(Se o meu amor não me engana, ainda havemos de ir ao oculista!)
Juro-vos que não estava mesmo nem a ver mal, nem a ver menos e nem a ver esquisito.
Nem tinha aquela coisa que os mais velhos dizem com ar de mistério: “Já não tenho vista para isto”. Não senhor. A minha vista estava tão boa que até reconhecia vizinhos ao longe… e conseguia distinguir um pastel de Belém de um pastel de nata a 50 metros. Uma águia, basicamente. Se a visão fosse desporto olímpico, eu trazia medalha de ouro, prata e até a de bronze, tudo ganho na mesma prova.
Mas eis senão quando, numa dessas noites em que estava a praticar o desporto nacional — que é zappar entre canais até esquecer o que queria ver — aparece-me um anúncio. E não era um anúncio qualquer, atenção. Era daqueles com música de fundo digna de cinema francês, câmara lenta e uma luz tão suave que até o bigode da Dona Maria da banca do peixe no mercado do bairro parecia sensual.
A cena: uma jovem. Bonita. Bonita daquele tipo que parece que nunca suou, nunca se cansou nem deixou de ser linda em toda a sua vida. Com uns óculos tão modernos que pareciam saídos de uma colaboração entre a NASA e a Zara.
E de repente, aparece um gajo. Não sabemos bem de onde — provavelmente brotou do chão com o guião na mão — e pergunta:
— “Esses óculos são mesmo para veres melhor… ou são só para dar nas vistas?”
Que grande tirada! Tive que pôr o telemóvel em pausa. E a minha vida também. O cérebro parou uns segundos para digerir a pergunta. Fiquei ali especado a olhar para o ecrã como quem olha para um pastel de bacalhau cru: confuso, intrigado e ligeiramente desconfortável.
Mas a verdade é que a pergunta ficou a ecoar na minha cabeça.
“Para ver melhor… ou para dar nas vistas?”
Comecei a olhar para os meus próprios óculos. Humildes, com aros simples, que me acompanhavam desde a altura em que ainda se usava o Hi5. Nunca ninguém me tinha perguntado se eram para dar nas vistas. Nem se seriam para ver melhor, já agora. Comecei a desconfiar. E se os meus óculos… forem invisíveis socialmente? E se estiver a andar por aí como um míope anónimo?
No dia seguinte, entrei na óptica com ar de quem vai mudar de vida. A funcionária aproximou-se, toda simpática, com aquele sorrisinho treinado de quem já viu gente a escolher óculos como se estivesse a comprar um carro de gama muito alta.
— “Bom dia! Está a pensar trocar de graduação?”
— “Não. Estou a pensar trocar de identidade.”
Ela piscou os olhos. Hesitou.
— “Perdão?”
— “Preciso de uns óculos que gritem ‘Estou aqui!’, mas sem parecer que estou desesperado por atenção. Uma coisa com personalidade… mas que não seja um atentado à estética. Sabe, quero dar nas vistas. Não tipo sirene de ambulância, mais tipo ‘olhem que pessoa interessante’.”
Levou-me, então, para a secção dos óculos “com atitude”. Sim, aquilo existia. Havia óculos que tinham mais atitude que desempregado convencido em entrevistas de emprego.
Experimentei uns com armação em madeira reciclada de um barco viking, outros em acetato de abacate, outros com hastes tortas de propósito “para parecer casual”. Saí de lá com uns óculos que pareciam uma obra de arte de conceituada artista, escultora, mas em miniatura. Resultado? Continuo a ver igual. Mas recebo mais olhares na rua do que quando andei com um penso no nariz por causa de uma bola de ténis mal calculada.