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A crise, a Europa, e o Mediterrâneo . 4 – Jean-Paul Guichard (traduzido e enviado por Júlio Marques Mota)

(Continuação)

 

3. Sair do dilema: que a Europa se proteja

 

Pelo facto de que os países cronicamente deficitários eles mesmos continuarem a proibir o proteccionismo aduaneiro, os países com excedentes consideram que têm nenhuma razão de alterar a sua política de câmbio para ter em conta as dificuldades de que  sofrem os países deficitários.

 

A renovação dos excedentes comerciais é a prova que as taxas de câmbio não estão ao nível adequado. O princípio de Bretton-Woods é o do reequilíbrio do comércio através da variação das  taxas de câmbio; a ausência de reavaliação do yuan, apesar dos  excedentes maciços e renovados,  constitui uma negação dos princípios de Bretton-Woods.

 

A referência em matéria de respeito pelas cotações cambiais  reside nas paridades de poder de compra.  Neste caso, a taxa à paridade do poder de compra  exigiria   que o valor do euro em dólares e em  yuans fosse  respectivamente de   1,18 dólares e de 4,67 yuans; em vez disso, tem-se um euro a  1,40 dólares  e a 9,20 yuans.

 

Não se pode resolver o problema do défice orçamental sem estar a resolver o problema do défice comercial. Em países agrícolas e desindustrializados como têm sido  e como o são actualmente  a Grécia e Portugal, reabsorver o défice orçamental sem estar a rectificar as trocas comerciais constitui uma missão completamente impossível de realizar.

 

Os países da Europa do Sul pagam assim muito caro a sobre-avaliação do  euro contra o yuan e contra o dólar.

Aquando do  nascimento da zona euro, estava previsto que Portugal se tornasse  a fábrica da Europa; não foi nada assim. Foi  directamente a China que, de maneira desleal, se tornou a fábrica da Europa em detrimento de Portugal, da Espanha, da Itália mas igualmente também em detrimento da região do Norte de África…

 

O BCE é actualmente  o único banco central que nunca   impediu   nem nunca  limitou   a apreciação da sua moeda. Os investidores sabem-no e arbitram demasiado frequentemente as moedas fracas vendendo-as  contra a aquisição de euro… A própria atitude do BCE contribui para que o euro seja cada vez mais forte.

 

O BCE tem durante muito tempo justificado a sua recusa da compra de dólares contra euros por dois argumentos: o impacto que tais compras exercem sobre a massa monetária; o facto de que o euro, ele mesmo, ter  vocação a rivalizar com o dólar para  se tornar  moeda de reserva. O primeiro argumento cai de imediato: desde há 3 anos que  a massa monetária evolui apenas +  2% ao ano (contra + 8% ao ano antes da crise). O segundo argumento caiu também: uma consequência da crise da Europa do Sul é o facto de que actualmente   o euro está sem condições  para se tornar moeda de reserva. Não há pois nenhum argumento para justificar a passividade do BCE quanto ao valor do euro enquanto divisa. 

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Entre 2001 e 2008, o euro apreciou-se cerca de de 100% face ao  dólar e de 65% contra  o yuan chinês.

O que espera por conseguinte o BCE para intervir? Deixando o euro alcançar o valor de  1,40 dólares   e deixá-lo até  subir para 1,60 dólares, agrava ainda a crise dos países da Europa do Sul.

 

Se o BCE tivesse bloqueado as cotações  a  1,20 dólares por euro ao qual voltou o euro na Primavera de 2009, tal facto  teria ajudado muito os países da Europa do Sul.

 

O BCE pode justificar um aumento mínimo da sua taxa directora para dominar as antecipações de inflação e limitar o aumento das taxas longas. Mas então, deve intervir   sobre o mercado cambial para impedir que as pressões à alta sobre sobre o euro se concretizem .

 

Manter  a todo o custo a Grécia e Portugal na zona euro quando além disso nada se faz  para enfraquecer o euro sobre o mercado cambial, seria conduzir a Alemanha e a França a comprometerem-se num refinanciamento renovado destes dois países, o que excede a sua capacidade financeira. No fim de contas, seriam afinal todos os países da zona euro que se reencontrariam  fortemente  endividados em relação à China.

 

A verdadeira saída de crise da  zona euro consiste num proteccionismo aduaneiro à escala da Europa   articulado este com intervenções no mercado de  câmbios feitas pelo  BCE.  Desta maneira,  o comércio externo seria corrigido,  o que dinamizaria  a actividade  económica  e, por último,  permitiria  os esforços orçamentais que se traduziriam  certamente numa correcção das finanças públicas.

 

(Continua)

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