São tempos difíceis e estrambóticos estes, quando há muitos a não saber distinguir entre um herói e o vilão, quando há uma maioria a querer assistir a um vídeo de vinte e cinco segundos no telemóvel, com um vocabulário que ‘esfola as redes cerebrais de qualquer pessoa moderadamente responsável e a História pintada com brilhos de néon’, para que o cérebro super-estimulado dos clientes, escolha sempre o discurso mais bizarro, aquele que também se liga à etiqueta mais comerciada, mas obviamente, esquecendo o estado lamentável da saúde pública, da educação, das chacinas e destruições que os ecrãs maiores até mostram por não serem aqui, onde os casos mais importantes são as das ligações extras dos candidatos, ‘mas eu cá, voto há anos naqueles, e não vou mudar!’
Este parágrafo foi uma reflexão sobre o tema, desenvolvido por uma senhora, escritora e doutora em estudos culturais, num jornal desta Europa que querem destruir ou apoucar, tanto a oriente como a ocidente, com a colaboração de muita gente bem colocada por cá, mas que parece ter esquecido o lugar onde pertence, e até assume uma importância que, se calhar, nem merece.
Mas é nestes países, os do ocidente, que vou centrar os temas desta Carta, recorrendo como sempre, às crónicas e comentários de jornalistas com nome firmado no mundo dos media, bem como a notícias dos jornais cuja leitura pratico cada dia, e me ajudam a escrever as Cartas que vou deixando aqui no blogue.
E começo pelo inevitável trumpa, citando o anterior director do ‘La Vanguardia’, por ter escrito no passado dia 25, ‘Está bem claro que as decisões daquele senhor se dividem em duas categorias: as que são ruins e as que são muito ruins’, pois ‘Está a agir como um ditador e a transformar o país numa oligarquia totalitária’, (Carlos Fortea, no ‘Nueva Tribuna’ de 26 de Maio).
Chappatte, ‘Harvard’
‘Le Monde’, 25.05.28
Enquanto oficializa e radicaliza os ataques à Cultura, ordenando a cancelação de todos os contratos federais com a Universidade de Harvard, ameaça, no dia 28, com um novo congelamento de subsídios para investigação, a que ali se continua a fazer, da ordem dos 3 000 milhões de dólares.
Mas não é que tal cavalheiro acabou por ‘parir’ mais um a ideia brilhante, a de pôr os emigrantes a competir num ‘reality show’ para obter a cidadania, onde ‘demonstrassem a capacidade de obedecer a certas ‘tradições’ americanas, numa competição por trabalhos’, de acordo com uma notícia que recolhi na edição digital da Cadena Ser, também daquele dia 25.
E era bem específico: em Nova Iorque a competição pela melhor pizza, lançamento de foguetes na Florida, e mineração de ouro na Califórnia, tudo submetido à votação do público, com cerimónia ao vencedor no Capitólio.
Para o cronista internacional Vidal-Folch, ‘Com Trump assistimos ao êxtase da corrupção individual’. Vale a pena transcrever a notícia onde ele se baseou –‘O Catar dá-lhe um avião de US$ 400 milhões e ele não se desculpa, só se gaba. Diz que teria que ser tolo para recusar o avião. E teria que ser tolo para não mandar fazer memecoins, e dá-las aos cidadãos. Cada membro da família Trump tem sua própria, e biliões de dólares a entrar na caixa’.
A notícia termina com uma sentença perfeitamente adaptada àquele território, ‘Estamos no século XXI e acostumem-se a isso. Não há limites para a ganância, nem há meio-termo quando se trata de política: ou é negócio ou é comunismo’.
Poderia ainda falar na emboscada que ele montou na Sala Oval ao presidente Ramaphosa da África do Sul, com acusações infundadas de perseguição a agricultores, apesar de ali ter ido acompanhado por um branco, que até é o ministro da agricultura; como também poderia falar do seu protegido, o primeiro ministro Netanyahu, por ter admitido que transferiu fundos desde o Catar para a milícia do Hamas. Incongruências ou os crimes de, e na, política internacional.
Mas prefiro terminar escrevendo sobre as coisas cá de casa, seguindo uma notícia do jornal ‘Negócios’ também daquele dia 25, onde se afirma que o Senhor Sousa, ‘abdica de reforma de ex-PR e vai dar aulas no ensino básico e secundário’; mais se diz que vão ser ‘aulas sobre História de Portugal, Constituição e assuntos internacionais e educação, estando a escolher o roteiro das escolas, começando pelo interior’, e ainda voltar a ser curador de museus, a que já terá estado ligado.
Penso que não serão aulas, mas excursões pelo país, tudo pago e com fotógrafos à perna, mais montanhas de selfies, talvez para fazerem parte da sua colecção privada de ‘memecoins à portuguesa’!
E assim vai o mundo!
António M. Oliveira
Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor


