em alguma das duas unidades europeias ou na dos EUA (ou da Rússia, onde hoje é enriquecido 20% do Urânio utilizado nas centrais estadounidenses e a grande maioria ou mesmo a totalidade do utilizado nos países do ex-Pacto de Varsóvia.
Quanto à melhoria de competitividade da nossa economia se tivéssemos nuclear – o que pressupõe que a produção nuclear é muito barata -, essa é mais uma das falsidades de quem defende a energia nuclear. Nos anos 70 e 80 já não era assim – ver o Livro Branco sobre “Centrais Nucleares em Portugal”, publicado em 1978, por encomenda do Governo e outros estudos, da EDP e outros – e, hoje, os relatórios internacionais referem um custo do kWh de origem nuclear 2 a 3 vezes mais elevado do que o KWh de origem renovável – por exemplo, Bloomerg New Energy Finance, 2020 e The World Nuclear Industry Startus Report 2023, para citar apenas alguns.
E essa será a principal razão porque a França não quer uma maior interligação eléctrica com a Península Ibéria e não pela razão que o Eng. Pedro Sampaio Nunes refere.
Também é falsa a afirmação corrente durante anos de que as tarifas de energia eléctrica em Portugal são as mais ou das mais elevadas da Europa. Analisando as estatísticas do Eurostat, acessíveis a todos, vê-se que as tarifas portuguesas estão, pelo menos desde os anos 90 em que analisei o assunto, na zona da média europeia.
A propósito, como pode a Alemanha manter a competitividade da sua indústria se tem, de facto, as tarifas de energia eléctrica mais elevadas da União Europeia e salários altos? Mas as pessoas citadas pretendem atribuir às tarifas portuguesas uma pretensa falta de competitividade da nossa indústria. Será mesmo assim?
Aliás o Eng. Pedro Sampaio Nunes, o Eng. Clemente Pedro Nunes e o Eng. Mira Amaral, especialmente os dois primeiros, têm-se pronunciado sobre este assunto da energia e da energia nuclear referindo apenas os aspectos que lhes convém e cometendo muitas faltas de rigor, muitas afirmações facilmente desmontáveis, muitas interpretações abusivas da realidade, o que não vou agora analisar.
O problema das intermitências das renováveis pode ser considerado um “não problema”, pois no caso das eólicas, se faltar o vento numa zona do país, não faltará noutras. No solar, já não é assim. E quando houver um excedente de energia de origem eólica, ele já é utilizado para bombagem nas barragens hidroeléctricas – bombagem há muito existente no nosso país -, aumentando as disponibilidades hídricas. E ainda melhor, se houver uma boa interligação das redes europeias, uns países poderão fornecer a energia que não se está a produzir noutros. É também para isso que serve a União Europeia. Que haja uma maior insistência neste domínio. A França não pode querer impor os seus interesses.
Note que podemos chamar “intermitências” ao que se passa nas centrais térmicas convencionais e nas nucleares com as suas frequentes avarias aleatórias. Não esquecer que a taxa de disponibilidade destas centrais raramente ultrapassa os 70% – 80%, sendo cerca de 10%-15% para as avarias.
Na sua intervenção referiu o que sucedeu no Verão deste ano nas centrais nucleares espanholas que tiveram que suspender o funcionamento devido ao aquecimento da água de arrefecimento. E não aconteceu o mesmo com 50% das centrais francesas? Não se pode chamar a isto e às avarias “intermitências”. E não têm o mesmo efeito, qualquer que seja a designação?
A propósito de Espanha, aqueles referidos intervenientes esqueceram-se de dizer que, além da Alemanha, também aquele país vai a caminho de fechar as suas centrais, começando pela muito contestada Almaraz.
Quanto à necessidade do debate deste assunto em Portugal, recordo que de meados dos anos 70 a meados dos anos 80 do Século passado, houve um grande debate sobre o assunto, intenso, aberto, com muitas intervenções; a Ordem dos Engenheiros promoveu dois designados Encontros de Política Energética, o segundo só sobre energia nuclear. Verificou-se a elaboração do citado Livro Branco por encomenda do Governo, verificou-se a elaboração de Planos Energéticos Nacionais centralizados pela Direcção-Geral de Energia e que terminou por uma resolução do Governo de então (PS/PSD) de não enveredar pela opção nuclear, depois de um intenso debate público e na Assembleia da República.