Só os burros não aprendem! – por Carlos Pereira Martins

Só os burros não aprendem!

por Carlos Pereira Martins

(com um sorriso nos olhos e os pés bem assentes na Calçada Portuguesa! )

 

(Crónica jubilosa de um lisboeta atento, escrita com as duas mãos e o coração ao alto)

 

Diz o povo – e com razão, que é raro enganar-se nas coisas que realmente importam – que só os burros não aprendem. E se é verdade que há jumentos de duas patas a circular por aí com um teimoso orgulho nas ideias fixas, também é justo aplaudir, de pé e com palmas de cravo vermelho, aqueles que olham para a realidade, respiram fundo e… mudam de ideias. Porque mudar, meus amigos, é viver. Persistir no erro é, no mínimo, fazer figura de quadrúpede.

Pois que se saiba, se tenha visto e se diga em praça pública: houve um momento bonito em Lisboa. 

Não foi milagre nem coincidência astrológica. Foi política – essa arte tantas vezes vilipendiada, cuspida e esquecida, mas que, de quando em vez, ergue a cabeça como o Tejo ao pôr-do-sol e nos lembra que, sim, ainda há esperança no que fazemos juntos!

Dizia-se – e gritou-se com pulmão inteiro em tempos imemoriais! – que O Povo Unido Jamais Será Vencido. Frase que já teve honras de estandarte, eco de megafone, e que serviu de banda sonora às Primaveras, aos Outubros e às noites longas em que se debatiam argumentos e ideias, a de cada um a mais verdadeira e certeira,  por um país mais justo, mais nosso, mais povoado de gente e menos de interesses.

E agora? Agora foi com genuína satisfação, daquela que não se compra, nem se vende, nem se maquilha, que muitos viram as imagens – ainda frescas! – do acordo celebrado entre o Partido Socialista, o Bloco de Esquerda, o Livre e o PAN. Sim, sim, leu bem, caro eleitor: acordo, união, diálogo, promessas recíprocas de esforços conjuntos e vontades declaradas de fazer de Lisboa uma cidade mais humana, habitável e justa. Até parece mentira, mas não: aconteceu mesmo.

Não sabemos o que os votos nas urnas hão-de ditar, nem se os deuses da política local continuarão a soprar bons ventos. Mas que já vale muito este momento, isso ninguém duvide. Porque ver partidos que há pouco estavam mais separados que as estações da Linha de Sintra sentarem-se à mesma mesa, com chá e bolachas ou se calhar vinho e tremoços, não vamos ser hipócritas, é um sinal claro de que ainda se pode fazer política com cabeça e com coração.

E é também a prova de que, por vezes, mudar é um acto de inteligência. Persistir na divisão estéril, na birra programática ou na má vontade institucional é coisa de… enfim, não vou repetir o nome do animal. Todos o conhecem, e nem é justo para ele estar sempre a levar com a culpa.

Lisboa merece mais. Merece melhor. Merece, sobretudo, que quem nela manda – e quem nela quer mandar – olhe para os lisboetas como pessoas de carne, osso, renda e passe Navegante. Gente que quer uma cidade limpa, justa, solidária, verde (mas não só nas árvores), com casas onde caiba uma família sem hipotecar três vidas. Gente que quer dignidade, espaço público, e que não quer sentir-se estrangeira na sua própria rua.

Portanto, esta aliança – seja táctica, estratégica ou apenas fruto de um surto momentâneo de bom senso – é de aplaudir. Com ironia, se quiserem. Com esperança, se puderem. E com responsabilidade, porque não basta assinar papéis bonitos. É preciso cumprir.

E que ninguém se engane: a História está cheia de alianças que pareciam impossíveis e que mudaram o curso dos dias. Se os socialistas, bloquistas, livres e pandaicos (perdoem-me a invenção zoológica) conseguem remar juntos por uma Lisboa melhor, então talvez, só talvez, ainda haja salvação para a República toda.

Saudações de Abril, sempre. Porque Abril não é só um mês: é uma ideia. E as ideias, quando são boas, valem mais do que mil promessas.

2025 Julho 19

2 Comments

  1. Leio com interesse os textos do Dr. Pereira Martins. Só uma observação: se é vulgar falar na falta de inteligência dos burros ( por serem teimosos ? ), acho que qualquer ser humano culto, como é o caso, já sabe que os burros são, no sentido vulgar da palavra, inteligentes. Os chamados, pelos humanos, “animais”, têm uma notável inteligência própria e as tarefas que os burros fizeram para o homem e pelo homem ao longo da História (os burros têm espantosas qualidades de resistência e paciência perante a brutalidade e a estupidez humanas). E não elogiemos certas figuras públicas chamando-as de burros. A estupidez – como acentuou o magnífico Camus – insiste sempre, e não é dos burros.

  2. De facto, há muitos humanos, ou assim considerados, que são muito mais «burros» do que os próprios burros, a quem os humanos muito devem. Os humanos são, muitas vezes, ingratos, o que os burros, os propriamente assim chamados, nunca são.

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