CARTA DE BRAGA – “de polícias e seriedade” por António Oliveira

Os polícias são os últimos filósofos do nosso tempo, com certeza por serem os únicos obrigados a justificar permanentemente as suas actuações, mais do que os próprios políticos que os mandam’, afirmou um dia o escritor inglês James Ballard, autor de êxitos editoriais como o ‘Império do sol’ e ‘Crash’, que também deram origem a dois celebrados filmes, com os mesmos nomes. 

Isso seria na Inglaterra dos tempos de Ballard (1930-2009), mas tenho sérias dúvidas se hoje, se poderia aplicar literalmente, tanto como lá como cá, a ver pelos titulares dos órgãos de informação e pelos comentários às notícias que envolvem polícias, ou onde eles se envolvam, mormente nos ‘manhas’ de todas as manhãs.

Creio que a origem desta diferença de pensamento, estará na expectativa que a sua intervenção origina, sem nunca se pensar que eles (sem a farda) estão na mesmas condições de cada um de nós, apesar de todas as excepções que se poderão apresentar, como em qualquer outra profissão. 

Aliás, a sucessão de problemas que nos vai caindo em cima e as reacções que acarretam, levam-me ao já desaparecido filósofo Zygmunt Bauman, ‘Se não há uma boa solução para um dilema, se nenhuma das soluções sensatas nos aproximam da solução, as pessoas tendem a comportar-se irracionalmente, tornando o problema mais complexo e de solução menos aceitável’.

Basta pensar no que se tem passado ultimamente, com ou sem futebóis, com ou sem ‘bolhas’, com ou sem lugares marcados, com ou sem distâncias, com ou sem máscaras, para se ver que a barca é a mesma, que cada um tem uma tarefa a cumprir, a sua, na comunidade e na sociedade a que pertence, ou a que diz pertencer.

Mas estes tempos, apesar do verão, são difíceis de passar neste ‘imobilismo de máscara’ e, como escreve Daniel Innerarity ‘O capitalismo de vigilância é superestimado. Os grupos mais vulneráveis são os que não estavam no radar, os que não têm telemóvel, os trabalhadores sazonais, os migrantes, as pessoas aglomeradas, os idosos em residênciasHoje estamos pensando em termos de maiorias e devemos pensar nas pessoas’.

E, desde a não desprezível vigilância vicinal (ou de janela), com gente a assumir aquele ‘ofício de polícia’, sempre damos conta de ver as pessoas ‘livres’ passar por nós ou ao nosso lado, agora mais assinaladas nas (e pelas) redes sociais, onde cada um é ‘dono’ de uma opinião não rebatível, ou porque ‘Somos libertários que negam qualquer coisa que limite as nossas liberdades individuais? Autoritários que acreditam que só o controlo ou a regulação estatal nos pode salvar? Todas estas ideias assentam numa visão específica do que são os seres humanos. Por isso e para enfrentar a crise, o primeiro a fazer é convertermo-nos em filósofos’ garante o também filósofo esloveno, Slavoj Zizek. 

E, perante estas questões, será Ballard a ter razão, serão os polícias os nossos filósofos de rua, próximos, ao alcance da mão ou de um ‘pssst’, se e quando se justificar, mesmo a nós, os ignorantes, mas ignorados também, das razões das suas actuações?  

Ou estará este mundo a pedir uma ‘operação’ mais vasta, como afirmou não há muito tempo, o realizador Spike Lee, ‘O mundo inteiro precisa de ser reiniciado’? 

Mas nunca deixarão de nos aparecer os do ‘poder’, para nos recordar, numa interpretação restritiva e autoritária da farda, à maneira de Pepe Mujica ‘O poder não muda as pessoas, só mostra quem, na verdade, são!’, eles ou quem a veste.

E talvez seja bom pensar que os próximos anos, poderão ser os tempos do desabrochar do pensamento, em que seremos obrigados a definir-nos pelo que amamos ou pelo que odiamos, pondo de lado a vacuidade paralisante que caracteriza a maior parte da vida actual, porque os ‘porquês?’ não acabarão nunca, até por serem uma das primeiras palavras e interrogações que, logo em criança, aprendemos a dizer e a fazer. 

E estávamos então, bem longe de pensar em filosofias, mas como diria Nietzsche, ‘O homem chega à maturidade quando encara a vida com a mesma seriedade com que uma criança encara uma brincadeira

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

 

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