CARTA DE BRAGA – “de idosos e da liberdade” por António Oliveira
clara castilho
Há uns dias, ao ‘folhear’ na net o ‘Página Um’, um jornal digital que se tornou cada vez mais imprescindível pelos temas que aborda, pela maneira séria e assertiva de os tratar, sem deixar nenhum pormenor atrás, deparo-me com um título que, por razões óbvias, tem muito a ver comigo, ‘Mais de 600 mil: nunca houve tantos idosos em risco de pobreza e exclusão’.
E, logo a seguir, vem a explicação– De acordo com cálculos efectuados com base nas percentagens divulgadas pelo Instituto Nacional de Estatística e cruzando esses valores com as estimativas oficiais da população residente, verifica-se que entre 2019 e 2024 houve um acréscimo de uns milhares de idosos na condição de fragilidade socioeconómica– referindo, em números absolutos, que aumentaram, naquele período, mais de quarenta mil, dos cerca de 560 para ultrapassar os 600 mil.
Mas a ‘Nova School of Business and Economics’, adianta que em 2024, ‘mais de 2 milhões de pessoas (cerca de um quinto da população) estavam em risco de pobreza ou exclusão social’, um desafio significativo para este país, com desigualdades regionais e entre diferentes grupos populacionais, como imigrantes, idosos e pessoas com menor escolaridade, sempre os mais vulneráveis.
E, a complicar o panorama, a jornalista Maria Caetano, publica no ‘Jornal de Negócios’ do dia 7, este ‘belo’ parágrafo –Portugal estará, em duas décadas e meia, no topo da lista dos países da UE cujas finanças públicas vão enfrentar maior pressão com os custos de pensões. Apesar das reformas que vieram conter a subida de gastos na aposentação dos trabalhadores, a redução da população activa associada ao envelhecimento e a perspectiva de estabilização na carga fiscal, deixarão o país apenas atrás de Espanha no peso que o pagamento de pensões terá na receita fiscal e contributiva.
Não posso deixar de juntar a estes números, uma reflexão de Norberto Bobbio, o filósofo do Direito que se juntou aos movimentos que combatiam o Mussolini, o que o levou à prisão em duas ocasiões. Numa interpretação quase compassiva de uma sociedade deste tipo, ‘A despolitização a que parecem destinadas as sociedades de massas, pelos excessos de conformismo, e de uma quase indiferença pelo seu aspecto político, em que só se entende por política os momentos opressivos e repressivos da sociedade’, acrescentando ainda, para abranger estas situações, ‘A pós-modernidade, ensaiou assim toda a espécie de “espertezas” ideológicas, para desorganizar e deprimir as classes trabalhadoras, anular as forças transformadoras e desfigurar as históricas teses emancipadoras’.
Mas estes problemas marcam, de algum modo, a humanidade toda, pois de acordo com o ‘Diario 16’, daqui ao lado, numa notícia datada do passado dia 25 de Junho, ‘Quase 700 milhões de pessoas vivem ainda sem acesso à electricidade’ e, se bem que a população mundial com um serviço básico de electricidade, supera os 90%, é urgente aumentar o financiamento internacional, para que todos o possam ter.
Aliás, e de acordo com um estudo da Divisão de Estatística da ONU, do Banco Mundial, da Organização Mundial de Saúde e das diversas agências internacionais de Energia, só na África subsariana estão 18 dos 20 países com maior deficit no acesso à electricidade, com apenas 40 watts por pessoa, frente aos mais de 1.100 watts nos países desenvolvidos.
No DN do dia 2, Patrícia Magalhães Ferreira, consultora Desenvolvimento e Cooperação, escreve ‘O problema não é a escassez de recursos, pois só 1% da riqueza mundial seria suficiente para corresponder às necessidades, mas as prioridades são outras e os incentivos existentes – fiscais, comerciais, económicos, públicos e privados – não estão a ser direccionados de forma adequada’. E a concentração da extrema riqueza, com um punhado de pessoas a acumularem tanta riqueza como 4 mil milhões de pessoas, (a metade mais pobre da humanidade), põe em questão a adequação dos sistemas económicos em vigor, e a possibilidade de redistribuição e regulação, pois ‘A riqueza do homem mais rico do mundo chegava para acabar a pobreza extrema, 22 vezes’.
A escritora e comentadora da ‘Cadena Ser’, Najat el Hachmi, bem conhecedora do problema, explica assim esta e as outras situações, ‘A humanidade tem meios muito mais avançados de resolver conflitos do que o clube primitivo, que ainda permanece primitivo, mesmo quando vestido com tecnologia de ponta. O oposto é uma civilização baseada na justiça e na igualdade. Mas não lhes compensa, não lhes compensa estarem sujeitos às mesmas regras que todos os outros, porque o que querem é sobressair, ser vistos como os melhores, tal como se reflectem no espelho egocêntrico em que se olham’.
Pepe Mujica, o inesquecível e pobre presidente paraguaio, há pouco desaparecido, explicou com outras palavras, a mesma coisa numa entrevista a uma jornalista sul-americana, ‘A vida não é uma mercadoria, é o único bem que não podeis comprar. Quando gastaste a vida atrás do dinheiro, gastaste o que tinhas mais precioso, a liberdade. Liberdade para fazer o que gostas e te motiva. Quanto maior for a parte da vida que dedicas a ganhar dinheiro, mais pequena fica a parte da liberdade. Para mim, antigamente havia o problema das classes sociais, hoje é o desta civilização que nos toca viver’.
E disse!
António M. Oliveira
Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor