CARTA DE BRAGA – “da solidão” por António Oliveira

 

A Carta de hoje baseia-se em duas estórias lidas há algum tempo, mas a merecer apontamento especial pela sensibilidade mostrada pelos intervenientes.

E ainda por exporem uma mentalidade aparentemente arredada deste país, a ver pelo que se afirma num estudo da Organização Mundial de Saúde, divulgado no DN, ‘Estamos no topo da Europa como o país que menos investimento tem para os idosos’.

O artigo afirma haver quase um milhão de idosos em situação de solidão ou isolamento, afectando mais homens que mulheres e em parte associado ao nível de escolaridade; o estudo também salienta ‘a solidão e isolamento dos mais velhos leva ao sofrimento, ao desinteresse pela vida e a estados depressivos que podem ser fatais’.

Mas vamos às estórias – abrindo e lendo jornais vou lá para fora e dou com as palavras de um antigo e já retirado repórter fotográfico de um grande jornal europeu

«Descobri que, ao silêncio, não preciso de dedicar grande esforço e, mesmo assim, tiro dele enormes benefícios. No silêncio consigo ouvir-me!

E o que se diz?

Que não devo perder de vista a simplicidade; colocar a alegria por cima da felicidade; trabalhá-la para a partilhar e celebrar a vida sem andar sempre a queixar-me.

Não lhe dá pena envelhecer?

Sim mas só por tudo o que já não poderei fazer. A vida é curta. Há uma parte de perdas e outra de curiosidade, mas a velhice é uma coisa com muito interesse!»

Creio que também vou praticando isto com empenho, por ter descoberto não saber quase nada do mundo que me rodeia e não sou nem fui dos mais desatentos!

Outra estória transcrevo-a integralmente de um blog diferente – ‘Xilre’ – onde o autor descreve e conta subtilezas de merecer passar ali todos os dias, uma estória com o título ‘Rio inesperado

«Era um casal de nonagenários, cada qual em sua cadeira de rodas, cada com sua cuidadora. Chegados junto ao pequeno rio que tinha feito da rua leito, com nascente no transbordar do lago artificial, estacaram, as cuidadoras hesitantes sobre o caminho a tomar. Olharam uma para a outra e, por uma qualquer sintonia invisível, entenderam-se. Inclinaram a cabeça em sinal de partida e atravessaram o rio a correr, espalhando salpicos de água em arcos polícromos, os quatro rindo num assomo de inesperada felicidade. Na outra margem, limparam as pernas e as lágrimas do riso e seguiram devagar o caminho do sol que se começava a pôr».

Duas estórias que nunca poderão fazer parte da História, mas a merecer a devida atenção, pela humanidade e pela enorme simplicidade.

Só que, na maior parte das vezes, por aquilo que vou lendo, ouvindo ou me vão contando, o panorama é bem mais complicado, e acaba por me trazer à memória uma frase dramática de Camus no seu livro “A peste” e aqui deixo, ‘O hábito do desespero é pior que o próprio desespero’.

Mas resumo assim e aqui, todas essas coisas, lidas, contadas e por mim ouvidas:

Abandonados (quase sempre!) em casas (também) onde são amontoados como velharias e de onde abalam (entenda-se!) sozinhos, ficam à espera de Godot e da hora das pastilhas, da televisão que já nem entendem, ou das refeições de nunca esquecer como se faz!

Sabem que é domingo quando chega alguma (pouca) família, que conversa ou tecla entre si na companhia deles, deles que já nada entendem a não ser as memórias pungentes de lhes encherem a alma!

E vivem-nas, dispersas, dispersos e amam!

Mais quase ninguém entende nem ouve esse amor!

Ámen!

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

 

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