CARTA DE VENEZA – Maria Helena Vieira da Silva e a “Anatomia de um espaço” por Vanessa Castagna
clara castilho
Até 15 de setembro, a Coleção Peggy Guggenheim de Veneza acolhe Anatomia di uno spazio (Anatomia de um espaço), uma marcante retrospetiva dedicada a Maria Helena Vieira da Silva (1908–1992) que, sob a notável curadoria de Flavia Frigeri, reúne cerca de setenta obras provenientes de prestigiadas coleções internacionais.
A exposição proporciona uma visão aprofundada da evolução da linguagem visual da artista portuguesa, desde os seus primórdios na década de 1930 até às suas obras mais maduras, destacando a indagação e representação do espaço – complexo e labiríntico –, onde a abstração e a figuração se compenetram num diálogo constantemente renovado.
Através de um percurso por etapas, é possível apreciar como Vieira da Silva foi transpondo na tela as suas experiências de vida: desde os anos de formação entre Lisboa e Paris, até ao difícil exílio com o marido Árpád Szenès no Rio de Janeiro durante a Segunda Guerra Mundial. A angústia que permeia essa época revela-se em obras como O incêndio I e II (1944), onde figuras filiformes se fundem com as chamas, ou O desastre (1943), onde figuras semelhantes se misturam com as lanças, numa revisitação admirável de uma pintura de Paolo Uccello que a artista terá admirado durante uma viagem de estudo em Itália, realizada em 1928.
Não falta uma homenagem a Veneza, patente na pintura Festa veneziana (1949). Em Veneza, Viera da Silva viria a participar em duas Bienais de arte, respetivamente em 1950 no pavilhão português e em 1954 no pavilhão francês. Mais peculiar é a relação com a própria Peggy Guggenheim, a quem esteve ligada por ser uma das trinta e uma artistas que a colecionadora selecionou para a exposição Exhibition by 31 Women, realizada na galeria nova‑iorquina Art of This Century em 1943.