O Palco e o Verso: Celebração do Teatro e da Poesia – por Carlos Pereira Martins
António Gomes Marques
O Palco e o Verso: Celebração do Teatro e da Poesia
por Carlos Pereira Martins
A Rosa e as Artes
No palco da vida, a poesia é o suspiro da alma e o teatro, o espelho onde a humanidade se revê. No Dia Mundial do Teatro (27 de Março) e da Poesia (21 de Março), celebramos estas artes que nos elevam, nos inquietam e nos fazem sonhar.
Como na “Rosa de Hiroshima”, essa pétala de versos que nos lembra a fragilidade e a resistência do mundo, a poesia é a palavra que floresce mesmo em terrenos áridos. Não apenas descreve, mas revela; não apenas conta, mas sente. Cada poema é uma rosa, que pode ser bela ou triste, mas nunca indiferente.
Vede como florescem as artes, como desabrocham os gestos e as palavras nos palcos da vida. Que seria do mundo sem a música, sem a poesia, sem a dança subtil que os dedos desenham sobre o mármore e a tela? E, no entanto, há quem passe sem ver, quem respire sem sentir, quem toque sem escutar.
Pensai nas vossas canções favoritas, naquelas melodias que despertam qualquer coisa adormecida dentro de vós. Ouvi bem, pois elas são como rosas. Mas não qualquer rosa – são como aquela que Vinicius de Moraes imortalizou:
“Pensem nas crianças, mudas, telepáticas
Pensem nas meninas, cegas, inexatas…”
Sim, pensai nos que nunca ouviram uma sinfonia, nos que nunca choraram com um verso, nos que nunca estremeceram diante de um quadro. E vede o privilégio que é sentir, que é viver entre as artes, onde cada nota de um piano pode ser um lume aceso na noite da alma.
“Pensem nas mulheres, rotas, alteradas
Pensem nas feridas, como rosas cálidas…”
A arte é a nossa rosa cálida, a que nunca fere, a que nunca destrói. Ela não é aquela outra rosa, seca e explosiva, que marca a pele e o tempo com o seu silêncio de morte. Não, a nossa rosa é viva, é perfume, é cor e sonho.
E não há verdadeira vida sem o teatro, sem a literatura, sem a pintura que capta num só instante a eternidade. Se o mundo fosse apenas o cinzento dos dias, a marcha dos números, o eco dos gritos vazios, que seria de nós?
“Mas oh não se esqueçam, da rosa, da rosa
Da rosa de Hiroshima, a rosa hereditária
A rosa radioativa, estúpida e inválida
A rosa com cirrose, a anti-rosa atómica…”
Não queremos essa rosa, não queremos a mudez do espírito, a cegueira da sensibilidade, a secura da criação. Queremos, sim, a rosa da arte, a que nos salva da mesmice e da brutalidade do tempo.
E por isso cantamos, escrevemos, desenhamos. E por isso lemos, ouvimos, sentimos. Porque a arte não é só passatempo – é chama, é vida, é promessa de beleza num mundo que tantas vezes se esquece de florir.
E o teatro? Ah, o teatro! A arte que dá corpo às palavras, que encarna emoções, que desafia e transcende. Nele, cada actor é um poeta do gesto, cada cena é um verso vivo. Através das máscaras da comédia e da tragédia, o teatro ensina-nos que somos feitos de sonhos e contradições, de grandezas e fragilidades.
Hoje, erguemos a cortina e aplaudimos aqueles que fazem do verbo um refúgio e do palco uma revolução. Que nunca nos falte a poesia para iluminar a existência e o teatro para dar voz à condição humana. Que sejam eternas estas nobres artes que nos fazem sentir vivos.
Viva a Barraca, vivam os meus Amigos Maria do Céu Guerra, Hélder Mateus da Costa, Rita Lello e todos os actores deste e de outros mundos !