Seleção e tradução de Júlio Marques Mota
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Texto 23. Sobre a policrise – Parte I
Questões em Circunferência Conceptual Abstracta
Publicado por
em 24 de Janeiro de 2023 (original aqui)
I.
‘Polycrisis’ é um conceito que tem sido muito popularizado por Adam Tooze. De acordo com um relatório do Cascade Institute, no entanto, este conceito pode ser atribuído ao teórico francês da complexidade Edgar Morin [1] – que atualmente detém a (… aguarde o momento…) Cátedra UNESCO de Pensamento Complexo [2]. O relatório cita o livro de Morin de 1999, Homeland Earth: A Manifesto for the new Millennium:
“Não há um problema vital único, mas muitos problemas vitais, e é esta complexa intersolidariedade de problemas, antagonismos, crises, processos descontrolados e a crise geral do planeta que constitui o problema vital número um.” [3]
Aqui está a definição mais formal dada pelo relatório do Cascade Institute:
“Definimos uma policrise global como qualquer combinação de três ou mais riscos sistémicos em interação com o potencial de causar uma falha em cascata e descontrolada dos sistemas naturais e sociais da Terra que degrada irreversível e catastroficamente as perspetivas da humanidade… Uma policrise global, caso ocorra, herdará as quatro propriedades centrais dos riscos sistémicos – extrema complexidade, alta não linearidade, causalidade transfronteiriça e incerteza profunda – ao mesmo tempo em que apresentará sincronização causal entre os riscos.”
Tooze observa que o seu primeiro contacto com o termo deu-se através de Jean-Claude Juncker, que usou o termo de policrise para descrever a situação perigosa da Europa no período após 2014 [4]. “Achei a ideia de policrise interessante e oportuna”, explica Tooze, “porque o prefixo ‘poli’ direcionava a atenção para a diversidade de desafios sem especificar uma única contradição dominante ou fonte de tensão ou disfunção”. Graças a Tooze, o termo foi adotado de forma mais ampla para descrever a atual série de crises económicas, sociais e ambientais como fundamentalmente interligadas. Chegou mesmo a subir ao palco em Davos [5] – isto apesar (ou talvez precisamente por causa) da estrutura contraditória rastreável à formulação original de Morin (“não há um problema vital único”, mas, simultaneamente, “a crise geral do planeta é o problema vital número um”)…
Tooze deu uma formulação condensada num recente artigo de opinião para o Financial Times publicado no final de outubro de 2022.
“Com choques económicos e não económicos enredados até ao fim, não é de admirar que um termo desconhecido esteja a ganhar força – a policrise. Um problema torna-se uma crise quando desafia a nossa capacidade de lidar e, assim, ameaça a nossa identidade. Na policrise os choques são díspares, mas interagem de modo que o todo é ainda mais avassalador do que a soma das partes.” [6]
Extrema complexidade. Alta não-linearidade. Um todo que é ainda mais avassalador do que a soma das partes. Aos leitores são apresentados em breve alguns dos conceitos básicos da ‘teoria da complexidade’, em particular, o conceito de ‘emergência’. No seu trabalho Problems of Life and Mind, de 1875, George Henry Lewes deu-lhe uma definição filosófica, onde propriedades ou substâncias emergentes “surgem” de entidades mais fundamentais e, no entanto, são “novas” ou “irredutíveis” em relação a elas. [7]
Seguindo essa linha através da teoria da complexidade, “policrise” em sentido estrito significaria não simplesmente somar diferentes crises e tratá-las como uma só (a definição de “há muitas coisas a acontecer”), mas sim um sistema que é “emergente” da sua interação e inter-relação – uma crise maior do que cada crise específica somada. Um mundo subsumido pela policrise torna-se uma espécie de “sistema emergente” de pesadelo, cujas raízes não são redutíveis a uma única causa, daí a necessidade daqueles mapas e gráficos serem melhor capturados por Krisenbilder (“imagens de crise”). [8]
II.
