CARTA DE BRAGA – “dos livros aos lobos” por António Oliveira
clara castilho
Se não houver livros, nunca poderei escolher um autor especialista em qualquer assunto, nunca poderei entrar numa livraria ou numa biblioteca, também à cata de uma obra que me possa ajudar no ‘histórico’ desse mesmo assunto, não poderei ler autores como Camões, Camilo, Eça, Saramago ou Cesariny, Sophia, Maria Velho da Costa ou Natália, só para citar alguns, muitíssimo poucos, dos ‘nossos’; terei de ficar pela superficialidade dos 20 segundos do tiktok, ou de qualquer um dos influencers que por aí pululam, e infectam perigosamente os canais dos telemóveis e televisões.
Não há muitos dias, este governo que penamos, anunciou a extinção do Plano Nacional de Leitura e da Rede de Bibliotecas Escolares, creio que, por uma única razão –sem haver leitura, para os que ainda o conseguem fazer– deixará de haver pensamentos divergentes, voltaremos a uma nova versão do ‘Fado, Futebol, e Fátima’, que gramámos durante uma cinquentona de anos, mas, com toda a certeza, entre estes três vai sair beneficiado o Benfica, por ser o clube do coração do antigo comentador André, bem conhecido das noites da Universidade da Bola.
E garante um comentador que o senhor Esteves ‘Se torna um Ulisses às avessas: finge loucura, não para evitar a guerra de Tróia, mas para impedir que o cavalo venturista entre nas bibliotecas; protege a cultura não através do cultivo, mas arrancando-a, destruindo-a, como se, para evitar os fogos rurais, a melhor solução fosse cortar as árvores, decepar os arbustos, ceifar as ervas para, em seguida, se alcatroarem montes e vales’.
No blog ‘Ladrões de Bicicletas’, o professor da Universidade de Coimbra e economista João Rodrigues, resume assim estas medidas a 22 do passado mês.
Um plano para acabar com um plano
“É um plano. É nacional. É de leitura. Três palavras que os liberais até dizer chega, os do mais liberdade para explorar, menos liberdade para florescer, abominam. Três palavras que Fernando Alexandre e Luís Montenegro odeiam. O obscurantismo desta gente é cada vez mais claro. Para isso, precisam de um plano. Eles têm um plano antinacional. Haja, pela nossa parte, iluminismo radical, indissociável de um antifascismo militante”.
Temo sinceramente que esta medida não passe de uma cópia de outra igual do senhor trumpa, que na passada segunda feira dia 25 e, perante os seus apaniguados, afirmava ‘Eles já me chamam presidente da Europa’, referindo os gastos militares e a guerra comercial. Só que, para além deste tema, já devidamente tratado, o livro ‘To Kill a Mockingbird’, em português ‘Mataram a cotovia’, está entre os livros que o tal senhor não quer que os americanos leiam, medida que um jornal defina assim ‘A escuridão invade as bibliotecas dos EUA’.
Na verdade, ‘Já existem mais de 16.000 proibições de livros, de acordo com a PEN América, uma organização de liberdade de expressão que colecta títulos que são retirados ou restritos nas escolas a cada ano’. No ano lectivo de 2023-2024, houve mais de 10.000 proibições, afectando um total de 4.000 livros. O estado republicano da Flórida, onde ele tem a sua mansão, lidera a com 45% de proibições, seguido de Iowa com 36%.
O sociólogo e analista político Antonio Antón, escreve a este propósito, no ‘Publico.es’ do passado dia 26 de Agosto, ‘O ultraconservadorismo luta e alia-se ao novo neoliberalismo supremacista, num novo niilismo moral. Mas não oferece perspectivas consistentes para a solução dos problemas da humanidade, nem para a legitimação entre as populações. O poder duro, coercitivo e militar não se sustenta a médio prazo, muito menos diante das demandas urgentes de amplos sectores do Sul Global. É a tragédia das elites europeias (e americanas), que não conseguem consolidar o poder estratégico nesta fase histórica, e estão fadadas ao fracasso, talvez não antes de causar grande sofrimento humano’.
Apanhei há já alguns anos, esta sentença de José Saramago, que talvez tenha cabimento aqui e agora, ‘É hora de uivar, porque se nos deixarmos levar pelos poderes que nos governam, e não fizermos nada para os contestar, pode dizer-se que merecemos o que temos’.
António M. Oliveira
Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor