Lou Andreas-Salomé O Nosso Mês
(continuação)
Muitos anos mais tarde, em ocasiões completamente diferentes, quando te encontravas presa da dúvida e do temor porque a produção se interrompera, falavas às vezes do teu esforço no sentido de juntares a uma coisa ou paisagem algo de «mítico», algo de «místico», como que numa tentativa de narcose, visando escapar às dores e ao medo. E então recordavas esses acontecimentos que tínhamos vivido em comum como outros tantos milagres perdidos, mas ainda assim, não menos existentes! Nada místicos, como o mais real de toda a realidade, eles existiam para nós, com tão absoluta segurança que era inevitável que uma e outra vez nos seduzissem. Era o mesmo Rainer, que enchia as tuas palavras alegres quando, nas nossas semanas de viagem subindo o Volga, uma vez estivemos prestes a ir parar cada um de nós a dois vapores distintos, tendo tu comentado tranquilamente: «Mesmo em dois barcos diferentes, seguiríamos os dois o mesmo caminho rio acima — porque a mesma nascente nos espera.»
Quando penso nesse tempo, gostaria de ficar a vida toda a narrá-lo, porque foi só então que experimentei pela primeira vez o que é a poesia — não na escola, mas em carne e osso, e tal foi precisamente nesse instante, o «milagre» da vida. Aquilo que como «oração» de ti subia quase involuntariamente, teria que continuar a ser, para o ser humano que estivesse ao teu lado, revelação inesquecível até ao fim dos seus dias. Era algo que envolvia todas as coisas com que entravas em contacto; era a corporalidade que, quando a tocavas, revelava o divino que nela se cumpria; e o infantil esquecimento de ti próprio com que vivias e acreditavas, concedia a cada dia e a cada hora a sua consumação mais íntima. O nosso tempo permaneceu transbordante de tão cheio: pelo incessante esforço com que tentávamos prestar justiça a cada uma das nossas impressões — ou por outras palavras: graças àquele período de férias incrivelmente solene.
Como estava longe de nós, no começo, a inquietação de sabermos se o impulso de formação poderia ou não entrar em conflito com o impulso da entrega rendida ou que há-de receber forma! Podia, ao que orava, importar, acaso, que a postura das mãos devesse ser ainda mais perfeita? Não tem ele em ambas as mãos, embora no mais fruste dos gestos, o seu Deus, com tanta certeza como se tem a si próprio? Quando, pela primeira vez, te escapou, para «fora», algo que fazia parte da tua oração a Deus e a que querias dedicar-te por completo a fim de viveres totalmente — porque um magnífico resto do anteriormente acontecido te obrigava, por «dentro», a acabar ainda o trabalho de lhe dar forma —, a tua inquietação depressa se dissipou perante o regresso da mais tranquila confiança. Na vez seguinte, recorreste a uma solução jocosa, que voltou muitas vezes a fazer-nos rir de todo o coração. Declaraste que se o Bom Deus tivesse lançado uma olhadela ao teu trabalho, em caso algum to levaria tão a mal que reagisse como sabíamos ter sido, havia pouco, o caso da Senhora B., que, durante a sua lua-de-mel, se sentira insuficientemente cortejada pelo Senhor B. — até que este aplacara a sua cólera assegurando-lhe que se, por vezes, se afastava dela, era para lhe poder escrever os mais ardentes versos de amor.
Mas, pouco a pouco, foi-se desenvolvendo uma transformação que poria fim aos nossos risos de inocência. De início, pensámos que se tratasse de uma perturbação de natureza física, mas, em breve, se tornou clara a relação desse mal-estar com o conflito entre o que em ti era vivido como um hino e a expressão ou formação do hino. A isto somaram-se os medos, quase estados de pânico, que entrelaçavam fantasticamente as duas exigências não equilibradas. O susto maior sofri-o num dos nossos habituais passeios do meio-dia, através do magnífico bosque de acácias, quando te foi impossível passar junto de uma determinada árvore. Depois de teres evitado esse caminho e de teres voltado a ser capaz de o fazer sem problemas, recordaste-me o que se passara, apontando a árvore: «Lembras-te?» Com um gesto afirmativo olhei para a acácia vizinha, que aparentemente nada diferenciava das que a rodeavam. Os teus olhos dilataram-se num estupor de pura incredulidade: «Essa? Não, não, aquela!» — e era visível que a árvore se começara de novo a transformar em espectro.
Perigos semelhantes te ameaçavam sempre que não conseguias dar forma plena a alguma impressão: não era a decepção, as recriminações, a depressão (como acontece na generalidade das pessoas normais); era uma explosão de sentimentos que se iam transformando em algo de imenso, de monstruoso, e ao mesmo tempo uma compulsão de lhes ceder, quase como quando era da feliz compulsão criadora que se tratava. Dizias que era a força criadora deslocada pelo medo, como que um sucedâneo desesperado dela, quando te escapava o domínio das formas.
(continua)
(in Rainer Maris Rilke, Lou Andreas-Salomé, Correspondência Amorosa, Relógio d’Água)


