O El País de sábado passado, dia 13 de Agosto, na página da opinião, informa que está a ter um grande sucesso um filme indiano rodado em Espanha. Ao que compreendi os personagens são indianos, mas a acção decorre em Espanha. Três jovens vêm fazer a despedida de solteiro de um deles na terra do Zapatero e do João Carlos (não sei se infringi o protocolo pondo o rei em segundo lugar, mas é que eu sou republicano). O El País (desculpem a repetição do artigo definido) é de opinião que se trata de uma boa coisa, até para o turismo, pois no futuro os visitantes de Espanha serão com certeza, em boa parte, provenientes dos chamados países emergentes, BRIC, ou com outro nome parecido. O público indiano está a adorar. A canção Señorita, cantada pela Maria del Mar Fernandez, é a canção de Verão lá na Índia. O filme até foi patrocinado pela Turespaña. Falando claramente, é vantajoso que os indianos tenham boa impressão de Espanha e dos espanhóis, no sentido de, num futuro próximo, sobretudo os mais endinheirados de entre eles, viram fazer turismo aqui ao lado (talvez até venham ao Algarve, se as portagens não continuarem a proliferar), e, quem sabe, fazerem uns investimentos. Eu pessoalmente, até nem acho mal. Mas ao ler isto, que querem, lembrei-me da globalização.
E perguntei a mim próprio porque é que de repente deixaram todos de falar da globalização. Há uns três ou quatro anos não se falava de outra coisa. Toda a gente a trazia na boca. Que era irreversível. Imparável. E mais não sei quantas outras coisas. Terá sido a crise? Ou foi a globalização que trouxe a crise? Vocês o que acham?
Aqui há uns meses li num jornal qualquer que a Ângela Merkel era contra a adesão da Turquia à União Europeia (UE), por causa da matriz cristã da Europa. E que o Sarkozy também partilhava desta douta opinião (e já agora também o nazi norueguês que chacinou mais de 70 pessoas para defender, diz ele, a civilização ocidental). Hoje na televisão (não me perguntem em que canal) ouvi um cavalheiro com ar sério dizer que a Merkel é uma política muito experimentada, que deixa as coisas acontecer, para depois se posicionar. Não o terá feito no caso da adesão da Turquia. Também é verdade que há tempos ouvi o venerando Luís Filipe Menezes chamar-lhe “pequena contabilista da RDA”, ou uma coisa parecida. Não quero analisar aqui os méritos da senhora (ou a falta deles), mas na minha humilde opinião ela é uma autêntica enguia (não pelo físico, claro). E ao ir contra a adesão da Turquia, também está a desdenhar na globalização. Ou será que não?
O que pergunto é o que terá acontecido à globalização. Não é que eu seja um globalizante convicto, de modo nenhum. É que me faz espécie como é que a globalização tinha tantos defensores ainda há pouco tempo, e, de repente, nicles. Que querem? Faz-me confusão.
Mas não será que, quando os tipos do Bollywood vêm fazer fitas aqui ao lado, estamos em plena globalização? E que nós, ao fecharmos (desculpem, a Merkel e o Sarkozy é que fecham) a porta aos turcos, vamos em sentido inverso?
No século XVI a Índia e a China, cultural e economicamente, eram os países mais avançados do mundo. Depois, sucedeu o que se sabe. Os panos de Manchester, a superioridade marítima ocidental, a tecnologia militar, o comércio internacional, livre para uns, para outros não, por aí fora, trouxeram a situação inversa. Foi uma espécie de globalização inclinada para um lado. Mas, a realização em casa dos nuestros hermanos do filme indiano (chama-se Só se vive uma vez, ao que parece) não será um sinal de a mesa, o campo (perdoem a metáfora futebolística) da globalização se estar a inclinar para outro lado? Esses sinais proliferam em vários campos, sobretudo no económico.
Mas há uma coisa que parece global. Pelo menos porque nos afecta a todos. É a crise financeira. O El País, também no sábado passado, na página de opinião, reproduz um texto do New York Times, de 11 de Agosto, que pergunta o que se passa com o crescimento. O crescimento económico, bem entendido. Faz o reparo de que nunca a economia mundial dependeu tanto dos países em desenvolvimento. Refere-se à Idade Contemporânea, evidentemente. Os próprios países em desenvolvimento são vulneráveis à turbulência financeira e à debilidade económica dos países ricos (os termos são do New York Times). Por lado, situações como a criada pelo superavit comercial de países como a China e a Alemanha (olha os submarinos!) acabam por afectar o crescimento económico. Eu pergunto: será que a globalização é uma coisa perigosa?
O George Soros terá dito há dias que Portugal e a Grécia deviam sair do euro. Eu que, quanto a especulação financeira, em toda a minha vida, comprei dois pprs, um para mim, outro para a minha esposa, tenho dúvidas. O que desconfio é de que o Soros, e os outros como ele, têm uma ideia muito própria sobre a globalização. E que essa ideia contribuiu grandemente para a tal turbulência financeira (o termo é do New York Times).
