Da América à Europa, de Trump a Clinton, de Marine Le Pen a Macron, o estado subterrâneo em ação – Texto 6. O ataque de Trump: o neoliberalismo riposta, por Heiner Flassbeck

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

Texto 6. O ataque de Trump: o neoliberalismo riposta, por Heiner Flassbeck

16 de Fevereiro de 2017

O pro-americanismo na Europa alterou-se desde que Trump ganhou as eleições. Aqueles que acreditavam que a Europa seguiria sempre fielmente o caminho da América enganaram-se. O movimento anti-Trump está ativo em muitos países e em todos os meios de comunicação. A sua orientação política é clara. O problema com o ataque de Trump é que os “liberais” criticam absolutamente tudo o que Trump faça. Agindo assim, eles perdem a capacidade de refletir sobre determinadas posições e políticas.

Eu não estou interessado de modo algum em defender Donald Trump. Ele é uma pessoa com quem nada tenho em comum. Trump toma decisões erradas (o muro com o México, a entrada de Muçulmanos, os mercados financeiros, os cuidados de saúde e a ecologia são importantes casos em questão). Ele provavelmente tomará muitas mais decisões erradas e esperamos que a sociedade americana e as instituições políticas sejam capazes de enfrentar este presidente antes que inflija sérios danos.

Mas isto não significa que a orientação de todas as políticas de Trump esteja errada, mesmo que ele aborde tudo do mesmo típico modo grosseiro. Mostrámos em várias ocasiões que a sua posição, que foi apressadamente rejeitada como sendo de “protecionismo,” não é de modo algum absurda. Afinal de contas, havia uma massiva crítica na Alemanha na época da anterior administração americana – criticismo esse que fez caminho até ao G-20. O anterior ministro das finanças repetiu precisamente isso mais uma vez. Certamente Summers não poderá ser suspeito de abrigar dentro de si quaisquer simpatias a favor de Trump. Surpreendentemente, nada disto é levado a sério nos meios de comunicação alemães. No Handelsblatt, Gabor Steingart escreveu que a crítica americana não é nem de esquerda nem de direita, é apenas “inveja”. Deste modo, todos os críticos das políticas alemãs são associados a irracionalidade. Substitui-se conteúdo e análise por emoções e ataques pessoais.

O Mercantilismo defende-se a si mesmo

Mesmo quando o jornalista não se rebaixa a este nível, ela ou ele têm de, pelo menos, lançar adjetivos como “absurdo” ou “perigoso” por precaução. Este é um grande momento para exageros sem sentido. Agora que Trump está no poder, os cães ladram mais alto que nunca. A sua governação brutal cria uma oportunidade única para jornalistas e comentadores fabricarem uma imagem de posição sensata para si mesmos e para os poderes que fielmente servem. O mercantilismo alemão defende-se a si mesmo contra qualquer tentativa de o chamarem pelo seu nome próprio. Os argumentos mais erróneos são suficientemente bons.

Os “principais” meios de comunicação alemães embarcaram na disputa: Der Spiegel, o Süddeutsche Zeitung, o Die Welt e o  Frankfurter Allgemeine todos eles mudaram para o mesmo registo de guerra, o mesmo registo que utilizaram, com sucesso, contra a tentativa da esquerda não ortodoxa em 1998 de trazer alguma sensatez à política económica internacional alemã e aos mercados de capitais. Os seus devaneios neo-liberais não conhecem limites nem tabus. Não importa o que você pense sobre Trump, a última foto de capa do Der Spiegel não encontra igual em falta de gosto.

A luta no debate económico tem sido a menos sincera. O Comissário para o Comércio do governo de Trump Government, Peter Navarro, tem sido objeto da mais baixa perversão imaginável. A reação às suas declarações de que a Alemanha explora os outros países da UE foi particularmente violenta. Não houve comentário que não começasse por afirmar quão erradas e insensatas foram essas declarações (ver  aqui), mesmo se se tem que reconhecer que os excedentes alemães são incrivelmente elevados.

Especialmente longe da verdade é o comentário de Nikolaus Piper, que interpreta mal a declaração de Navarro sobre “o subavaliado marco alemão implícito” escrevendo que Navarro se refere ao euro (ver aqui). Não é certamente o euro. A questão é sim a verdadeira subavaliação da Alemanha dentro da eurozona. Mas esta é uma área interdita para os jornalistas. É bem preferível rapidamente juntarem-se ao argumento de Merkel de que é o BCE que é responsável pelas aventuras e desventuras do euro (ver aqui). A subvalorização da posição alemã através do dumping salarial na união monetária não será enfrentada e o leitor alemão não deverá ter conhecimento dela. Os meios de comunicação alemães transformaram esta questão num segredo para os seus leitores. Confundiriam toda a gente se começassem a falar disso agora.

