DA BELEZA
No campo, o vento penteia os cabelos verdes
Com a precisão irregular das borboletas brancas.
Dezenas de borboletas brancas.
Os pássaros bordam as mãos das árvores.
A cabeça está cheia de janelas interiores
Onde as histórias enxugam as várias nascentes
Que são raízes exiladas.
Todas as flores dizem a luz que rasga o tempo
com a claridade da gratidão.
Todas as flores são âncoras de silêncio.
Junto ao rio, as pedras vestem-se de musgo.
As pequenas pedras sublinham as margens
Com a dignidade do seu corpo que é casa.
A beleza é uma circunferência com arestas
Onde o coração semeia substantivos que brilham
Como pássaros brancos.
Pássaros que são traços frágeis poisados na planície
do poema.
Há dias em que só quatro borboletas brancas
Percorrem o campo. Mudas. Silenciosas. Delicadas.
Só quatro. Apenas quatro borboletas brancas.
São uma beleza excessiva.
Mas ao olhar para dentro,
Sem campo sem borboletas sem pássaros sem vento sem rio
Sem o que quer que seja dessa serenidade perfeita
Chego à certeza absoluta:
A beleza é não discutir.