O termo, é claro, já tem os seus críticos, bem como aqueles que parecem não querer lidar ou mesmo trabalhar com as suas origens conceptuais ou com essa especificidade mais estrita de significado, seja na obra de Tooze ou na de outros [9]. Como acaba por acontecer com todo e qualquer conceito, “policrise” certamente que agora saiu dos limites de suas origens, e com isso alcançando uma ampla o suficiente difusão para que seja difícil criticar alguém.
Noah Smith, por exemplo, argumenta que as crises que o termo se propõe descrever não estão necessariamente relacionadas, e acha que aquilo com que estamos a lidar aqui é simplesmente um exemplo da disponibilidade heurística – as pessoas pensam que há todas essas crises porque muitas vezes lemos sobre elas. O medo dos media certamente existe, no entanto, é um movimento interessante concluir um ensaio ostensivamente sobre como “policrise” é um conceito mau como quase o inverso exato dele. Smith, “não vê uma ‘policrise’, mas uma ‘polissolução'”, uma declaração que ele faz numa secção genuinamente intitulada “Dark Brandon vs. the Polycrisis” [n.t. Dark Brandon é uma expressão usada na internet como eufemismo de “que se lixe Joe Biden”] [10]. Gary Indiana escreveu uma vez que o documentarista Errol Morris possuía “um talento definitivo para transformar humanos em pepinos do mar falantes e obcecados por assuntos filosóficos ou históricos que claramente estão para além da sua inteligência” [11]. Smith é o oposto disso – um pepino do mar com talento para convencer os leitores de que é obcecado por questões históricas e filosóficas, conseguindo assim passar como ser humano. A sua análise ocorre em tal altitude analítica e alto nível de generalização que provavelmente o impede de estar errado. Algumas das desestimações arrogantes enquadram-se nessa categoria, que pode ser amplamente dividida entre “isso é falso” e “isso é apenas a história de novo a acontecer ” [12].
Um crítico mais meritório é Guney Isikara, que argumenta que “termos obscuros” como “emergências sobrepostas” (termo adotado pela ONU) [13] e “policrise” funcionam principalmente para ocultar a forma como essas crises são determinadas pelas relações sociais capitalistas.
Embora eu não tenha certeza de que o jargão seja obscuro (combina um termo que todos têm como um sentido coloquial com um prefixo grego com o qual todos deveriam estar familiarizados, embora a natureza aparentemente contraditória da formulação original de Morin sobre “problemas vitais” possa provar que Isikara está correto sobre a sua opacidade fundamental), neste termo parece haver uma nítida falta de menção explícita ao capitalismo num papel determinante em relação a essas crises interligadas e conectadas. [14]
É certo que a autocensura para uma utilização sem mais atritos pode ser confundida com ofuscação ideológica, que é em si mesma diferente da genuína diferença analítica e muito menos política. O que eu penso que se possa dizer com um mínimo de caridade, contudo, é que Tooze ou os autores envolvidos na (excelente e valiosa) série “The Polycrisis” do blog Phenomenal World pretenderiam seguramente considerar que o capitalismo desempenha aí algum tipo de papel determinante [15].
Para não colocar em relevo um ponto muito simples – mas tudo parece depender do que se entende por capitalismo e quão bem o termo pode servir como um recipiente conceptual para essa proliferação multivariada de crises. Para Tooze, o “capitalismo” é demasiado estreito ou, mais especificamente, “monista” (isto é explorado mais detalhadamente na Parte II). Daí a utilidade de um termo como “policrise” — com a sua ênfase na diversidade [16]. Mas talvez a questão mais desconcertante para os críticos marxistas da policrise não seja tanto a estreiteza do termo rival capitalismo, mas o oposto: amplitude conceptual.
III.