Inevitavelmente, muitos economistas neoliberais juntaram-se a este coro. Eles uivam contra a posição anti-liberal do governo dos EUA como uma matilha de cães famintos e reafirmam o seu credo de que o euro não está subvalorizado ou, além disso, de que os excedentes da conta corrente não colocam qualquer problema. Isto vai até muito longe. No Tagesschau, o noticiário da televisão alemã,  Holger Schmieding (Banco da América) afirmou que, no ano passado, a Alemanha seguiu uma política orçamental quase ideal. Qualquer crítica é, por conseguinte, injustificada (ver aqui) – qual a origem destes enormes excedentes durante muitos anos não é, obviamente, abordado.

Poupanças para os EUA?

A posição que o Professor Gunther Schnabl se permite apresentar no blog INSM economics (ver aqui) bate também completamente contra a parede. Segundo Schnabl, os EUA exploraram a Alemanha gastando as nossas bem merecidas poupanças. Teria sido melhor se tivéssemos construído estradas, diz Schnabl, porque quem sabe se os Estados Unidos alguma vez nos pagarão de volta essas poupanças. É caso para perguntar porque motivo a Alemanha está tão orgulhosa dos peculiares caminhos que segue e não utiliza as poupanças de outros para construir estradas alemãs. Isto mataria três coelhos de uma cajadada: o excedente alemão desapareceria e com ele a crítica de todos os nossos parceiros comerciais e reconstruiríamos as infraestruturas alemãs. A esquerda propõe políticas sem sentido. Quando Gustav Horn apela à introdução de taxas aduaneiras sobre a importação de produtos americanos (ver aqui), ele está obviamente a assumir que o dólar está subvalorizado e que o “marco alemão implícito” não está subvalorizado. Mas, como mostrarei a seguir, isto é absurdo.

Não menos questionável é a posição de um teórico do comércio americano que afirma no Economist (ver aqui) que os saldos comerciais decorrem de padrões de poupanças e investimentos: o capital flui em primeiro lugar, seguido depois pelos bens (Paul Steinhardt precisamente pegou neste debate novamente aqui e analisámos em detalhe as teses Hans-Werner Sinn aqui). Para exemplificar, este ponto de vista, o excedente comercial chinês foi o resultado da compra de títulos do tesouro americano belo banco central da China. Podemos perguntarmo-nos porque motivo o banco central chinês simplesmente compra títulos americanos. Se fosse assim tão simples criar um excedente comercial, o banco central americano poderia simplesmente comprar títulos alemães e o excedente alemão desapareceria.

O que é ainda fundamentalmente mal compreendido é o simples facto de que, no caso de um excedente de conta corrente, o capital nunca flui para os países deficitários de tal forma que estes países possam utilizar esses fluxos para o seu próprio desenvolvimento. Se houver aumento da poupança doméstica, não há fluxo de capitais para dentro do país e a procura de bens e serviços diminui. A falta de procura de consumo somente pode ser contrabalançada  por investimento financiado pelo sistema bancário (ver aqui para uma maior explanação desta tese, de um relatório da UNCTAD de 2006). Mas tal estímulo de investimento financiado pelo crédito é improvável que aconteça devido á queda geral da procura. Se a falta de procura interna não é enfrentada, o rendimento da economia nacional cairá e o emprego dentro do país diminuirá.

Com o aumento do excedente da conta corrente (motivado por melhoria da competitividade), a procura e o rendimento dentro do país excedentário aumentarão. Criará também novos postos de trabalho, em virtude do aumento da produção. Nos países deficitários, pelo contrário, a procura de bens e serviços diminuirá significativamente e por vezes dramaticamente (ver, por exemplo, a Grécia). O rendimento e o número de postos de trabalho no país caem. O facto de que o país deficitário receba crédito do sistema bancário (nacional e/ou internacional), que possibilita a aquisição de mais bens estrangeiros, mesmo que a sua situação económica se tenha deteriorado, em nada altera o seu panorama macroeconómico. Não há nunca um excedente de capital estrangeiro que poderia ser utilizado para qualquer atividade produtiva ou recuperação económica. O reescalonamento feito para os empréstimos no saldo das estatísticas de pagamento nada tem a ver com os fluxos de capital.

As taxas de câmbio reais são cruciais

A questão simples então – que ninguém quer compreender – é que o fator mais importante dos excedentes e dos défices (a posição competitiva global de uma economia), proporciona uma clara indicação sobre se uma moeda poderá estar subvalorizada ou sobrevalorizada. A sobrevalorização pode ser uma justificação absolutamente razoável para a imposição de taxas aduaneiras ou coisa semelhante. Uma vez que o sistema monetário mundial funciona muito mal, são cometidos erros ou avaliações incorretas por muitas razões possíveis. Uma delas é a especulação sobre moedas que cria relações monetárias que nada têm a ver com os fundamentais das economias em causa.  Outra razão é o dumping sob a capa de uma união monetária. Quem poderá estar contra que os países deficitários atuem ativamente contra tal mercantilismo?

