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Aurora Adormecida 31 – Eva Cruz

 

 

Eva Cruz  Aurora Adormecida

 

(“Mãe”, Adão Cruz)

 

No último dia de publicação do livro da Eva Cruz

apresentamos em maiores dimensões o belo quadro

do seu irmão Adão Cruz que nos serviu de ícone

em todos os capítulos

 

Capítulo 31

 

 

(conclusão)

 

Viveu catorze anos em casa da filha, numa relação com os netos, única e singular. Faziam dela a sua mascote. Brincavam, arreliavam-na, bei­javam-na, amando-se mutuamente. Só estava bem junto deles, ora no quarto de um ora no do outro.

 

° Sai daqui, avozinha, deixa-me estudar.

 

* Sempre a pôr-me do quarto para fora, a quem tanto faz por vós.

 

º Que fazes tu ? Nós é que te damos banho, te levamos a comer um bolo, até te levo ao colo para a garagem.

 

* Banho, a mim? Eu é que dou banho a toda a gente aqui em casa. Trabalho nisto e naquilo. Comprei tudo o que está cá dentro e este é o pago.

 

º Compraste o quê, avozinha?

 

Olha, este armário e estes livros todos.

 

º Os livros? Onde os compraste tu?

 

* Na feira, não sei se na dos nove, se na dos vinte e três.

 

° Como os compraste?

 

* A tua mãe escolheu-os e eu paguei-os.

 

° Ai, avozinha, tu és uma pândega, uma pateta.

 

* Se eu sou pateta, tu és pateta.

 

Riam-se com as suas conclusões. Na mente dela comprava tudo. Andava sempre com uma carteirinha preta e o dinheiro da sua reforma. Nem para dormir largava a bolsa. Era um tormento quando lhe perdia o lugar. Tão generosa a vida inteira e agora tão presa ao pouco que tinha! O filho chegou a fazer-lhe umas notas falsas no computador para ela se entreter a contar. Embora tivesse estranhado a textura do papel lá se foi iludindo.

 

Para além da carteira, faziam parte do seu tesouro a cartilha, o livrinho de orações, a bengala, os óculos de ver ao perto, os óculos de ver ao longe, a bandolete, os vestidos, os lenços de adorno, os colares, os alfinetes e os cheirinhos. Agora, ao lado das bonecas, tudo jaz abandonado, espólio de guerreiro, livros abertos de tempo, de vida, de poesia.

 

º Vá, põe-te a, andar, quero estudar. Não percebo nada disto.

 

* Se não percebes, a tua mãe que te ensine. Se ensina os outros, mais depressa ensina a ti.

 

° A minha mãe não sabe nada.

 

* A tua mãe não sabe nada? Essa é que é boa, rapaz! Tanto tempo a estudar para não saber nada? Quem não sabe nada és tu. Tu é que não sabes nada.

 

° Deixa-me estudar, já te avisei.

 

Porém, ela continuava ali sentada junto deles, sempre linda e bem cheirosa, enfeitada nos seus vestidos de seda ou de lã, com o lencinho ao peito, de cores doces. Tinha um orgulho enorme nos vestidos, nos lenços, colares e alfinetes. Muito direita, apoiada na bengala encastoada de prata, um porte distinto de matriarca, advindo do alto conceito da sua beleza e do seu ca­rácter, lá andava ela de um lado para o outro procurando sempre a presença dos netos. Orgulhavam-se dela. Era para eles o grande adorno da casa.

 

° Ó mamã a avó é o melhor enfeite desta casa. Até dá respeito.

 

Passavam o tempo a alindá-la como quem enfeita uma boneca. Em contrapartida arreliavam-na tanto, e faziam tantas diabruras que só o excesso de ternura podia explicar. Pintavam-lhe a cara de Rato Mickey, escreviam-lhe frases cómicas na testa, ornavam-lhe o vestido no fundo ou atrás com pregadeiras da roupa, fazendo rir toda a gente com as figuras a que, inocentemente, se prestava. Um dia calçaram-lhe umas botas de ski, cujo peso a impedia de se mexer, puseram-na em cima de um par de skis, bastões nas mãos, barrete na cabeça, cachecol ao pescoço. Fingindo-se arreliada, lá se aprumava toda vaidosa para a fotografia. Enquanto dormia a sesta, trocavam-lhe os óculos por óculos escuros. Acordava, e, com ar de vedeta, queixava-se de ter escurecido tão depressa. Quando apareceram os primeiros leitores automáticos de CDs diziam-lhe que o porta-CDs só abria quando pela frente passassem boas pessoas. Passavam eles, e sem ela se aperceber, abriam-no com o comando. Mandavam-na passar a ela e… nada acontecia.