Se um dos problemas da policrise é a sua circunferência conceptual abstrata (por outras palavras, se é demasiado ampla para possuir muita especificidade analítica; demasiado aberta à determinação conceptual), há que perguntar em que medida se ganha em especificidade subsumindo simplesmente o complexo de problemas económicos e não económicos (sociais, ambientais, morais, etc.) sob o termo capitalismo que – embora possua certamente a vantagem de ser o destinatário de mais de um século de teorização e invocação político-retórica – indiscutivelmente se encontra em dificuldade com uma questão semelhante em relação à sua largura conceptual.
“A inflação das ideias”, escreveu um dia Perry Anderson a propósito da ‘extensão indeterminada’ do conceito de feudalismo, “tal como as moedas, apenas conduz à sua desvalorização” [17]. Se a história recente de uma editora como a Verso serve de exemplo, a análise do capitalismo proliferou em tantos tipos – foi pedido ao conceito que suportasse o peso analítico de tantos aspetos diferentes – que a força do termo foi certamente desvalorizada ao nível da exatidão analítica. Trata-se de um fenómeno normal. Os conceitos largam sempre as suas origens de uma forma que não é redutível à intenção do pensador original. Assim, o significado de um conceito nunca é apenas redutível à sua origem, mas inclui também a história das suas várias interpretações; mesmo, e por vezes especialmente, as interpretações que podem estar erradas ou em desacordo com o significado pretendido pelo autor original.
No plano da retórica, entretanto, há uma disjunção significativa entre a ocorrência regular do termo capitalismo e a sua análise dentro de certos círculos académicos, intelectuais e até mesmo mediáticos, e a sua relativa falta de uso no cenário político. A análise do capitalismo é simultaneamente retórica e politicamente urgente, mas muitas vezes é ou escolástica tediosa ou demasiado abrangente ao ponto de se tornar vaga.
De facto, mais de uma década após a crise financeira de 2008, dificilmente uma introdução a uma monografia radical pode deixar de mencionar o renascimento do interesse por Marx. Perguntamo-nos quanto tempo isto pode durar. Se a falta de menção ao capitalismo nos anos 90 foi substituída por uma proliferação de análises após 2008, essa proliferação é agora cada vez mais confrontada com uma ansiedade entre os analistas críticos segundo a qual se um outro termo, para além do capitalismo ou de um tipo de capitalismo [18] ganhar alguma utilização, isso venha a representar uma ameaça analítica e política. É difícil não ler isso sintomaticamente como uma reação ao esgotamento analítico das análises do capitalismo na esteira dessa proliferação pós-2008, agora quase 15 anos depois.
De qualquer forma, a pergunta mais interessante para os marxistas aqui, penso eu, não é, “por que é o termo capitalismo e não o termo policrise” ou vice-versa (em parte porque sempre haverá termos de análise que ofuscam o capitalismo numa sociedade capitalista, tão constante quanto a tentativa deveria ser de substituí-los), mas sim, “de que serve o termo policrise para uma análise do capitalismo?” ou mesmo, “o que é que a popularidade do termo policrise pode dizer sobre as fraquezas das análises críticas atuais do capitalismo?” Por outras palavras, quero argumentar que pode haver mais em todo este fenómeno de policrise do que simplesmente ser mais um exemplo de ofuscação ideológica por parte de liberais de esquerda que não estão dispostos a ir suficientemente longe. Afinal, para Adorno, “a falha determinável em todo o conceito requer a citação de outros… a insistência numa única palavra e conceito como o portão de ferro a ser destrancado também é um mero momento, embora inalienável.” [19]
Na segunda parte, examinarei mais de perto a maneira como o próprio Tooze traça as origens do conceito em algumas das suas entradas no seu chartbook, bem como a crítica ao marxismo pré-anos 60 que parece tê-lo levado a ter interesse pelo uso deste termo
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Notas
[1] Como foi observado por Kate Mackenzie e Tim Sahay no seu ‘An Introduction to the Polycrisis’, parte de uma série de ensaios (incrivelmente fascinantes e valiosos) sobre a policrise publicados pela Phenomenal World.
