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PALCO 233 – CINEMA – O FESTIVAL DE VENEZA 2024 – por Roberto Merino

 

Era a década dos 70 e lembro-me de ter lido um artigo que naquela altura falava do Festival Cinematográfico de Veneza (*), nessa data com quase 50 anos, como um baile de fantasmas num encontro no qual parecia festejar-se o fim do cinema, a morte do Cinema!

É muito difícil recuperar um documento desses, e apenas fio-me apenas na minha memória e no impacto que teve sobre mim, eu que sou e sempre fui, um amante do cinema.

Porquê o autor do tal artigo falava nesses termos ulteriores? O que se passava no festival? Qual era a qualidade dos filmes, medíocres, sem interesse, sem qualidade para participar num festival daquela categoria…?

Deveria recuar no tempo e pensar, talvez, na crise que atravessou todo o cinema no mundo com a massificação da TV a nível mundial, com o desaparecimento de salas de exibição, e a perda progressiva do público e do  papel que o cinema tinha como elemento aglutinador da sociedade, o papel fundamental que o cinema tinha como difusor de discursos, de modos de vida, de pensamento global, de modelo crítico de sociedade e, entre outros, o papel de difusor de novas tecnologias, de novos pensamentos e de uma forma de encarar o futuro da humanidade. Lembremos apenas o filme de Kubrick, 2001 Odisseia do Espaço (1968), que nos colocava trinta anos a frente do nosso tempo, numa viagem espacial e virtual desde o início, no nascimento do homo faber, até como estava prometido no título do filme, a odisseia espacial que atravessa, na parte final, tempo e espaço.. Salto temporal que se dá cinematograficamente naquela magnífica imagem do osso lançado pelo primata numa elipse de mais de quatro milhões de anos, dando lugar a uma nave que viaja no espaço em 1999 acompanhada musicalmente por uma valsa de Strauss.

Este ano celebrou-se a 82.ª edição do festival de Veneza, um festival que nasceu sob o signo do fascismo italiano. Mussolini e os seus criaram este festival, que antes da copa Volpi, chegou a ter um prémio com o nome do ditador italiano.

Tanto o fascismo italiano como o nazismo alemão valorizaram o papel do cinema como instrumento de propaganda, também em Portugal na época salazarista o cinema foi um instrumento do poder!

O Festival este ano, na sua 82ª edição, parece estar cheio de vida, longe do espectro fantasmático enunciado logo no início desta crónica.

A aclamação entusiasta com que o público presente recebeu a última película de Pedro Almodóvar, com as interpretações de  Julianne Moore e Tilda Swinton, uma ovação de 18 minutos e 36 segundos (segundo a comunicação social), augurava o melhor: Almodóvar conquistava o seu primeiro Leão de Ouro neste Festival.

Pela beleza da abordagem, não posso deixar de citar o texto que se segue, e que situa o ponto de partida para esta obra cinematográfica:

As histórias das mulheres são geralmente histórias tristes. “Esta frase transparente e dolorosa, com a qual a escritora nova-iorquina Sigrid Núñez decidiu abrir um dos capítulos do seu romance “Qual é o seu tormento”, poderia ser lida como uma definição mais do que pertinente do universo de Pedro Almodóvar. Dito isto, não deve ser surpreendente que o romance em questão tenha gerado um filme como “The Room Next Door”, um dos mais transparentes e dolorosos do realizador espanhol. A história imaginada por Núñez – em que uma mulher que sofre de cancro pede a uma amiga que a acompanhe na derradeira viagem da sua vida – aterra no imaginário do cineasta de forma diáfana, dando origem a uma obra que persegue os seus significados com determinação e serenidade, alcançando a sabedoria de quem ouse olhar face a face para o abismo da existência – “o sentido da vida para”, disse Kafka. – Crítica de ‘La habitación de al lado’, la primera película de Pedro Almodóvar en inglés con estrellas de Hollywood – Por MANU YÁÑEZ ACTUALIZADO: 03/09/2024

Almodóvar é sem dúvida um dos realizadores que melhor aborda e tem abordado o mundo feminino, basta  citar os títulos de algumas das suas obras nas quais a mulher aparece sempre em destaque: Pepi, Luci, Bom e Outras Garotas de Montão, Mulheres à beira de um ataque de nervos, Kika, Tudo sobre a Minha Mãe, Saltos Altos (Tacones Lejanos), Fale com Ela, A Flor do meu Segredo, Mães Paralelas.

Almodóvar é um cineasta comprometido com o seu tempo e utiliza o seu cinema como uma arma de denúncia, não é panfletário, é um criador sublime que muitos críticos já compararam com um dos grandes realizadores da história do cinema, Douglas Sirk (1897-1987).

“Este filme fala sobre empatia e generosidade. Sobre esta amizade, sobre ajuda, mas o meu filme é também a resposta ao discurso de ódio que ouvimos todos os dias em Espanha e no mundo”…  O quarto ao lado é “o oposto desses discursos”, e a minha mensagem é criticar os ataques da extrema-direita na questão da migração. “Assim como a personagem de Ingrid abre os braços, façamo-lo às crianças desacompanhadas que lutam para chegar às nossas fronteiras e para quem a extrema-direita espanhola quer que o governo envie à Marinha/Exército para as impedir de entrar. Querem transformá-los em invasores. É delirante, é estúpido e tão injusto… O que proponho é o contrário, que se pudermos fazer algo neste mundo tão complexo e tão cheio de perigos, vamos fazê-lo”. Juan Silvestre y JAVIER DÍAZ-SALADO –  07/09/2024Histórico discurso de Pedro Almodóvar: “El ser humano debe ser libre para vivir y morir cuando la vida sea insufrible” (fotogramas.es)

Roberto Merino

Notas:

(*) Fundado por Giuseppe Volpi, membro do Partido Nacional Fascista em Veneza, em agosto de 1932, o festival faz parte da Bienal de Veneza,  uma das exposições de arte mais antigas do mundo, criada pela Câmara Municipal de Veneza em 19 de abril de 1893. A gama de trabalhos na Bienal de Veneza agora abrange arte italiana e internacional, arquitetura, dança, música, teatro, e cinema. Essas obras são apresentadas em exposições separadas: a Exposição Internacional de Arte, o Festival Internacional de Música Contemporânea, o Festival Internacional de Teatro, a Exposição Internacional de Arquitetura, o Festival Internacional de Dança Contemporânea, o Carnaval Infantil Internacional e o Festival Anual de Cinema de Veneza, que é sem dúvida o mais conhecido de todos os eventos. (Wikipedia)

 

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