Globalização e Desindustrialização-4ª Série

Capitulo III.  Alguns retratos mais sobre a globalização, sobre a desindustrialização

 

6. Os curiosos caminhos da desindustrialização: a indústria europeia na hora sino-indiana

 

Joël Ruet e Thomas Eymond-Laritaz

 

Nestas  últimas semanas, se a Europa monetária  inquieta, a Europa industrial atrai. 

 

O indiano Tata Communications está a considerar a compra do britânico Cable & Wireless (C & W), avaliada em um milhar de milhões de euros.


O chinês Great Wall, primeiro construtor de veículos comerciais, abre uma fábrica de montagem de viaturas  na Bulgária, com um  investimento calculado em 97 milhões de euros – mas com um objectivo de 50.000 veículos vendidos na Europa em  2015. Sinais de um movimento de fundo, o China Investment Corporation (CIC), o fundo público  chinês, aponta para 30 mil milhões de euros de investimento na Europa “em crise”.


Esta vaga  de investimentos  chineses  e indianos  não deixará de  levantar questões dos decisores políticos europeus e à  opinião pública: que interesses estratégicos é que eles representam para a indústria europeia? 

 

Tata não esconde que se quer aproveitar da crise na Europa e o seu concorrente indiano e grande rival Infosys (tecnologia da informação) procura em  França e na Alemanha dos activos de nicho com uma boa  valorização, ou seja, depreciados  porque os seus modelos económicos são considerados esgotados.

 

Cavalo de Troia

 

O modelo chinês de Great Wall – que é para montar na Bulgária a partir de peças feitas na China – poderia também levar algumas pessoas a pensar que se trata de um cavalo de Tróia para contornar os impostos aduaneiras.

 

A verdadeira questão que deve ser levantada é, na verdade, de natureza diferente: numa Europa em crise onde os ocidentais estão relutantes em investir, a chegada de investimentos chineses e indianos permitirão-eles salvar ou até mesmo criar postos de trabalho no nosso velho continente? Os exemplos falam por si.


Em 2008, Tata Motors comprou a Jaguar Land Rover que estava em situação de extrema dificuldade  e, hoje, estas marcas são florescentes  quando a marca sueca Saab, que os chineses não puderam comprar  teve que fechar. Os investimentos portuários de  Cosco (China Ocean Shipping Company) na Grécia conduziram  a um aumento de 50% das exportações da Grécia para a China e isto em dois anos. 


O grupo automóvel Chery pretende reabrir uma antiga fábrica da Fiat na Sicília com o italiano DR.Motor. Great Wall planeia criar 2.000 empregos na Bulgária. Porque quem diz criação de valor industrial também diz criação de emprego.

 

Acalmar os decisores

 

Será isto suficiente para convencer os governos e a opinião pública europeia  para abriras suas portas aos recém-chegados? Nada disso é menos certo. 


Se a Polónia, a Bulgária ou a Itália meridional aplaudem todo e  qualquer novo investimento,  mesmo  vindo da longínqua  Ásia, o coração da Europa industrial está mais hesitante. Mesmo na City. Tata quer aliar-se com grandes nomes do capital em investimento para partilhar riscos em C & W  e tranquilizar seus clientes do governo. 


A situação não deixa de ser bem curiosa: as potências ocidentais, que pregaram durante anos, inclusive pela voz do Fundo Monetário Internacional (FMI) e pela do Banco Mundial, que os países emergentes devem abrir os seus mercados de capital aos investidores estrangeiros, vêem-se agora acusados por estes atores emergentes, que se tornaram entretanto ricos, de lhes fecharem eles as portas!


O FMI e o Banco Mundial, continuando a estar nas mãos do Ocidente, os chineses e os indianos terão que  intensificar os seus esforços de comunicação para tranquilizar os decisores públicos e a opinião pública Ocidental. . Estes investidores do novo mundo terão de demonstrar que eles criam postos de trabalho não só no curto prazo, mas também que eles investem  a longo prazo e artilham  um mesmo sistema de valores com a velha Europa.


Infelizmente, um grande investidor institucional chinês declarou recentemente que na Europa ” as leis do trabalho estão ultrapassadas (e) induzem à preguiça, à indolência”. Provavelmente não será com este tipo de argumentos que a Europa se irá abrir…


Joël Ruet, e Thomas Eymond-Laritaz, L’industrie européenne à l’heure sino-indienne, Le Monde, 19.03.2012.

 

Joël Ruet, economista no CNRS, associado em l’Iddri-Sciences Po (com  Thomas Eymond-Laritaz, engenheiro de Ècoles des Mines)

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