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Policrises, Desglobalização, onde estamos, para onde vamos? — Texto 2 – Gráficos da crise (Krisenbilder) – mapeando a policrise.  Por Adam Tooze

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

8 min de leitura

Texto 2 – Gráficos da crise (Krisenbilder) – mapeando a policrise

 Por Adam Tooze

Publicado por  nº 73 em 21 de Janeiro de 2022 (original aqui)

 

Sim, eu sei que isto é implacável. Essa também é uma característica da policrise em que nos encontramos. Ela vem de todos os lados e simplesmente não pára.

Como controlar essa situação?

Em alemão existe um substantivo composto: Krisenbilder – Gráficos da crise. Vou desenhar alguns desses gráficos.

Este liga o medo da guerra Rússia-Ucrânia-EUA à pressão financeira na Rússia…

              Fonte: Timothy Ash

 

e a Ucrânia, onde os Credit Default Swaps (o custo do seguro da dívida pública de acrónimo CDS em inglês) estão a explodir…

 

 

Poderia o Ocidente permitir-se sancionar a Rússia? Em 2014, as sanções dos EUA à Rússia foram cuidadosamente calibradas à luz da situação do mercado petrolífero. Quão mais frágil é a situação hoje.

Quão vulnerável é a administração Biden, dado o medo da inflação nos EUA e na Europa. Se há uma coisa de que a Europa não precisa agora é de mais pressão sobre os preços do gás. Mas a Europa nada fez depois de 2014 para reduzir a sua dependência da Rússia para as importações de gás.

 

Para onde quer que você olhe, essas conexões estão a manifestar-se.

Enquadrando o impasse entre a Rússia e o Ocidente está a China.

Desde a crise ucraniana de 2014, a Rússia desenvolveu uma relação nova e muito mais próxima com Pequim. Será uma reviravolta surpreendente na história da Eurásia se forem as duas crises na Ucrânia (2013/4 e 2021/2) a empurrarem definitivamente a Rússia para os braços da China.

Neste momento, esse mesmo triângulo – EUA-Rússia-China – está a manifestar-se na Europa numa intensa politiquice em torno da Lituânia!

Depois que @noahbarkin relatou que Berlim acreditava que a Lituânia era uma ferramenta importante da política dos EUA versus China (de olho na Rússia) gmfus.org/news/watching-

Nas últimas semanas falei com cerca de uma dezena de altos responsáveis em Berlim, Bruxelas e outras capitais europeias sobre o caso da Lituânia, e está claro que vários Estados-membros estão profundamente desagradados com o modo como a Lituânia tratou a questão de Taiwan. Embora o Alto Representante da EU para a Política Exterior e de Segurança, Josep Borrell, e o comissário para o Comércio, Valdis Dombrovskis, tenham emitido um forte comunicado de solidariedade com a Lituânia no início de Dezembro, a cimeira dos líderes da EU em Bruxelas uma semana depois nada disse sobre o caso. Há uma suspeição generalizada em Berlim – embora não existam provas que a suportem – de que os EUA ajudaram a detonar esta crise dando luz verde à Lituânia para a abertura de um escritório de representação em Vilnius com o nome de Taiwan.

 

Agora, o bem relacionado @Dimi do FT, relata que os EUA estão a usar a sua influência diplomática para suavizar a posição lituana!

Arquive isso em: “Coisas que fazem pensar “Hmmmm…”

Certamente, a China ganha vantagem à medida que aumenta a tensão entre o Ocidente e a Rússia. Ao mesmo tempo, foi a procura crescente da China que desencadeou o “estoiro” explosivo nos mercados globais de gás que colocou tanta pressão sobre os governos na Europa e os colocou nas mãos de Putin.

Contudo, a China também representa outro risco, através da propagação imprevisível do Omicron [n.t. variante do SARS-Cov-2]. Isto poderia infligir mais perturbações nas cadeias de abastecimento globais, transmitindo um choque adicional do lado da oferta e um impulso inflacionista directamente aos EUA e à Europa. Isto expande ainda mais a nossa Krisenbild.

Não admira talvez que ontem se tenha dito que as autoridades dos EUA estavam a acompanhar de perto o desdobramento da ameaça Omicron na China. Pelo menos a este respeito parecemos ter aprendido as lições de Janeiro e Fevereiro de 2020. O que acontece na China não se limita a ficar na China!

E, tudo isto, vertiginosamente, está a desenrolar-se apenas algumas semanas depois de a conferência climática global em Glasgow ter produzido compromissos sem precedentes para o zero líquido – incluindo uma mudança distinta na posição da Rússia – alimentando a conversa (sobre)excitada de “inflação verde”.

Para ser claro, penso que deveríamos encarar muitas destas ligações com um certo grau de ceticismo, nomeadamente o discurso sobre a inflação verde. Mais sobre isso falarei num futuro Chartbook. Mas essas conexões estão “aí fora” na conversa. Como discurso, elas são importantes, quer possamos quantificar ou medir os seus efeitos ou não.

Um mapa como este pode ser útil para fazer um balanço e examinar a variedade de ligações que estão atualmente a ser invocadas, a gama de ligações que estão em jogo.

Muitas das ligações, na verdade o próprio medo da guerra, oscilam entre o real e o hipotético. É a ameaça de uma guerra, ainda hipotética, que está a causar toda a comoção. Mas essa comoção é muito real. Os sustos da guerra são reais.

O filósofo e historiador alemão Reinhart Koselleck falou da diferença entre a modernidade entre o espaço da experiência e o “horizonte de expectativa”. Dado o nosso estado de espírito atual, falar de um horizonte de expectativa parece uma imagem bastante pastoral. O que se pode dizer destes esboços de gráficos de crise é que estes se parecem mais com um mapa mental dos nossos medos.

Mas, com Koselleck, esperemos que esses receios se mantenham no horizonte.

E esperemos também que não sejamos apanhados pelas sombras do passado que assombram esta entrevista sinistra com um dos conservadores mais influentes da Rússia. ( ver aqui, , Anton Barbashin @ABarbashin )

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O autor: Adam Tooze [1967-] é professor de História e diretor do Instituto Europeu na Universidade de Columbia e autor de Statistics and the German State, 1900–1945: The Making of Modern Economic Knowledge (2001), The Wages of Destruction: The Making and Breaking of the Nazi Economy (2006), The Deluge: The Great War, America and the Remaking of the Global Order, 1916–1931 (2014), Crashed: How a Decade of Financial Crises Changed the World (2018), Shutdown: How Covid Shook the World’s Economy (2021).

 

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