CARTA DE BRAGA – “da consciência e da desigualdade” por António Oliveira
clara castilho
Edgar Morin acabou de publicar um pequeno ensaio, ´Só um instante’, de onde tirei umas citações, mas usando as das recensões críticas já espalhadas nalguns órgãos de comunicação de carácter cultural, referindo sempre e obviamente, temas da actualidade, uma das características do filósofo e sociólogo francês, (104 anos celebrados em Julho passado).
E neste ensaio está particularmente em evidência a questão da ‘Consciência da consciência’, que abrange a que se refere a si própria e à que refere o mundo exterior, numa oscilação entre a intuição e a reflexão. Não quero, nem este é o lugar para levantar uma qualquer polémica, mas saliento ainda o que Morin acrescenta, ‘A consciência, como resultante das acções neuronais inseparáveis do conjunto das actividades do cérebro é, simultaneamente, reflexiva, intuitiva, subjectiva e objectivante’, e mais assertivo ainda ‘A verdadeira consciência consiste em tomar consciência de si, o que pressupõe também tomar consciência de nossa dependência dos outros’.
O filósofo sul-coreano Byung-Chul Han, professor na Universidade de Artes em Berlim, em entrevista ao ‘Nueva Tribuna’ no dia último do passado mês, afirma por seu lado ‘Algo está errado com a nossa sociedade. Meus escritos são uma denúncia, por vezes bastante contundente, contra a sociedade contemporânea’; e adianta, como que a justificar esta afirmação, ‘Imaginamos ser livres, mas, na realidade, o que fazemos é explorarmo-nos voluntária e entusiasticamente até ao colapso… Somos como o escravo que arranca o chicote do seu senhor e se açoita, acreditando que só assim se liberta. Essa é uma miragem de liberdade. A auto-exploração é muito mais eficaz do que ser explorado por outros, por criar essa falsa sensação de liberdade. Muitas vezes, os seres humanos acabam por se tornar escravos de sua própria criação’.
Talvez tudo isto tenha levado Alessandro Pinzani, prof. de Ética e Filosofia na Universidade de Santa Catarina, a afirmar ao mesmo periódico no passado dia 8, ‘Estamos a retornar a uma sociedade de castas. A pobreza, não desaparecerá enquanto a tratarmos como um fenómeno natural. Precisamos entendê-la como ‘resultado de acções humanas’, como um produto político; existe um viés ontológico em relação aos pobres’, uma maneira de tratar a pobreza como uma essência em vez de uma situação, o que nos leva a ‘considerá-los como se não fizessem parte da nossa sociedade, como se fossem elementos estranhos’.
Esta situação parece estar a ser levada ao extremo pelo ‘loiro’ americano, que também parece determinado ‘a encher os cofres americanos à custa de outros países e das pessoas mais vulneráveis do mundo’, noticia o ‘El País’ no dia 5 deste mês. Além dos cortes na ajuda externa e dos aumentos acentuados nas tarifas, o ‘grande e belo projecto de lei’ de sua administração introduz um novo imposto de 1% sobre as remessas enviadas dos Estados Unidos, e pagas com instrumentos físicos (dinheiro, cheques e ordens de pagamento). Esse ‘imposto sobre os pobres’, como lhe chama a presidente mexicana, dará origem a graves custos económicos e sociais, para os países em desenvolvimento.
Para Hippolyte Fofack, economista-chefe do Banco Africano de Exportação e Importação, e ainda de acordo com o mesmo periódico, ‘Uma diminuição nas remessas, juntamente com os cortes da ajuda internacional, pode causar depreciação da moeda local, pressões inflacionárias e agravamento da instabilidade nos países em desenvolvimento; riscos particularmente graves nos países altamente endividados, que serão mais vulneráveis a interrupções no comércio e nos fluxos de capital’.
E, dentro deste campo, é conveniente dar o relevo merecido a esta afirmação do Prémio Nobel de Economia Joseph Stiglitz, também no mesmo jornal, mas do dia 4, ao alertar ‘Os países com alta desigualdade, têm sete vezes mais chances de sofrer um declínio democrático, do que aqueles com desigualdades mais equitativas, que se concentram na riqueza herdada e no controle das empresas de tecnologia’.
Stiglitz esteve à frente de comité de seis especialistas que elaborou o relatório que descreve o momento actual, com alta concentração de riqueza pelos mais privilegiados; esse estudo, preparado pelo Comité Extraordinário de Especialistas Independentes sobre Desigualdade Global, foi encomendado pelo presidente sul-africano Cyril Ramaphosa, durante a presidência sul-africana do G-20. E assim:
{Desigualdade de renda e riqueza traduz-se em desigualdades na saúde, no acesso à justiça e oportunidades e, além disso, o 1% mais rico viu a sua riqueza aumentar em média 1,3 milhões de dólares (cerca de 1,12 milhões de euros) desde 2000, em comparação com a média de 585 dólares (cerca de 508 euros) para a metade mais pobre do planeta, 83% dos países, representando 90% da população mundial, atendendo à definição de alta desigualdade do Banco Mundial}
‘Esse problema é agravado pelo surgimento de grandes plataformas de tecnologia, que colocaram o controle dos media sociais –que é, por assim dizer, a praça pública do século 21– nas mãos de alguns bilionários’, acrescenta e explica também. ‘As empresas de tecnologianão apenas afectam a política da maneira usual, por meio da influência ou financiamento de campanhas e políticos, mas também o fazem indirectamente, controlando os media, incluindo os media sociais. Isso é muito importante, porque os algoritmos determinam o que as pessoas vêem e isso determina como elas também vêem o mundo’, acrescenta Stiglitz.
‘A desigualdade é uma traição à dignidade das pessoas, um impedimento ao crescimento inclusivo e uma ameaça à própria democracia. Enfrentá-lo é um desafio geracional inevitável’, disse também Ramaphosa, num comunicado da presidência sul-africana.
António M. Oliveira
Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor