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As sílabas marginais/DA BELEZA/Nelson Ferraz

 

DA BELEZA

 

 

No campo, o vento penteia os cabelos verdes

Com a precisão irregular das borboletas brancas.

Dezenas de borboletas brancas.

Os pássaros bordam as mãos das árvores.

A cabeça está cheia de janelas interiores

Onde as histórias enxugam as várias nascentes

Que são raízes exiladas.

Todas as flores dizem a luz que rasga o tempo

com a claridade da gratidão.

Todas as flores são âncoras de silêncio.

Junto ao rio, as pedras vestem-se de musgo.

As pequenas pedras sublinham as margens

Com a dignidade do seu corpo que é casa.

A beleza é uma circunferência com arestas

Onde o coração semeia substantivos que brilham

Como pássaros brancos.

Pássaros que são traços frágeis poisados na planície

do poema.

Há dias em que só quatro borboletas brancas

Percorrem o campo. Mudas. Silenciosas. Delicadas.

Só quatro. Apenas quatro borboletas brancas.

São uma beleza excessiva.

Mas ao olhar para dentro,

Sem campo sem borboletas sem pássaros sem vento sem rio

Sem o que quer que seja dessa serenidade perfeita

Chego à certeza absoluta:

A beleza é não discutir.

 

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Nelson Ferraz

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