(Continuação)
Vejamos então, insisti eu. E continuei a ler-lhe um documento que de modo imaterial às mãos me chegou e com muita dificuldade mesmo na minha imaginação se encaixou e por aqui ficou, por estas vias de um saber que se não tem e que se deseja, para tudo isto conseguir entender. Diz-‑nos ainda o referido documento:
“Por « carta oficial » de 31 Março 2010, o gabinete de advogados de Deutsche Bank transmitiu ao gabinete de advogados da comuna de Saint-Etienne o aviso de pagamento que leva a que para o montante dos juros a receber por Deutsche Bank, na base de uma taxa plafond ou de tecto de acordo com o clausulado do contrato seja aplicada uma taxa de 24% correspondendo ao valor máximo fixado nesse contrato de swap. O nível do índice observado a 22 Março de 2010 era 1,5960. Assim, sem o limite superior de 24 %, a taxa teria sido 4,30 + (1,97 – 15960) x 10 = 41,70%, [sendo o parâmetro 10 o que falta no texto como acima se referiu].
O montante a pagar ao Deutsche Bank é 1 145 k€ para o período que vai de 4 Janeiro 2010 a 1 de Abril de 2010.
O montante que a comuna Saint-Etienne deve receber de Deutsche Bank (por efeito do swap de taxas que está indexado a 4,90 %, de acordo com os termos do contrato) atinge 234 k€.
Em consequência destes valores a comuna de Saint-Etienne deve pagar ao Deutsche Bank, a soma de 911 k€.
No encerramento da presente instrução, a comuna Saint-Etienne tinha-se recusado:
– a receber de Deutsche Bank a soma que este lhe deve ;
– a pagar a Deutsche Bank a soma que este considera que lhe é devida. “
E a acabar esta questão, diz-nos o referido relatório oficial:
“Em 31 Dezembro 2009, o custo de rescisão do contrato foi avaliado entre 15 e 17 M€, para um valor de referência em dívida , o nocional, em cerca de 22 M€.
A Câmara observa que sobre os 22 milhões previamente cobertos em condições cada vez mais arriscadas, um credor, chamado num contexto que continua difícil de precisar , criou uma série de contratos, entre os quais este que comportam cláusulas que forçam a cidade “.
João, percebeste agora o que é quer dizer Smart?
Claro que percebo. Basta olhar para estes números que aqui e agora citaste. Virei-me para o meu amigo João Machado e questionei: quanto à lógica da fórmula, perguntavas?
Não acabei a última sílaba. O meu amigo gritou bem alto, mas isto é roubo, é um roubo puro!
João, o mercado hoje não passa de uma enorme espaço de convencimetntos em que deves concordar com o que te querem convencer, um enorme espaço onde se desencadeiam múltiplos contos do vigários, de quem conta e de quem escuta e porque estes contos são aceites não são então contestáveis! A menos que publicamente queiras passar por grande burro mas isto também ninguém quer. O mercado é pois o espaço de legalização destes contos do vigário. Não é isto que dizem os Indignados de Espanha? Que achas tu que é a crise, se não uma dona Branca à escala planetária? Que achas tu dos nossos Sócrates, dos nossos Passos Coelho, que não seja, serem eles servidores de segunda classe de outros interesses que nunca são os nossos, um, o primeiro, mentindo com todos os dentes que tinha, e o segundo, como o lobo mau da história que com falinhas mansas começou e que agora se está a transformar num lobo profundamente cego pelas consequências do que a estragar ainda não acabou? E que achas tu de todas as autoridades que assistem passivamente a criação de desemprego em massa , porque aos mercados tudo deve ser pago nas condições que estes exigem e não nas condições que cada país pode pagar ? Que me dizes destes políticos que autorizados estão a poderem-te roubar quando deixam as grandes fortunas para os paraísos fiscais voar, paraísos que eles deixaram criar e de que estão encarregados de bem conservar ? Não será isto a situação típica de uma Dona Branca à escala planetária, por todos permitida? Ou visto de uma outra forma, não representa isto um mundo onde uma muito pequena parte entende o mundo como um enorme espaço para andar, dizem eles, à caça às “rolas” que essa caça os outros hão-de depois bem pagar? Se não é nada disto, o que é então, João?
Devagar, meu amigo, isso são passos de autêntico gigante egoísta como no conto de Oscar Wilde, para onde me pareces querer enviar. Explica-me lá o que têm as “rolas” , entre aspas de que falas, a ver com isto.
Olhei para o João e lembrei-me, lembrei-me de um conto que alguém com mais imaginação e conhecimentos que eu há-de escrever sobre o mundo das “rolas” de que eles falam, sobre o mundo de Olivier Twist do século XXI. Lembrei-me desse conto ainda por escrever, lembrei-me de alguém que cansado das excitações que o mundo lhe dava com o dinheiro que de um grande banco de então se dissipava, ao fim-de-semana procurava descanso na caça às “rolas”, em plena época de defeso em Portugal. Uma roda de amigos convidados, um avião alugado, uma quinta na Argentina ocupada, com “rolas” pelo ar e por terra, que o dinheiro gasto, esse todos iremos pagar, a voarem na vertical em risco de tiro ou esticadas na horizontal, lembrei-me, tudo isso nós pagamos agora. Alguém até agora se interessou pelos voos de dadas companhias de aviação privadas, por esse tipo de voos ocupadas?
Mas voltemos ao contrato do empréstimo que eu quero perceber isto, porque das “rolas” já eu sei, e devem andar ainda agora os mesmos a fazer a mesma coisa por essa África martirizada, espoliada, saqueada, diz-me o João, que insiste em querer saber no plano económico qual o significado da fórmula acima, uma vez que o seu objectivo final já nós o sabemos: obter lucros enormes.
Deixei-me rir, sabia que nada pode ser encarado fora do seu contexto, e disparei-lhe uma pergunta: e se perguntássemos ao génio que dá por função ser o senhor director da Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa, ou aos seus jovens entre os mais brilhantes génios, os seus melhores alunos da garnde burguesia nascidos, que terão sempre emprego se para lá forem estudar porque o já têm antes de lá chegar, se lhe perguntássemos o significado de uma taxa de juro em geral e, depois, a partir dessa explicação que nos explicassem então o significado do que agora me pedes para te explicar? Que achas?
Bem, mas tenho ainda uma pequena dúvida, retorquiu. Se esta taxa é uma taxa acordada é então uma taxa de mercado, se é uma taxa de mercado, é uma taxa aceite por todos intervenientes, por parte e contraparte, e sendo assim, onde está o roubo a que me referi ainda há pouco? Não há! Contudo, o roubo é mesmo bem real!
Os Indignados espanhóis respondem-te : mijam-nos em cima e dizem-nos que está a chover. É esse o discurso dos neoliberais desde que te deixes por eles enganar e é o que fazem sucessivamente, é procurar enganar toda a gente. Dúvidas? Houve então a explicação de alguém da Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa. Ouve-os, pensa cuidadosamente no que te dizem, e diz-me então se o mercado completamente desregulado é ou não, sobretudo, um enorme somatório de contos do vigário, aceites porque construídos livremente por parte e contraparte, pois é disso que estamos nós os dois aqui a falar.
E o meu amigo João Machado, desse nome ou de um outro qualquer, neste país vivido e sofrido, ficou a pensar em tudo isto e muito estarrecido nunca mais sobre isto se calou.
Aqui vos deixo, com uma sugestão, leiam a sequência dos textos que se seguem abaixo nos próximos jornais de renome internacional.
Boa leitura então para os textos que se seguem sobre a crise financeira e o poder local.
Júlio Marques Mota
(Continua)
