Depois de já termos abordado vários aspectos relacionados com a arquitectura e com a cidade, vamos abordar a
questão da importância da “nossa” casa.
Há autores que defendem que a arquitectura será a primeira das artes e a casa a mais perfeita expressão do Eu.
Do homem a viver ao ar livre, passámos à protecção das cavernas. Aí começou a viver uma “humanidade em gestação” que se modelava lentamente sob o impulso da consciência a emergir. O homem novo estava a surgir da terra para afrontar o universo.
A humanidade, das casas circulares – iglôs, cubatas, tendas de pele – passou a utilizar outras formas: o quadrado, o triângulo dos tectos, as colunas, os arcos. Da pele de animais, da madeira , passou à pedra, à argamassa, ao barro, ao ferro e aço. Das casas de habitação, aos templos e fortificações, utilizou vários símbolos. Do horizontal de uma só divisão foi-se prolongando horizontalmente e depois progressivamente na vertical, sempre em direcção ao céu. Marc Olivier, no seu livro “Psicanálise da casa” considera que para que os homens pudessem começar a construir casas foi preciso que dentro deles próprios existisse já uma ideia, uma percepção, uma sensação, um apelo interior que tivesse servido de modelo. E esse modelo, advoga ele, seria o do ventre da mãe.
De acordo com esta perspectiva, as casas são matrizes em que predomina a sacralização das suas portas. Fazer uma casa quererá dizer criar um lugar de paz, de calma e de segurança à imagem do ventre da mãe, onde não se corra o risco de agressões. Será um “envelope” que permite a cada um viver.
E, acrescento agora, será dentro desta casa que a criança pode ou não sentir-se num de “envelope familiar” (noção de Didier Houzel) e que corresponde à estrutura comum a todos os membros da família e que é responsável pela sucessão e diferenciação de gerações, permitindo a complementaridade dos papéis materno e paterno e que é garante de constituição de uma identidade sexual básica de cada criança e de partilha da sensação de pertença. E é necessário que este “envelope familiar” funcione para que o “envelope psíquico” da criança também seja eficaz.
Já Donnald Winnicott tinha referido que a “casa representa o espaço de referência e ligação primordial permanecendo sempre como um porto seguro ou local de abrigo, quer do ponto de vista físico, quer emocional”.
O texto que se segue, escrito por uma criança com problemas emocionais ilustra isto mesmo.
A MENINA E A CASA
Era uma vez uma menina que estava a brincar num jardim. A menina viu uma casa abandonada. Ela espreitou à janela e não viu nada. Não vivia lá ninguém.
Depois a porta estava aberta e a menina entrou e estava uma teia de aranha.
A menina viu uma aranha e escondeu-se debaixo da mesa. A aranha foi atrás da menina e picou a menina.
A menina foi ao médico. O médico ligou a mão e o braço ficou ao peito.
A menina vivia sozinha porque os pais a tinham abandonado.
Então a menina arranjou uma madrasta e um padrasto e foi viver para a casa que estava abandonada no jardim.
( Andreia – 8 anos)
