O Nosso Mês 1 – Lou Andreas-Salomé

 

 

Lou Andreas-Salomé  O Nosso Mês

 

(na sequência do trabalho apresentado pela Clara Castilho sobre Lou Andreas-Salomé, começamos a publicar hoje a última “carta” de amor dirigida a Rainer Maria Rilke, em Abril de 1934, oito anos após a morte do poeta, e que Lou escreveu como apêndice à sua autobiografia) 

 

 

Abril o nosso mês, Rainer, o mês anterior àquele que nos uniu. Quantas vezes Abril me faz, e não certamente por acaso, pen­sar em ti. Porque em Abril se encontram contidas as quatro es­tações, com as suas horas de uma atmosfera de neve e quase de Inverno, ao lado de outras horas de um esplendor escaldante, e de outras ainda de tempestades quase de Outono, semeando o chão húmido não de folhas desmaiadas, mas de invólucros de flores em botão — e não é verdade que nesse chão habita, a qualquer hora, a Primavera, que reconhecemos antes ainda de qualquer primeiro olhar? Daí o silêncio e a naturalidade que nos uniram, como algo que tivesse existido sempre.

 

Se durante anos fui tua mulher, foi porque tu foste para mim o pela primeira vez real, corpo e ser humano indiferenciavelmente unos, facto indubitável da própria vida. Palavra por palavra, teria podido confessar-te o que, como confissão de amor, foste tu a dizer-me: «Só tu és real.» Assim nos tornámos espo­sos antes de termos sido amigos, e a nossa amizade também mal a escolhemos, originária de núpcias igualmente subterrâ­neas. Em nós não eram duas metades que se buscavam: era a totalidade surpreendida a reconhecer-se, com um calafrio, nu­ma incrível unidade. E deste modo fomos irmãos, mas como que irmãos de um tempo remoto, anterior àquele em que o in­cesto se tornaria sacrilégio.

 

A nossa solidariedade, pronta e disponível — para usar a tua expressão — para a luz e para o escuro de todas as estações te­ve que sofrer a prova das circunstâncias inamovíveis e impe­riosas da vida, as circunstâncias que quase chegam a suprimir a própria expressão poética do que vive. Mas teríamos o direi­to de destroçar, como fizemos, o que então conquistou forma poética? Ante o que veio depois, isso possuía a tal ponto os traços, o rosto da tua pura humanidade — apenas humanidade, ainda não definitivamente sancionada, é certo, pela tua arte consumada de poeta —, que a sua conservação havia de te pa­recer valer a pena em termos de criação artística. Mas muitos meses mais tarde, na casa «Waldfrieden» de Schmargendorf, quando no brevíssimo lapso de uma embriaguez inesperada es­creveste o clarim, chamou-te no poema a atenção a semelhan­ça que nele havia com certas estrofes dos tempos anteriores, com as quais já não nos era possível compará-lo, e que talvez, no entanto, tivessem podido prescindir do domínio da técnica sobre a espontaneidade apaixonada.

 

Nessa altura, passava-se comigo uma coisa estranha, uma vez que não compreendia a tua primeira maneira lírica, apesar da sua musicalidade (daí, a tua frase de conforto: dir-mo-ias doravante tão simplesmente que eu acabaria por entender). Mas houve uma excepção para esta falta de entendimento — uma única excepção até na poesia que me dedicavas: foi quan­do deixaste a folha no meu quarto. Exceptuando o verso e a ri­ma, eu poderia ter-te dito a mesma coisa. E não sentíamos os dois juntos o murmúrio do incompreensível que — experimen­tado até à mais funda raiz do corpo — «trazíamos no sangue», mesmo nos momentos mais pequenos, do mesmo modo que nos mais sagrados da nossa existência?

 

A meu pedido foi incluído, assim, esse poema, anos mais tarde, no Livro de Horas:

 

Tira-me a luz dos olhos: continuarei a ver-te

Tapa-me os ouvidos: continuarei a ouvir-te

E embora sem pés caminharei para ti

E já sem boca poderei ainda convocar-te.

Arranca-me os braços: continuarei abraçando-te

Com o meu coração como com a mão

Arranca-me o coração: ficará o cérebro

E se o cérebro me incendiares também por fim

Hei-de então levar-te no meu sangue.

 

 

(continua)

 

 

(in Rainer Maria Rilke, Lou Andreas-Salomé, Correspondência Amorosa, Relógio d’Água)

 

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