TODOS VÃO À ESCOLA por Luísa Lobão Moniz

olhem para  mim

No texto da passada semana referi que “A família cigana não entende as regras da Escola, aliás como outros alunos, e a Escola não percebe alguns traços culturais desta etnia.” Família e Escola estão em mundos diferentes. Será que querem pertencer ao mesmo mundo?

A família cigana constitui-se com a união entre uma rapariga e um rapaz, os dois de etnia cigana. O casamento é reconhecido pela comunidade cigana segundo as suas tradições.

O casamento entre ciganos e não ciganos só é reconhecido se o não cigano for aprovado e se integrar na comunidade cigana.

A escola, tal como a concebemos, prefere a conflitualidade, não a empatia com os alunos ciganos que são consideradas como intrusos e que vão arranjar conflitos com os adultos e as crianças.

Os meninos ciganos aprendem com a sua família a comportarem-se livremente, a não ter horários nem para comer nem para dormir, não precisam de regras para obedecer.

Como pode a criança cigana chegar à escola e começar logo a obedecer às regras rígidas das escolas? Começando logo pelo horário, de manhã ou de tarde?

Os rapazes ciganos obedecem naturalmente ao homem mais velho, irmão, tio, pai, avô e as raparigas obedecem à mãe que obedece ao homem.

As crianças ciganas não reconhecem mais nenhuma autoridade sobre elas a não ser a da família

A criança cigana chega à escola, para o 1º ano e tem uma professora, como lhe é difícil aceitar as regras instituídas na sala de aula e na escola.

 É-lhes difícil estar tanto tempo no mesmo sítio, na mesma sala, ter que obedecer sem saber a quê nem porquê.

Por vezes dizem “A professora não manda em mim, eu sou homem”, o que faz o corpo docente rir, mas esta resposta é uma pista muito importante para a amenização de conflitos, é uma resposta cultural e não de rebeldia. Ter que obedecer a uma mulher que não é da família….

O ter que aprender a ler e a escrever é muito difícil, a cultura cigana é ágrafa, transmite-se oralmente pelos mais velhos para que os seus valores, os seus modos de vida não fiquem esquecidos, pelo contrário, sejam também transmitidos por aqueles que agora são crianças, mas amanhã serão os mais velhos.

É também por esta razão que a criança cigana oferece resistência à aprendizagem transmitida por uma pessoa só, que elabora regras de comportamento e de aprendizagem.

As aulas em que todos trabalham ao mesmo tempo, a mesma coisa, e que têm, todos, de acabar antes que toque a campainha, é contrária à cultura cigana.

Os rapazes e as raparigas ciganos têm um conhecimento, uma sabedoria, muito diferentes dos não ciganos.

Cabe à sociedade e à escola fazer com que ninguém perca a sua identidade, mas que saibam entrecruzar as diferentes culturas.

O primeiro (?) passo foi dado com o Rendimento Social de Inserção para todas as pessoas carenciadas e mediante certos requisitos.

Todos vão à escola.

Leave a Reply