As sílabas marginais/no rosto doce da árvore/Nelson Ferraz

 

 

no rosto doce da árvore

uma parcela minúscula de sol acaricia

timidamente a bruma castanha das folhas inquietas.

e as folhas balançam num compasso de valsa

e de flores anónimas como a distância imprevista

enquanto as borboletas brancas vagueiam

ébrias de cor entre jardins e ribeiros e vales

e montanhas finíssimas de azul translúcido.

o silêncio é transitório e rectangular

entre as sombras enfraquecidas das mãos que hoje

guardamos na boca.

e há uma poeira nómada e brilhante que principia

um cortejo de luzes repentinas pairando sobre a água

meticulosamente límpida e fria de espaços.

nunca o horizonte foi tão linear e tão vazio de pontuação

como agora nesta textual curvatura

de rezas negras.

sentem-se os olhares das páginas desde que chove

e as ventanias incertas magoam profundamente

qualquer coração vegetal

desenhado a lápis como o nosso.

é exactamente assim

desde que os ponteiros dos braços me disseram

que a noite vinha sem fazer ruído.

 

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In “Pois”, Seda Publicações, 2015.

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