Site icon A Viagem dos Argonautas

RELAÇÃO INTERCULTURAL? por Luísa Lobão Moniz

Este texto é a continuação do texto anterior.

Incluir não é estar junto, é estar com, é interagir com o outro.

A propósito de um estudo feito numa escola multicultural do 1º ciclo, sobre as relações interculturais, passo a citar algumas frases dos alunos, não só recolhidas oralmente como em inquérito.

As crianças não são identificadas por etnias, mas pelo que disseram relativamente ao estar junto ou a interação com os outros.

A etnia só está identificada se as próprias a referiram.

 ………A escola é muito importante para a minha vida ………gosto de aprender e os amigos também me ajudam.

Se reconhecem que existe ajuda é porque fazem todos parte de um mesmo grupo de pertença, pois a comunicação é importante para o bem estar de todos. Um fica satisfeito porque é reconhecido pelos seus conhecimentos e o outro é reconhecido por ter escolhido um amigo, que é diferente.

 … porque é diferente a nossa raça, sabemos dançar porque somos ciganas, … mas isso não interessa … não tem importância, há uma menina que não é cigana e também sabe dançar …… se eles quiserem aprender a gente ensina……… Também trabalho em grupo … eu sou do 3º ano e também faço grupo com os do 4º ano.                                  

A afirmação desta criança, que se reconhece como cigana, demonstra bem uma relação intercultural, baseada nas diferenças culturais. Apesar de dizer a palavra “raça”. Para sublinhar a sua diferença. Conceito que ela própria desconhece e que foi substituído por etnia. Esta menina é cidadã portuguesa. A palavra “raça” é dita por muitos elementos de famílias ciganas.

É fácil fazer amigos nesta escola…a jogar à bola, ir para outra sala quando não se tem aulas ……quando estou com os meus amigos e com os amigos deles conheço outras pessoas …… trabalhar em grupo, a ajudar os colegas quando sei …………

O conceito de ajuda, entre as crianças de várias etnias, significa que na realidade se sentem incluídas no mesmo grupo. São muitas as conexões desta criança com o mundo que a rodeia. Arranja estratégias para comunicar com os outros.

Sim. Eu sou indiana e eles são portugueses, mas eles tratam-me como uma amiga, não me tratam como uma indiana, diferente. Eu tenho roupa indiana.

Esta menina identificou a sua etnia, a primeira informação que quis dizer foi a afirmação da sua identidade, relativamente ao outro, onde se incluem os portugueses, o grupo maioritário, nesta escola. Apesar da igualdade que sente, relativamente às outras crianças, não receia um reconhecimento negativo pelo facto de se vestir com as roupas da sua origem cultural.

…… vamos fazer amigas. Eles sentam-se ao pé de mim, cantamos, falamos como amigas e ficamos amigas.

Diferentes estratégias para fazer amigas, possivelmente que ainda não conhecem, mas sabem que a origem cultural não é a mesma. A aproximação, ou estar junto.

Os meus amigos são da minha sala e das outras salas….não são todos iguais a mim……os meus colegas também ensinam algumas coisas ……eu também ensino…(balança as pernas satisfeita). Trabalho com outros meninos na sala e isso é importante para fazer amigos.

Esta criança reconhece as diferenças dela relativamente às outras, mas mais uma vez o diálogo, a interajuda é reconhecida como benéfica para se fazer amigos, ou seja para se incluírem.

 Não é fácil fazer amigos ……………estar ao pé deles …sinto-me bem ……mas não sei explicar. (Com ar confuso).

É interessante revelar-se aqui a facilidade da integração, mas não a da inclusão.

 Tenho facilidade em fazer amigos com os outros meninos que são diferentes e brinco com eles…

As brincadeiras são uma boa estratégia para iniciar uma relação intercultural. Não esquecendo porém que nas brincadeiras muitas crianças são excluídas, não pela origem cultural, mas porque não sabem jogar…

Tenho muitos amigos. Quando quero fazer amigos pergunto se querem jogar à bola ou ao berlinde, às cartas e, às tantas, é mais um amigo, olha, vamos entrar nesta brincadeira.

E assim pode começar uma boa relação intercultural. Vão estar juntos e vão dialogar sobre como se brinca, sem sentimentos de superior por ser do grupo maioritário, nem sentimento de inferioridade por ser de outra origem.

Exit mobile version