Aurora Adormecida 13 – Eva Cruz


 

Eva Cruz  Aurora Adormecida

 

 

Capítulo 13

 

 

 

(continuação)

 

Todos os sábados saíam Aurora e Laurindinha dos portões da Quinta dos Castelos, atravessavam a rua e entravam na outra quinta, a da Lavoura, também pertença do tio, para enfeitarem o jazigo no outro extremo, junto à igreja.

 

Ao domingo, Laurindinha tocava órgão na missa grande e eu acompanhava-a a cantar. As comunhões solenes eram tão lindas! Que pena tenho de não ter ido de branco, quando era pequenina.

 

° Pequenina és tu, avozinha, só medes metro e meio.

 

Sou pequenina e dei um neto tão grande, como é que pode ser isso, então?

Vinha um anjo e levava uma menina de um lado e um menino do outro. A minha prima tocava e eu cantava:

 

Vamos, meninos,

à mesa santa

que o pão encanta

que o pão encanta

a comungar.

 

º Cala-te, avozinha, já chega. Tens uma voz de cana rachada.

 

* Homessa! A minha prima dizia que eu tinha uma voz muito bonita. Para ti tenho todos os defeitos.

 

Um dia, foi Aurora, como de costume, desta vez sozinha, enfeitar o jazi­go. Saiu-lhe ao caminho um papo-seco, de chapéu de palhinha, Ibrahim de nome, irmão do motorista da casa. Era empregado da alfândega. Assim começou uma paixão secreta, o primeiro amor da sua vida, tão grande que foi o único nome que resistiu à perda da memória. O nome do seu segundo amor com quem casou, pai dos filhos que teve, apagou-se, para o fim da vida, por completo.

 

* Já fui mar, já fui navio
   já fui ao Brasil e vim

   já fui amada de um anjo

   e querida de um Ibrahim.

 

º Cala-te avó, o Ibrahim era paneleiro.

 

* Seus malcriados, vocês não sabem o que dizem. Era um homem a sério, empregado da alfândega, bonito, um papo-seco.

 

O tio descobriu-a uma vez a falar com ele por trás do portão dos castelos. Deu-lhe uma bofetada e obrigou-a a recolher a casa.

 

* Podias fazer um bom casamento à minha sombra mas não tens juízo.

 

O sangue soltou-se do nariz e Aurora só encontrou consolo para os seus soluços no regaço da prima. Tinha então vinte e um anos e nunca per­doou ao tio tal ofensa.

 

Ao outro dia foi avisada por uma criada que o motorista da casa estava à sua espera para a levar de novo à Casa dos Torreões, da madrinha Tafula, a passar uma temporada até esquecer o namorico. Despediu-se da prima, desfeita em lágrimas, e confessou-lhe que nunca mais voltaria. Tinha da mãe uma única recordação, um alfinete em forma de folha de parra, de esmalte verde, bordado a ouro. .

 

* Laurindinha, apesar das suas muitas jóias, pedia-mo sempre para apertar o casaco de peles quando saíamos à noite. Tirei-o do meu peito e ofereci-lho.

 

Todo o resto do ouro que o meu pai tinha, nunca o vi. Tudo levou sumiço, as correntes, o morro do açúcar cravejado de brilhantes, o pedantife, até os vestidinhos e as fitas de veludo azul e rosa. Só fiquei com o broche verde bor­dado a ouro que era da minha mãezinha.

 

Mais tarde encontrou ela o baú de couro vazio e velho. Recuperou-o para a filha e ali lhe deixou como herança o enxoval de noiva e todos os sonhos que para si sonhara. Aurora parte de novo, sem eira nem beira, apenas com uma mão adiante e outra atrás.

 

(continua)

 

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