 

º Vês, avozinha, ele só abre quando passam as boas pessoas. Tu não prestas para nada.

 

Divertiam-se, depois, ao darem com ela, à socapa, a passar de um lado para o outro diante do aparelho, a ver se ele abria. Apanhavam-na de surpresa, irritando-a no seu orgulho.

 

° Dá-me um beijinho, avó.

 

* Dou-te mas é uma ferradela. Só sabem é consumir-me, a quem tanto fez por vós. Não há direito.

 

° Portas-te mal, vais para o lar, avozinha.

 

* Para o lar? Lar tenho eu em minha casa. Tive toda a vida um lar. E o Estado é meu amigo, dá-me uma reforma que chega para comer e sobra. E tinha muito. Se não tenho é porque vos dei tudo em vida. Tendes obrigação de me criar e educar.

 

° Ai, lá isso criar, criamos-te nós, agora educar é que é mais difícil porque tu não deixas.

 

* Educada sou eu. Fosses tu assim, meu malcriado.

 

Falar-lhe em lar era o diabo que lhe aparecia. Ficava furiosa e triste. Mas depois de a tentarem amansar, e de tão insistentemente lhe pedirem um beijo, ela lá lhes dava uma ferradela que não era mais do que um afago.

 

Adorava que a levassem a passear mas desconfiava sempre da intenção do passeio. Um dia, quando subia, amparada pelo filho, as escadas do Museu do Caramulo, perguntou em voz alta, antes que fosse tarde, às pessoas que desciam, se não era ali a casa onde se deixava os velhinhos.

 

Aos noventa e quatro anos teve de voltar à sua casa das Figueiras para aí viver com duas empregadas, uma de dia e outra de noite. Nada lhe falta, nem o carinho nem a dedicação de ambas. E mimada de filhos e netos, vizinhos e amigos. Agora meiga, serena, muito linda, branca e rosada, com pele de veludo e cabelo de seda, deslumbra quem a visita.

 

Parece uma santinha numa redoma.

 

Viveu até à quarta geração. Tem um bisneto que brinca com ela. Tem uma bisneta. De novo, um menino e uma menina.

 

Canta de dia e de noite, conta, faz versos, monólogos e diálogos, num distanciamento total da realidade.

 

* Quem me dera, dera., dera estar sempre a dar, a dar beijinhos até morrer e abraços até acabar.

 

Está longe, muito longe. Talvez num conto de fadas, no conto da Bela Adormecida. Sei apenas que é feliz e irradia felicidade. Reconhece ainda a filha e o neto que mais a arrelia, e que mais a ama. Já se despediu do mundo mas vive ainda.

 

Vive, talvez no Paraíso, no Limbo, mansão de inocentes sem pecado ori­ginal. Paradise Lost? Paradise Regained?

 

Quem me dera poder elevar-te aos altares das Mães de Gorki, de Steinbeck, de Brecht. Na minha simplicidade ergui-te um altar dentro do meu peito, enfeitado com as flores e as hastes dos campos e dos matos e tecido com as fitas de veludo azul e rosa do teu baú.

 

 

 

Quarto de dormir

de azul pintado e flores no cortinado

casinha de Coppèllia

bonecas por todo o lado.

O Popeye espreita no topo da cama

uma boneca de cabelos cor de chama

um boneco vestido de azul

todo empertigado

no cortinado.

Bonecos no sofá

no chão

em todo o lado.

 

.

Minha mãe de tão velhinha fez-se menina.

Ai de mim

se o encanto se parte

e o quarto fica vazio

sem velhinha

sem menina

a aconchegar os bonecos

cheios de frio.

 

.

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