CARTA DE BRAGA – “Haia, boçalnaro e consciência” por António Oliveira

A notícia estava na primeira página de um jornal lá de fora, no dia 19 de Dezembro e passeia-a para aqui pois não a vi, nesse dia, em mais nenhum jornal, a não ser num outro, também lá de fora.

Dizia assim – ‘O genocídio indígena já tem um responsável’ e o subtítulo explicava ‘O tribunal de Haia, aceitou uma acusação contra o presidente brasileiro. Aponta-o como autor do genocídio dos povos originários do Brasil’.

No corpo da notícia afirmava-se que as políticas de extermínio dos indígenas se agudizaram no Brasil, durante a ditadura que ali se instalou em 1964, ‘pelo gotejar silencioso de leis e decretos a beneficiar a actividade industrial, que devastou uma larga extensão da Amazónia’.

Um ataque em que os indígenas foram vítimas da violência militar então imposta, (oitenta mil mortos!), foi intensificada com a chegada de boçalnaro, que não fez questão de esconder ou disfarçar ‘a ânsia em impor a sua visão abjecta a respeito da origem dos povos ancestrais, as suas diligências para se invadirem as reservas para exploração mineira e «recuperar território» para actividades comerciais’.

As provas contra boçalnaro são muitas e irrefutáveis, principalmente a sua decisão, em plena crise sanitária mundial, ‘os povos originários não receberão assistência médica, uma prova mais do desprezo pela vida de quem – mais tarde ou mais cedo – deverá sentar-se no banco dos acusados’, afirma o Colectivo de Advogados pelos Direitos Humanos do Brasil.

Recorde-se que entre Agosto de 2019 e Julho de 2020, se perderam 626 milhões de árvores na Amazónia brasileira, a cifra mais alta da década.

A destruição da selva é uma ameaça não só para aquela região, mas também para a vida e o futuro a humanidade, pois a Amazónia é fundamental para regular o sistema climático global e o regime de chuvas nas outras regiões do planeta.

Junte-se a isto a recente entrada da água na bolsa de Wall Street e teremos um drama a pedir a pena de um Dostoiévski, porque as crises alimentares (entre as outras) são bem a demonstração dos efeitos do financiamento global dos recursos básicos para a vida, do planeta.

Se tudo continuar assim, avisa Pedro Arrojo, novo Relator da ONU para os Direitos Humanos à Água Potável e Saneamento, ‘Acaba tudo! Não existirá o interesse geral, mas o interesse do mercado, onde o leão sempre come o cordeiro’.

A terminar e no mesmo jornal, mas uns dias antes, publicava um cartoon com um casal a conversar. Diz ele ‘A água passa a estar cotada em Wall Street!’ ao que ela responde ‘Agora chover será comunista!

Uma boa passagem para uma reflexão a condizer com a dimensão de José Saramago ‘A alternativa ao liberalismo chama-se consciência’.

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

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