(Continuação)
3. Sair do dilema: que a Europa se proteja
Pelo facto de que os países cronicamente deficitários eles mesmos continuarem a proibir o proteccionismo aduaneiro, os países com excedentes consideram que têm nenhuma razão de alterar a sua política de câmbio para ter em conta as dificuldades de que sofrem os países deficitários.
A renovação dos excedentes comerciais é a prova que as taxas de câmbio não estão ao nível adequado. O princípio de Bretton-Woods é o do reequilíbrio do comércio através da variação das taxas de câmbio; a ausência de reavaliação do yuan, apesar dos excedentes maciços e renovados, constitui uma negação dos princípios de Bretton-Woods.
A referência em matéria de respeito pelas cotações cambiais reside nas paridades de poder de compra. Neste caso, a taxa à paridade do poder de compra exigiria que o valor do euro em dólares e em yuans fosse respectivamente de 1,18 dólares e de 4,67 yuans; em vez disso, tem-se um euro a 1,40 dólares e a 9,20 yuans.
Não se pode resolver o problema do défice orçamental sem estar a resolver o problema do défice comercial. Em países agrícolas e desindustrializados como têm sido e como o são actualmente a Grécia e Portugal, reabsorver o défice orçamental sem estar a rectificar as trocas comerciais constitui uma missão completamente impossível de realizar.
Os países da Europa do Sul pagam assim muito caro a sobre-avaliação do euro contra o yuan e contra o dólar.
Aquando do nascimento da zona euro, estava previsto que Portugal se tornasse a fábrica da Europa; não foi nada assim. Foi directamente a China que, de maneira desleal, se tornou a fábrica da Europa em detrimento de Portugal, da Espanha, da Itália mas igualmente também em detrimento da região do Norte de África…
O BCE é actualmente o único banco central que nunca impediu nem nunca limitou a apreciação da sua moeda. Os investidores sabem-no e arbitram demasiado frequentemente as moedas fracas vendendo-as contra a aquisição de euro… A própria atitude do BCE contribui para que o euro seja cada vez mais forte.
O BCE tem durante muito tempo justificado a sua recusa da compra de dólares contra euros por dois argumentos: o impacto que tais compras exercem sobre a massa monetária; o facto de que o euro, ele mesmo, ter vocação a rivalizar com o dólar para se tornar moeda de reserva. O primeiro argumento cai de imediato: desde há 3 anos que a massa monetária evolui apenas + 2% ao ano (contra + 8% ao ano antes da crise). O segundo argumento caiu também: uma consequência da crise da Europa do Sul é o facto de que actualmente o euro está sem condições para se tornar moeda de reserva. Não há pois nenhum argumento para justificar a passividade do BCE quanto ao valor do euro enquanto divisa.
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Entre 2001 e 2008, o euro apreciou-se cerca de de 100% face ao dólar e de 65% contra o yuan chinês.
O que espera por conseguinte o BCE para intervir? Deixando o euro alcançar o valor de 1,40 dólares e deixá-lo até subir para 1,60 dólares, agrava ainda a crise dos países da Europa do Sul.
Se o BCE tivesse bloqueado as cotações a 1,20 dólares por euro ao qual voltou o euro na Primavera de 2009, tal facto teria ajudado muito os países da Europa do Sul.
O BCE pode justificar um aumento mínimo da sua taxa directora para dominar as antecipações de inflação e limitar o aumento das taxas longas. Mas então, deve intervir sobre o mercado cambial para impedir que as pressões à alta sobre sobre o euro se concretizem .
Manter a todo o custo a Grécia e Portugal na zona euro quando além disso nada se faz para enfraquecer o euro sobre o mercado cambial, seria conduzir a Alemanha e a França a comprometerem-se num refinanciamento renovado destes dois países, o que excede a sua capacidade financeira. No fim de contas, seriam afinal todos os países da zona euro que se reencontrariam fortemente endividados em relação à China.
A verdadeira saída de crise da zona euro consiste num proteccionismo aduaneiro à escala da Europa articulado este com intervenções no mercado de câmbios feitas pelo BCE. Desta maneira, o comércio externo seria corrigido, o que dinamizaria a actividade económica e, por último, permitiria os esforços orçamentais que se traduziriam certamente numa correcção das finanças públicas.
(Continua)