A taxa de câmbio real efetiva é a medida global para avaliar a posição de um país. Mede o preço e as diferenças do custo unitário do trabalho entre países bem como as flutuações das taxas de câmbio e avalia os países (normalmente) segundo a sua quota parte de exportações. Deste modo, a economia de um membro de uma união monetária poderá ser avaliado com bastante precisão.

A Figura 1 mostra a evolução das taxas de câmbio dos países mais importantes de 1980 a 1995 em função das diferenças de inflação (porque existem diferenças significativas nos custos salariais de 1995 em diante, aqui poderá ver um artigo que explica esta relação). Resulta que no início dos anos 1980, os Estados Unidos tiveram de aceitar uma forte apreciação real (o movimento ascendente significa apreciação), o que equivale a dizer uma perda de competitividade. Isto foi corrigido através de uma massiva intervenção dos países (ver o  Louvre Agreement[1] após 1985. A então existente subvalorização do marco alemão foi corrigida. Até 1995, as posições mantiveram-se moderadas e relativamente próximas umas das outras, com a excepção do Japão. Nos finais dos anos de 1980 e meados dos anos 1990, o Japão sofreu uma revalorização sem sentido, que paralisou o país por muito tempo em muitos aspetos.

Figura 1

H Flassbeck Ataque de Trump 1

1)Com base no índice de preços no consumidor. Índice 1980=100.
Fonte:FMI

A partir de 1995 (ver Figura 2, que assenta nas diferenças dos custos unitários do trabalho), o Japão conseguiu corrigir consideravelmente a sua dramática sobrevalorização, mas os Estados Unidos reverteram da mesma forma que a Grã-Bretanha. A Alemanha inicia a sua curva descendente em relação ao resto do mundo e aos seus parceiros europeus. Esta verdadeira desvalorização é inicialmente confirmada por um euro fraco em relação ao dólar e, acima de tudo, pelo menor aumento dos custos de trabalho unitários alemães em comparação com os seus vizinhos europeus dentro da união monetária.

Figura 2

H Flassbeck Ataque de Trump 2

O dólar dos Estados Unidos está sobreavaliado

Embora o dólar dos Estados Unidos tenha enfraquecido relativamente ao euro depois de 2002 (e até 2011) e globalmente normalize a posição dos Estados Unidos, os EUA caminharam novamente para uma valorização após 2011. A Alemanha tem também vantagem sobre os Estados Unidos e os parceiros europeus devido à sua posição relativamente enfraquecida – e isto é totalmente independente da recente fraqueza do euro ou do fortalecimento do dólar. O atual valor do dólar só marginalmente se reflete numa valorização. O dólar fortaleceu-se novamente no final de 2016 e está claramente a avançar no sentido de uma sobrevalorização.

Nesta medida, é evidente que à sombra do euro (através da sua verdadeira depreciação contra os outros parceiros europeus), a Alemanha ganhou vantagem sobre países como os EUA e o Reino Unido, que dispõem da sua moeda própria. O euro reflete a fraqueza do conjunto da união. Um país grande pode esconder-se atrás do sistema monetário porque não tem que recear uma apreciação da sua moeda nacional, o que refletiria nada mais que a sua própria competitividade.

Em face destas interligações não especialmente difíceis podemos perguntarmo-nos, é claro, porque motivo até uma mente relativamente esclarecida e crítica como a de Paul Krugman luta tão duramente com esta questão (ver aqui). É perfeitamente evidente que nas universidades, as questões relevantes para a prosperidade das nações não são sequer abordadas. Há que perguntar de novo se se pode realmente criticar os jornalistas quando os próprios economistas não entendem relações fundamentais.

Leia o original em flassbeck-economics.com/trump-bashing-neoliberalism-hits-back

[1]  N.T. Acordo assinado em 22/02/1987 em Paris, que tinha por objetivo estabilizar os mercados monetários internacionais e travar a contínua queda do dólar EUA provocada pelo Acordo de Plaza. (acordo subscrito em 1985 pela França, Alemanha Ocidental, Japão, Estados Unidos e Reino Unido, com vista a desvalorizar o dólar relativamente ao yen japonês e ao marco alemão). O acordo foi subscrito pela França, Alemanha Ocidental, Japão, Canadá, Estados Unidos e Reino Unido. O governo italiano declinou o convite para subscrever o acordo.

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