Graças ao Josep A. Vidal, descobri a versão completa do Canzo e a tradução portuguesa que vai abaixo, e que não resisti a trazer aqui. Espero que o Josep e quem mais o desejar nos digam mais qualquer coisa sobre esta canção, os trovadores, Guilherme IX da Aquitânia e afins. Obrigado à Graça Videira Lopes,do Departamento de Estudos Portugueses da Universidade Nova, à revista on-line Medievalista, da Universidade Nova, e, claro, ao Josep. Espero que esteja correcto traduzir “Canzo” por “Cantiga”.
Canzo
Ab la dolçor del temps novel
folhon li bosc, e li aucel
chanton chascus en lor latí
segon lo vers del nòvel chan;
adonc està já qu’òm s’aisí
d’aissò dont òm a plus talan.
De lai don plus m’es já e bel
non vei messatger ni sagel,
per que mos cors non dorm ni ri,
ni no m’aus traire adenan,
tro que sacha já de la fi
s’el’ es aissí com eu deman.
La nostr’amor vai enaissí
com la brancha de l’albespí
qu’està sobre l’arbre en treman,
la noit, a la ploia ez al gel,
tro l’endeman, que ‘l sols s’espan
per las folhas vertz e ‘l ramel.
Enquer me membra d’un matí
que nos fezem de guerra fi,
e que.m donet un don tan gran:
sa drudaria e son anel:
enquer me lais Deus viure tan
qu’aja mas mans sotz son mantel!
Qu’eu non ai sonh d’estranh latí
que.m parta de mon Já Vezí:
qu’eu sai de paraulas com van
ab un brèu sermon que s’espel,
Que tals se van d’amor gaban,
Nos n’avem la pessa e ‘l coutel.
Canção
Com a doçura do tempo novo
florescem os bosques e as aves
cantam cada uma delas no seu latim
segundo os versos do novo canto;
convém portanto que se ocupe assim
cada um daquilo que mais anseia.
Dali, da melhor e mais bela morada,
não vem mensageiro nem carta selada,
pelo que o meu corpo não dorme nem ri
e nem mesmo ouso seguir adiante,
até que saiba bem desse fim,
se ele é assim como eu reclamo.
Com o nosso amor acontece assim
como com o ramo do branco-espinho
que está sobre a árvore tremendo
à noite, à chuva e ao gelo,
até ao novo dia,quando o sol se expande
pelas folhas verdes e o ramo.
Lembro-me ainda de uma manhã
em que pusemos à guerra fim
e em que me deu um dom tão grande:
o seu corpo amado e o seu anel;
que Deus me deixe viver o bastante
para ter minhas mãos sob o seu mantel!
E caso não farei de estranho latim
que me afaste do meu “Bom Vizinho”:
pois sei de palavras como vão
num breve discurso que se espalha…
Que alguns se vão de amor gabando
mas nós temos a carne e o cutelo.

