Lou Andreas-Salomé O Nosso Mês
(continuação)
Entristecia-me não poder compartilhar com suficiente inteireza a exaltação da tua poesia na maior parte das suas expressões; até chegou a aborrecer-me, durante uma breve viagem de Wolfratshausen para Hallein, que empreendi para satisfazer compromissos anteriores, o tom arrebatado das tuas cartas, com o seu selo azul-pálido, que me chegavam às mãos todos os dias. Até que o acaso imprevisto de uma brincadeira tudo transformou na alegria de uma bela recordação. Tinhas querido lembrar-me do nosso quartito no piso inferior, cujas portadas costumavas fechar, a fim de impedir os olhares indiscretos da rua, de tal maneira que nos chegava lá dentro apenas uma nesga da luz do dia, passando através de uma estrela desenhada na madeira da janela. E quando me trouxeram o teu cartão lírico, que cobriras de tinta negra por todo o lado, sem nada teres escrito, confiando toda a eloquência à estrelinha em branco que deixaste no alto do papel, então precipitei-me de entusiasmo nos braços dessa estrela vespertina de um céu às escuras, reverente e comovida por um «René Maria» tão autêntico!
E, apesar de toda esta risonha realidade, não teria resultado daqui um mal-entendido menor. Era nisso que estávamos a pensar quando te falei do teu cartão, de regresso a casa. Pensávamos nas nossas estrelas, que, nem poéticas nem prosaicas, nos fitavam do alto e se levantavam no céu à nossa frente, de tal modo que a sua realidade — felizmente risonha ou impressionantemente séria — não poderia encontrar qualquer expressão satisfatória.
Naquela altura trabalhávamos bastante, enchendo folhas e folhas de letras e palavras; só a pouco e pouco fomos abrandando o ritmo ao longo desse Verão. Do que depois aniquilámos por metade ou por inteiro, ficou, atravessando décadas, um fragmento, com o seu envelope amarelado de Wolfratshausen, e tudo:
A tua carta trouxe então a suave bênção
e eu soube que a distância não existe:
De tudo o que é belo vens ao meu encontro,
tu, meu vento primaveril, minha chuva de Verão,
tu, minha noite de Junho cheia de mil caminhos
que iniciado algum pisou antes de mim:
eu estou em ti!
Os anos seguintes foram por ti, com toda a razão, baptizados como a «nossa estada na Rússia», na qual ainda não tínhamos posto os pés. E ao olhar para trás é isso que precisamente se me afigura maravilhoso. Porque só essa atitude tornou possível que mergulhássemos tanto em tudo o que para nós a Rússia significava: incluindo estudos cheios de rigor e pacientes preparativos, nos quais — ainda não determinável no tempo — se perfilava a expectativa de uma experiência pessoal plena. Era como se colhêssemos já o futuro com as mãos, em carne e osso; algo da Rússia pulsava já fortemente na tua poesia, mas como coisa, de momento, ainda, por assim dizer, irresponsável: algo que se destinava a receber, sob o céu russo, como um dom, a ansiada transmutação em símbolo, transformando-se em signo carnal do que em ti aspirava à descarga da exuberância íntima… o chamar por «Deus» (para o dizer aqui com o mais breve de todos os seus nomes) — pelo lugar, o espaço de configuração onde o incomensurável é presença até nas coisas mais pequenas e onde a aflição do poeta conquista a expressão sob a forma de hino, de oração.
De começo a experiência viva da Rússia mal precisava de procurar forma que a expressasse: consumava-se nas próprias impressões, e assim continuou mais tarde a acontecer, uma e outra vez; destas experiências nasceram uma espécie de mitos vividos, que o mais das vezes tinham origem em episódios sem nada de extraordinário. Seria impossível explicar a outrem o que havia nesses momentos que, aos dois, nos fazia comungar tão profundamente. Por exemplo, que havia de particular naquele prado junto à aldeia de Krestá-Bogorodskoie à luz do crepúsculo; ou no cavalo isolado da manada, que trazia uma das patas peadas por um pedaço de madeira; ou no espaço por trás do Kremlin, onde estivemos sentados ouvindo a linguagem, que falava muda, dos mais poderosos sinos, esses que — na Rússia — permanecem imóveis enquanto o badalo vibra no seu interior?
Não é raro que os instantes assim colhidos a dois potenciem o sentimento, como se à alma chegasse, vinda de fora, alguma coisa nova — como se esses instantes se carregassem objectivamente daquilo que habitualmente só podemos receber extraindo-o de nós próprios. E isso proporcionava às impressões correspondentes uma certeza e uma confirmação incomparáveis. E não havia mal também pelo facto de, para mim, por trás do que colhíamos, poder haver algo diferente do que havia no teu caso: a simples alegria do reencontro que completava, enchendo-me de felicidade, aquilo a que a minha mudança precoce para terras estranhas não me permitira compreender da pátria russa. Em ti, a irrupção criadora, o momento decisivo de poeta, compreendia de certo modo igualmente um elemento muito precoce, profundamente esperado com todo o teu ser, algo de que te separara o que viera depois, despojando-te do teu objecto primordial.
(continua)
(in Rainer Maris Rilke, Lou Andreas-Salomé, Correspondência Amorosa, Relógio d’Água)
