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PALCO 235 – “O FORTUNA…” – por Roberto Merino

 

“O Fortuna

velut luna… “

(Ó Fortuna/és como a Lua…)

 

Os versos apareceram sem os esperar, era o título de um episódio de uma série numa das plataformas de filmes streaming.

Não pretendendo ser um homem culto, identifiquei logo a origem, desses versos que ainda ressoam na minha memória, musical, oral e coreograficamente, e não os posso esquecer!

Explico-me. Os dois primeiros versos citados fazem parte das letras de Carmina Burana, que foram musicadas magistralmente pelo compositor alemão Carl Orff.

Foi nos anos sessenta, ainda no Chile e na minha cidade, que tive oportunidade de ver e ouvir esta cantata coreografada pelo que então era o diretor artístico do Ballet Nacional Chileno, o também alemão, Ernest Uthoff (*).

Como chegou este senhor ao Chile (?), é uma história interessante.

Para contá-la vou recorrer à minha memória, à memória dos meus pais e àquilo que se pode encontrar num site da net que é Memoria Chilena, lugar onde se guardam algumas histórias e singularidades do meu país.

Conta o meu pai que este coreógrafo integrava a companhia de bailado de Kurt Jooss (**), uma das mais importantes figuras da dança moderna, junto a outro coreógrafo, Rudolf Laban.

Esta companhia terá passado pela Argentina e pelo Chile, e foi nessa viagem que Uthoff decidiu ficar no Chile. Ficaria assim o destino da dança, no meu país, intrinsecamente ligado ao movimento expressionista alemão, do qual mais tarde surgirá uma das figuras mais destacadas da dança contemporânea, Pina Bausch!

O meu pai contava que foi um dos privilegiados ao assistir com minha mãe às representações da companhia de Jooss, A mesa Verde e a coreografia de A Grande Cidade. Jooss foi um coreógrafo que se destacou por imprimir nas suas coreografias o aspecto social: na Grande Cidade, as diferentes classes sociais dançam em diferentes espaços e com diferentes danças, no bailado A Mesa Verde os capitalistas, os detentores do poder, decidem burocraticamente, numa mesa, ir para a guerra, enquanto o jovem soldado parte para o campo de batalha e despede-se da sua namorada e da sua mãe…a cena é retratada como uma dança da morte medieval!

E as recordações continuam: as letras dos poemas de Carmina Burana, foram escritas pelos goliardos (***), nome que Ángel Fácio, encenador espanhol escolheu para a sua companhia independente nos anos 60, uma das mais importantes do movimento teatral espanhol. Em 2017, na Escola Superior Artística do Porto/ESAP, ele foi homenageado pouco antes da sua morte, pela passagem dos 45 anos da encenação de A Casa de Bernarda Alba de Federico Garcia Lorca – cenários e figurinos de José Rodrigues – por ocasião do FITEI/Festival Internacional de Teatro de Expressão Ibérica. Uma exposição de fotografias e maquetes na galeria da ESAP organizada juntamente com a ESAD/ Escola Superior de Arte Dramática da Galiza, o TEP e o FITEI, completava esta homenagem à qual o mestre José Rodrigues não pode assistir, tinha falecido um ano antes.

 A Loren e a Bardot

Um ano são muitas noites e muitas luas, mesmo quando ela parece estar ausente.

Estas duas senhoras viram muitas luas passar, elas são Sofia Loren e Brigitte Bardot, cumpriram esta semana 90 anos. Ambas tinham coisas em comum, foram actrizes, foram belas, fizeram grandes interpretações no ecrã. Da Bardot, o meu filme preferido é Le Mépris (1963), um encontro que parecia improvável entre Jean-Luc Godard, Jack Palance, Fritz Lang e ainda Michele Piccoli.

Da Loren resgato um dos seus últimos filmes, Um Dia Inesquecível – filme realizado por Ettore Scola de 1977 – , um encontro de duas almas solitárias na Roma de Mussolini, que acudiu em massa, num dia muito particular, ao encontro do ditador fascista com Hitler. Tive mais tarde a oportunidade de ver uma versão teatral deste filme.

Uma dame, que desafortunadamente não chegou aos noventa!

Refiro-me a Maggie Smith (1934), grande dama inglesa do teatro, do cinema e da televisão. Aborrece-me que a imprensa apenas se refira aos desempenhos na saga de Harry Potter ou Downton Abbey …Maggie Smith era muita actriz antes destas fitas ou séries!

E a despedida de Kris Kristofferson (1936), um belo actor e músico do country, a quem lembro em muitas fitas, particularmente uma, Alice Doesn’t Live Here Anymore (Alice Já Não Mora Aqui) de 1974, realizado por Martin Scorsese.

Roberto Merino

 

Notas:

(*) nascido na cidade alemã de Duisburg, o bailarino e coreógrafo Ernst Uthoff (1904-1993) ingressou na companhia de Kurt Jooss em 1927, onde assumiu um dos papéis centrais na famosa produção “A mesa verde”, que granjeou prestígio internacional ao grupo. Uthoff foi membro deste grupo até 1941, quando a companhia embarcou em uma tourné pela América do Sul. Um ano depois estabeleceu-se em Santiago com a sua esposa Lola Botka, contratada pelo Instituto de Extensão Musical da Universidade do Chile para criar a Escola de Dança e fundou o Ballet Nacional do Chile. (in Memoria Chilena) 

(**) Kurt Jooss foi um pensador do mundo da dança, bailarino e coreógrafo considerado o precursor da dança teatro ou thanztheater por promover o diálogo entre o ballet clássico, artes visuais e teatro. Foi fundador de várias companhias de dança, a mais notavelmente o Tanztheater Folkwang, em Essen (ALE). Entre 1947 e 1949 trabalhou no Chile, retornando em seguida a Essen e retomou sua posição como diretor de dança da Folkwang University.   (in Memoria Chilena) 

(***) Goliardos, na Idade Média eram clérigos pobres, egressos das universidades. Desamparados pela Igreja, tornavam-se itinerantes (clerici vagantes), vagabundos, de espírito transgressivo e provocador. Em meados do século XIII, perambulavam pelas tavernas, portas das universidades e outros lugares públicos, cantando e declamando seus poemas satíricos, um tanto cínicos, muitas vezes denunciando os abusos e a corrupção da própria Igreja, ou poemas eróticos, frequentemente muito ousados.  

“O Fortuna…” é um poema que faz parte dos manuscritos de Carmina Burana, criado aproximadamente entre os anos de 1100 e 1200. Este poema é dedicado à Fortuna, deusa romana da sorte e da esperança. O poema foi escrito em latim medieval sem levar a métrica latina clássica; ao invés disso, foi escrito com um estilo originado do alto alemão: o Vagantenlieder, um estilo típico dos goliardos. A sua fama atual em todo o mundo deve-se a Carl Orff ter composto a música para este poema e o ter colocado como parte de sua cantata Carmina Burana. (Wikipedia) 

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