Eva Cruz Aurora Adormecida
Capítulo 12
(continuação)
Faziam, Aurora e os tios, uma temporada de praia em Espinho.
* Hospedávamo-nos num hotel em Espinho Vouga e íamos ao casino. A minha prima ia de chapéu. Tinha resmas de caixas de chapéus, uns de Inverno outros de Verão, lindas capelines de palhinha a condizer com os vestidos. Eu, mais menina, levava no cabelo uma fita.
O banho de mar era dado pelo banheiro. Os nossos fatos eram de baeta preta com fitas de nastro branco, uma decência, até aos joelhos e pelo meio do braço.
° Hoje fazias topless, avozinha, com esse corpinho de atleta de metro e meio.
* Olha que era bem bonita e jeitosa, parecia feita de cera e a minha pele era cor-de-rosa. Quando cheguei à aldeia, nos leilões, todos arrematavam prendas para a menina mais bonita que chegou há dias do Porto.
° Pára, pára, avozinha, roda, roda a cassete. Deixa-me estudar.
* Laurindinha teve uma grande paixão por um filho da casa-palacete dos Marques Gomes que ficava perto da quinta. As famílias não se davam e aquele amor foi contrariado do princípio ao fim. Uma noite vieram fazer uma serenata à minha prima. Era ele. Às escuras saímos do quarto até aos castelos para ouvir a serenata. De repente estoiraram foguetes que alumiaram a quinta.
— Ai, se o meu pai nos vê, mata-nos.
* Esgueirámo-nos por baixo da pérgola de japoneiras dos castelos, até casa.
– Quem me dera, Laurindinha
afogar-me nas ondas do teu cabelo
como em noite de Verão
nas praias do Cabedelo.
Aurora viveu em alegria no seio da sua verdadeira família. Todos se orgulhavam dela, da sua beleza, da pele branca de veludo, do brilho dos seus cabelos lisos com réstias de sol. A prima fez dela irmã e Aurora dedicou-lhe todo o amor filial a que não tivera direito. Era brincalhona, pregava partidas a todos, fazia rir tios e criados. Um dia, enganou um outro tio, mais velho, o tio Inocêncio, parente pobre, aldeão, que viera visitar o irmão Bernardo.
– Tio, a tia Maria veio hoje de diligência e já se foi deitar. Estava mal disposta da viagem.
O velhote, de olhos muito azuis, Inocêncio de nome e inocente de espírito, ficou intrigado mas acreditou na sobrinha. Aurora metera-lhe entretanto na cama uma boneca grande de trapos com um lenço amarrado à cabeça. Foram todos para a porta do quarto escutar a sua conversa enquanto se despia.
– Ouves ou não, Maria, estás doente?
De imediato, apenas ouviram:
– Rai’s vos partam.
Era homem de não dizer outro tipo de asneiras. Riram às gargalhadas.
(continua)
