no rosto doce da árvore
uma parcela minúscula de sol acaricia
timidamente a bruma castanha das folhas inquietas.
e as folhas balançam num compasso de valsa
e de flores anónimas como a distância imprevista
enquanto as borboletas brancas vagueiam
ébrias de cor entre jardins e ribeiros e vales
e montanhas finíssimas de azul translúcido.
o silêncio é transitório e rectangular
entre as sombras enfraquecidas das mãos que hoje
guardamos na boca.
e há uma poeira nómada e brilhante que principia
um cortejo de luzes repentinas pairando sobre a água
meticulosamente límpida e fria de espaços.
nunca o horizonte foi tão linear e tão vazio de pontuação
como agora nesta textual curvatura
de rezas negras.
sentem-se os olhares das páginas desde que chove
e as ventanias incertas magoam profundamente
qualquer coração vegetal
desenhado a lápis como o nosso.
é exactamente assim
desde que os ponteiros dos braços me disseram
que a noite vinha sem fazer ruído.
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In “Pois”, Seda Publicações, 2015.

