O Nosso Mês 4 – Lou Andreas-Salomé

 

 

 Este artigo ainda existe na Constituição da República Portuguesa

 

 

 

 

 

Lou Andreas-Salomé  O Nosso Mês

 

 

 

 

 

(continuação)

 

Voltámos a esquecer o perigo, a esquecê-lo por completo, ao longo de semanas de vida intensa e imperturbada, que nos en­cheram de uma alegria e devoção a todo o momento presentes, semelhantes às das orações do Livro de Horas. Mas depois, voltavam o medo e as crises do corpo. Houve uma coisa que se me foi tornando clara: era como se nesses ataques algo tentasse libertar-se, deixando de poder satisfazer-se apenas pelo movi­mento da alma — algo que o corpo aceitava com gosto, resol­vendo-o numa quebra de toda a medida normal, num puro es­pasmo. Tu, entretanto, indagavas com horror um sem-fim de causas de um incalculável número de doenças.

 

Naquela altura ainda não se punha o problema de como viria a ser construído, a partir das orações, o actual Livro de Horas, como obra acabada: como algo que viria a albergar dentro de si o nome do poeta — porque para nós, nesse tempo, a publica­ção ainda não estava em causa. Mas que seria necessário que se passasse para te salvar do teu conflito pessoal, para colmatar a brecha entre a devoção a Deus e a dicção de Deus? O que pa­recia tornar maiores ainda as dificuldades era o facto de a ir­rupção poética, demasiado imediata relativamente ao seu alto objecto, ter encontrado imediatamente a mestria técnica corres­pondente, em vez de te obrigar a sair em sua busca — ainda que durante anos — através de toda a extensão da realidade, onde, menos exigente, cada coisa te deixaria tempo e tranquili­dade para tanto.

 

Já por então faláramos entre nós de que talvez fosse necessá­rio que o mundo e os homens te recebessem, em vez de te aco­lher apenas o simbólico, onde julgaras recolher e celebrar, de maneira imediata, o sonho mais indizível. Mas foi apenas no final da nossa segunda estada na Rússia que se tornou inteira­mente clara a compulsiva necessidade que te atormentava. Eu fora — por muito pouco tempo — visitar a minha família na sua residência (variável) de Verão, na Finlândia; recebi então uma carta tua, em que te descrevias como um réprobo por cau­sa da desmesura das tuas orações. É verdade que, logo a seguir, veio uma segunda carta, de tom diverso; mas esta, por sua vez, enchia-a essa exaltação a que passaras, entretanto, a chamar, sorrindo, «pré-wolfratshauseniana», o que representava uma recaída incompreensível.

 

Tudo me entristecia e preocupava tanto mais profundamente quanto a verdade era que, para mim, o retomar do contacto com a Rússia realizara os meus desejos íntimos e me deixara alegremente resolvida a enfrentar certas circunstâncias impe­riosas e incontornáveis da minha vida, que me exigiam força e decisão. Sem esforço algum, caíra-me nas mãos aquilo que a ti, no esforço da obra, te ferira até ao mais fundo. Nunca me foi mais claro desde que profundidade primeira teria que se produ­zir a tua maturação. Nunca te ergueste diante de mim tão gran­de e admirado como então: arrastava-me para ti o ímpeto do teu drama interior, efeito que nunca mais deixei de sentir. Agora era urgente que alcançasses a liberdade, conquistasses o es­paço e todo o desenvolvimento que tinhas ainda de conhecer.

 

E contudo… contudo: não me arrancava isso também da tua companhia? Dessa realidade do teu começo, em que havíamos sido como que uma só imagem? Quem poderá penetrar na es­curidão misteriosa da proximidade e da distância mútuas? Na minha proximidade de ti, ardente e cheia de cuidado, eu esta­va, todavia, doravante por fora do que liga um homem e uma mulher, e nunca mais pôde voltar a ser para mim de outra ma­neira. Excluída indizivelmente do que ficava, do que iria cres­cer e viver, até à hora da tua morte, até à minha morte.

 

Nada quero esconder. Com a cabeça entre as mãos, muitas vezes lutei comigo própria tentando compreender isto. E em certa ocasião afectou-me até ao extremo ler, num velho diário em que peguei e que de poucas experiências poderia falar ain­da, dada a sua data, esta frase despida e franca: «Sou para sem­pre fiel às recordações; nunca o serei aos homens.»

 

Quando passámos a viver separados, cada um em sua casa, tornou-se necessário prometermo-nos não continuarmos, por escrito, a alimentar o costume constante de tudo comunicar­mos um ao outro, a menos que se apresentasse uma hora de extrema necessidade. Porque, dadas as circunstâncias que de­terminaram a minha vida, tal modo de vivermos totalmente um junto do outro era ainda menos possível que nos anos anterio­res.

 

(continua)

 

(in Rainer Maris Rilke, Lou Andreas-Salomé, Correspondência Amorosa, Relógio d’Água)

 

 

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