[2] Indiscutivelmente o segundo título académico mais correto. O primeiro é estabelecido por Vijay Gurbaxani – o Professor na Taco Bell de Gestão de Tecnologia na Paul Merage School of Business, UC Irvine. É verdade. Pesquise no Google o seu nome.
[3] Edgar Morin, Homeland Earth: A Manifesto for the New Millenium, (New York: Hampton Press, 1999).
[4] AT Chartbook 165 -Adam Tooze… Polycrisis é um termo que encontrei pela primeira vez quando estava a terminar o livro Crashed em 2017. Foi invocado por Jean-Claude Juncker para descrever a situação perigosa da Europa no período após 2014. No espírito do “Eurotrash”, gostei da ideia de ir buscar um “conceito encontrado” a essa fonte específica. Sobre Juncker, veja-se o maravilhoso retrato de Nick Mulder do “Homo Europus”. Afinal, Juncker foi buscar a ideia ao teórico francês da complexidade e veterano da resistência Edgar Morin, e isso é outra história.
[5] “Davos Worries About a ‘Polycrisis,’” New York Times online em: https://www.nytimes.com/2023/01/17/business/dealbook/davos-world-economic-forum-polycrisis.html
[6] Adam Tooze, “Welcome to the World of the Polycrisis,” Financial Times, online em: https://www.ft.com/content/498398e7-11b1-494b-9cd3-6d669dc3de33
[7] Entrada para “emergence,” Internet Encyclopedia of Philosophy, https://iep.utm.edu/emergence/
[8] ““Uma policrise não é apenas uma situação em que se enfrentam várias crises. É uma situação como a que está representada na matriz de risco, em que o todo é ainda mais perigoso do que a soma das partes.”
[9] Guney Isikara, “Beating around the Bush: Polycrisis, Overlapping Emergencies, and Capitalism,” Developing Economics, online em: https://developingeconomics.org/author/guneyisikara/
[11] Gary Indiana, Fire Seasons: Selected Essays—1984-2021, (New York: Seven Stories Press, 2021): 135.
[13] “Overlapping crises push millions into ‘extreme levels of acute food insecurity”, UN News, online em https://news.un.org/en/story/2022/06/1119752
[14] Parece haver apenas duas ocorrências do termo “capitalismo” nos artigos que compõem a série de publicações “On the Polycrisis” do Phenomenal World. O artigo de Daniel Driscoll, “The Dollar and Climate”, numa nota de rodapé, faz referência a Global Capitalism, de Jeffrey Freiden, e a estudos recentes de Althouse e Svartzman sobre o capitalismo dominado pelas finanças. cf. Althouse e Svartzman, “Bringing subordinated financialisation down to earth: the political ecology of finance-dominated capitalism”, Cambridge Journal of Economics, (46:4, 2022): 679-702. No ensaio “A New Non-Alignment”, Tim Sahay faz referência à forma como “os países em desenvolvimento utilizarão as condições geoeconómicas em violenta mudança desta década para se basearem em velhos modelos de crescimento, incluindo a política industrial e o capitalismo de desenvolvimento estatal”.
[15] https://www.phenomenalworld.org/series/the-polycrisis/
[16] “Os amigos marxistas sentir-se-ão, sem dúvida, tentados a dizer que tudo se resume ao capitalismo e ao seu desenvolvimento em crise. Mas, o mais tardar na década de 1960, a teoria marxista sofisticada tinha abandonado as teorias monistas da crise.” A Parte II incluirá uma leitura mais pormenorizada desta ideia do Chartbook #165.
[17] Perry Anderson, Lineages of the Absolutist State, (London: Verso, 1979): 487
[18] Ver do autor: https://x.com/bo_austin_/status/1584268369313701889?s=20&t=wW-tHEWxb0Rx4fH2db79Sw
[19] Adorno, Negative Dialectics, trans. EB Ashton, (London: Continuum, 2007): 53.
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O autor: Bo Harvey é um investigador sobre questões relacionadas com economia política e filosofia da história.





