Site icon A Viagem dos Argonautas

Diário de bordo de 17 de Outubro de 2011

Já aqui falámos do direito à indignação que magnanimamente nos foi concedido por Mário Soares numa sua intervenção presidencial. O governo era do PSD – com os dislates e arbitrariedades  habituais nos governos do “bloco central”. Pois bem, o direito à indignação sempre o tivemos – nem Salazar, com toda a sua panóplia repressiva, nos podia impedir de nos sentirmos indignados. E Soares foi talvez o principal responsável por este monstro que anda por aí à solta e que vai devorando as bases da nossa já de si periclitante economia. Aí temos o tal socialismo em liberdade e de rosto humano. que afinal, caída a máscara,  é o rosto sinistro do capitalismo selvagem – do canibalismo.  

 

Claro que estamos indignados – ao mesmo tempo que se branqueia a corrupção de ex-membros do governo e se desvaloriza a vergonha que ocorreu e ocorre na Madeira, vão-nos, de uma forma que nem os governos fascistas foram capazes de utilizar, reduzindo vencimentos, cortando nas pensões, aumentando horários de trabalho, reduzindo períodos de férias. Tudo coercivamente – somos informados, mas nem sequer tivemos oportunidade de dar opinião sobre esta infâmia. Como se atreve esta gente a que não se reconhece passado, nem presente, que se limitou a capitalizar nas urnas o descontentamento relativamente a Sócrates, como se atreve a resolver com subtracções sucessivas um problema desta magnitude? Não colhe o compor um ar de inocência e dizer que todas as culpas são do governo anterior – muitos dos criminosos que nos conduziram a esta situação, são gente do PSD. A eleição desta gente estúpida, incompetente e predisposta a aceitar a corrupção, é a prova provada que este modelo de funcionamento governativo nada tem a ver com os pressupostos da democracia.

 

Se estas medidas tivessem sido precedidas de uma escrupulosa limpeza em todos os níveis do aparelho de Estado, confiscando bens obtidos ilicitamente por políticos, com penas de prisão adequadas, se o caso da Madeira fosse devidamente clarificado e punidos todos os envolvidos na burla de que os dinheiros públicos foram alvo, se os vencimentos dos políticos fossem reduzidos a níveis aceitáveis, se, em suma, víssemos que não éramos nós a pagar tudo, talvez não nos sentíssemos tão indignados e aceitássemos algumas das medidas.

 

Assim, a indignação não chega.

 

Lembramos de novo o artigo 21º da Constituição da República Portuguesa.

Exit mobile version