Aurora Adormecida 1 e 2 – Eva Cruz

 

Começamos hoje a publicar o livro Aurora Adormecida com que a Eva Cruz homenageou a sua mãe que viveu 101 anos. É a saga duma família cujos episódios relatam as vivências dos seus membros ao longo de todo o século passado e o início deste, acompanhando a história do país e do mundo a cujas influências e experiências não ficaram imunes, desde as duas guerras mundiais à guerra colonial. A escrita da Eva é uma escrita solar. Li este livro com muito agrado, do princípio ao fim, sem parar, e durante algum tempo, ainda, depois de o ter terminado, permaneceu em mim a estranha sensação de não conseguir identificar a entidade a que aliava semelhante estado de alma. E um dia a chispa saltou: aquilo que a escrita da Eva me causava era o mesmo bem-estar iluminado que a música de Mozart me provoca. Era isso, não havia dúvida. A partir de agora, a sonoridade do mágico Amadeus ser-me-á evocada sempre que os meus olhos precorrerem as linhas por ela desenhadas – Augusta Clara    

 

 

Eva Cruz  Aurora Adormecida

 

(ilustração de Adão Cruz)

 

 

Capítulo 1

 

 

 

* Nasci em 1906.

 

Rodeada de bonecas brancas, pretas, de olhos castanhos ou azuis, tem agora cem anos. Muitas fantasias enchem-lhe a cabeça gasta de memórias, misturadas de passado e de presente.

 

Um boneco e uma boneca são o centro dos seus desvelos. Dorme com eles e adormece-os num recíproco embalar de mãe e de menina.

 

Tem um filho e uma filha. Confunde-os com os brinquedos do regaço. Faz dos bonecos filhos e netos, e o carinho é tanto que os julga meninos do mundo inteiro, protegidos e desprotegidos.

 

Reza em verso, inventa orações, poeta de quadras e ladainhas, conta e reconta a história da sua vida que faz chorar as pedras de uma, calçada.

 

* Nasci no Rio de Janeiro. A minha mãezinha chamava-se Rachel, senhora fina, educada em Penafiel, foi para o Brasil com um tio rico, seu tutor. O meu paizinho,Virgolino, era empregado do tio e aos dezasseis anos raptou-a. Teve dois filhos, o Mário e a  Maria, mais um menino que morreu de meningite a olhar a lua. Fui a última a nascer. Minha mãe morreu de parto de mim. Ai filhinha que não tens pai nem mãe, perdi o maior amor que pode haver, perdi-o, perdi-o ao nascer.

 

E assim começava a desfiar um rosário de recordações.

 

* Roda avozinha a cassete, roda. Estás sempre a dizer o mesmo.

 

* A minha vida faz chorar as pedras de uma calçada. A minha vida dava um romance, um conto de fadas.

                                                                                                 

Aurora fora baptizada na igreja de Sant’Ana, no Rio de Janeiro. Muitos anos mais tarde, em visita de estudo ao Brasil, trouxera-lhe o filho a certi­dão de baptismo, transcrita de um alfarrábio a desfazer-se, que o pároco, já muito idoso e comovido, se prontificara a procurar.

 

– Uma criança de sexo feminino, Aurora de nome.

 

* Ora ai está a prova provada de que sou brasileira.

 

O neto, a quem a vida também levou ao Brasil, outros tantos anos mais tarde, em trabalho durante meses, teve a curiosidade e a ternura de visitar a igreja de Sant’Ana onde a avó fora baptizada.

 

* Avozinha fui ver a igreja onde foste baptizada. É muito bonita.

 

* Aonde? Ao Brasil? Estás tolo, rapaz. Foste a pé?

 

* Não, avozinha, fui de carro.

 

* Que perigo!

 

 

Capítulo 2

 

 

Desamparados da mãe e recolhidos à ternura do pai destroçado pelo amor perdido, regressaram a Portugal, Aurora e os dois irmãos. Nas memórias misturadas de realidade e fantasia, dá conta dos muitos dias que o vapor, no mar alto, levara a trazê-los, da falta de leite para a criança pequenina, da vontade de uns estrangeiros a adoptarem e da recusa do pai, determi­nado a criar os três filhos, fruto do seu amor. Na semi-demência da idade, conta que saíram do vapor, colheram flores e compraram videiras para plantar no quintal, o quintal que dá uvas tintas, brancas e americanas. São as videiras do vinho que ela oferece às pessoas que vê na televisão, com quem conversa e a quem convida para sua casa. Com a estima e a genero­sidade da sua alma dá o que tem e o que não tem. O Brasil envolve-lhe o espírito como um véu longínquo, uma auréola de mãe, o Brasil onde chega num pulo, vai num pé e vem no outro, sem noção das distâncias, porque o espaço e o tempo encurtam-se ou alongam-se a seu bel-prazer.

 

* Minha mãe ficou sepultada no Rio de Janeiro. Meu pai ia morrendo de saudade enquanto atravessava os mares e a deixava para trás. Salvara-o o mundo que ela lhe pusera no regaço. Pelos seus três filhos tinha de viver.

 

Desembarcaram em Lisboa. Ao colo, trazia o pai a mais pequenina, de cor-de-rosa vestida, embrulhada na baeta e de touca branca na cabeça. Agarrados a ele, os outros dois, com cara de espanto e medo.

 

* Tão pequeninos e já sem mãe! Ele de fatinho de veludo castanho com gola branca de príncipe, larga como um prato, ela de vestidinho branco rodado, com faixa cor-de-rosa em volta da cintura.

 

Um quadro enternecedor, digno de pintores que pintam as cores com matizes de encanto e a alma com tintas fortes de dor e amargura. Um pai destroçado, tão novo, tão só, com o mundo entre o colo e as mãos.

 

Esperavam-no o irmão e a irmã mais velha. Do porão saíram as malas e um baú de couro cheio de recordações.

 

(continua)

 

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