CARTA DE BRAGA – “fato-macaco azul e chapéu de palha” por António Oliveira

O cérebro é um agricultor em fato-macaco azul e chapéu de palha, que se dedica a semear pensamentos, emoções e sensações no campo mental

David del Rosario

 Este senhor foi apresentado na publicação onde li isto, como sendo científico e investigador em neurociência e ele acrescenta mais ‘a realidade é uma percepção individual gerada pelo cérebro com base na genética, na experiência passada e nas previsões do futuro’.

Isto seria verdade até há pouco tempo mas, a crer naquilo que vemos constantemente por todo o lado, as partes da genética e das experiências passadas tendem a ser substituídas por leituras rápidas nas tv’s e demais janelas HauweyGoogleWhatsappInstagramFacebook e não sei quantas mais, onde as previsões do futuro dependem de algoritmos a aproveitar o conhecimento que as redes têm de cada um.

Ora tais previsões não passam de meros conselhos consumistas, afastando do campo mental toda e qualquer possível rejeição, dúvida ou interrogação, gerada por um cérebro inquieto.

Em Janeiro, a organização não-governamental norte-americana ‘Avaaz’, divulgou um manifesto acusando o Youtube, propriedade da Google, de ‘levar milhões de pessoas a ver vídeos de desinformação climática todos os dias, pois o seu algoritmo de recomendações continua um aliado das teorias conspiratórias sobre o aquecimento global’.

O mesmo estudo identificou ainda anúncios de mais de uma centena de grandes empresas internacionais, veiculadas a esses anúncios tóxicos.

Isto parece acompanhar as transformações que as sociedades sofreram decididamente nas últimas décadas, desde o tempo em que as aspirações maiores eram ter trabalho, uma casa para si e para os seus e ‘neste momento parecem apenas ir ao Ikea comprar coisas «monas» porque os outros o fazem também’, afirmou já este ano o filósofo Gilles Lipovetsky.

Aliás, a antropóloga e chefe do comité de ética da Microsoft, Mary L. Gray, referiu há pouco ‘as empresas de tecnologia e os engenheiros pensavam que os usuários queriam informação e resolução. É o momento de valorizar o que nos torna humanos, que é apenas a nossa capacidade de nos ajudar e de nos escutarmos uns aos outros, coisas que as máquinas não podem fazer’.

Mas é um objectivo complicado pois, para Lipovetsky, ‘Há pais que mesmo desempregados, dão aos filhos um iPad, um telemóvel último modelo, sapatilhas de luxo… acho terrível. Uma sociedade cujos eixos exclusivos são os ecrãs, o trabalho e a protecção social, é deprimente. Há que investir na educação. Um dos maiores fracassos das sociedades ocidentais foi a «democratização da cultura»

E acostumados como estamos a consumir tudo pelos ecrãs (até revoluções!), talvez não nos custe assistir aos movimentos contra-revolucionários, patrocinados pelas forças políticas conservadoras, já de si patrocinadas por grandes empresas, por elas já se assumirem a defesa da nação e da parte da História que mais lhe convier (conforme a região).

Tudo parece já demasiado longe daquela imagem do agricultor, com fato-macaco azul e chapéu da palha, com que comecei esta Carta, mas temos de reconhecer que o ser humano, a natureza e as máquinas já não estão separados, mas para podermos voltar a ligar os nossos destinos, teremos de mudar decisivamente a nossa forma de viver!

E para terminar com o mesmo tema com que comecei, lembro que os neurocientistas dizem há muito tempo ‘Jardineiro é a profissão que proporciona melhor bem-estar. É o exercício e a mente em contacto com o ambiente e as plantas. Concentra-se em cada gesto e também é meditação e submissão do ego à existência de outros seres’.

O que eu daria para todos podermos ver o boris do lado de lá, com o boris do lado de cá, na companhia do bolzo, os três de fato-macaco azul e chapéu de palha, joelhos na terra a cuidar de plantas!

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

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