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O Reino Unido, o Holocausto, os currículos escolares, a população muçulmana, os falsos escritores e a estupidez humana – Reflexões erráticas e derivas escriturais de Paulo Rato

Há alguns dias, recebi uma mensagem, daquelas que correm mundo se não as travam, reenviada por uma das minhas correspondentes electrónicas, muito duvidosa, mas preocupada com a sua eventual veracidade. A tal mensagem rezava assim (mantive os erros ortográficos, porque gosto muito de folclore):

 

“Ha poucos dias, o Reino Unido removeu o Holocausto dos seus currículos escolares porque “ofendia” a população muçulmana, que afirma que o Holocausto nunca aconteceu…”

 

Sera que isto e verdade? Seria interessante pesquizar. Mas se for realmente, e de ficar “de boca aberta” como podem ser tao imbecis e inconsequentes ao ponto de apagar a “Historia” para satisfazer uma minoria ignorante. Que Deus nos ajude!

 

(A que se seguia uma série de imagens bem conhecidas que comprovam a veracidade do denegado Holocausto e nos asseguram a pujança – que sobrevive e por aí se manifesta das mais desvairadas maneiras – da Maldade humana). Não insisti em olhá-las. Porque EU NUNCA ESQUEÇO: basta olhar para o lamaçal circundante ou ver na televisão mais um ministro, tipo Relvas ou o beato Vítor, a vomitar pedaços dessa Maldade, dos cantos das bocas escorrendo-lhes o sangue de muitas gerações de miseráveis.

 

Estive para responder logo. Mas, entretanto, comecei a meditar sobre o interessante tema de qual seria o deus a que o primeiro remetente pedia ajuda: Jeová, a Santíssima Trindade reunida em conclave unificado, Baal, Alá, o dos não sei quê “meninos” do dito, o da “Igreja Universal, SARL”, Zeus! – quem sabe?

 

É que isto de deuses é coisa difícil. Não me encaixo nos ateus nem nos agnósticos. Cá por mim, tanto se me dá como se me deu que tenha existido um ímpeto cósmico – de pergaminhos transcendentais, de composição energético-material ainda desconhecida, ou de outra dimensão (matematicamente possível) – que se tenha explodido, irresponsavelmente, no tal “big bang”, tendo em conta a porcaria daí decorrente que veio desembocar neste ínfimo planeta do presumivelmente infinito Universo. Em suma: estou-me borrifando para o eventual ejaculador precoce. Se, por azar dele, existisse e lhe coubesse um resquício de consciência parecida com a que nos consome, há muito que deveria estar pior que o Hamlet.

 

Mas a mais shakespeareana questão é que esta mixórdia – de rochas e minerais, magmas, água e mais líquidos, mais ou menos arredondada – é onde assento os pés, com mais uns sete biliões de afins: “Homo sum et nihil humanum a me alienam puto”, dizia um personagem de Terêncio, como eu (e o próprio autor de comédias), pouco recomendável (sobretudo em aglomerações de crentes do tipo João César das Neves ou Bin Laden). Várias são as versões da frase latina, mas a tradução vem dar na mesma: nada do que é humano me é estranho. Isto é, bole comigo, influencia as sociedades e acaba sempre por, na melhor das hipóteses, azucrinar-me o juízo…

 

Estava eu nestas elevadíssimas elucubrações (que incluíam a possibilidade de “Deus” ser, afinal um armazém onde a criatura pudesse adquirir um teclado que lhe poupasse alguns dos deslizes da grafia), quando reparei numa nova mensagem da mesma correspondente, com o alerta de lhe terem confirmado que se tratava de mais uma balela. Retorci a meditação e lá me resolvi a alinhavar uma resposta que ela, certamente mal aconselhada, sugeriu que transformasse em artigo pró blogue. Reorientado o sentido da reflexão, eis o que resultou de publicável.

 

Seria muito difícil a notícia acima corresponder à verdade, já que: – O único idiota islamista (árabe é outra coisa – há árabes que não são islamistas, embora talvez sejam raros, dadas as características totalitárias dos ramos mais difundidos desta religião…) que sei dedicar-se a proferir repetidamente este disparate é o Ahmadinejad, do Irão, que não representa, felizmente, a totalidade dos islamistas nem, provavelmente, uma parte significativa deles; – Mesmo com os conservadores no poder, seria muito estranho que o Reino Unido desatasse a “obedecer” a este tipo de fanáticos. Tal representaria, provavelmente, um suicídio político da coligação governamental: mais valia afogarem-se directamente no Tamisa ou enforcarem-se na Torre de Londres;

 

 – Apesar da minha falta de simpatia pelo Islão – cujos membros, mesmo os mais civilizados e tolerantes, não podem negar o que está efectivamente escrito no livrinho que lhes serve de guia (tão apócrifo e de duvidosa origem como a Bíblia), como a sua mistura impositiva de dogmas religiosos com organização política, as práticas punitivas desumanas e medievas, ou o facto de o Corão ser um apanhado de escritos de criaturas do sexo masculino absolutamente acagaçadas perante as mulheres (em geral) e assustadíssimas com a hipótese de elas terem os mesmos direitos dos homens – não afasto a suspeita de ser uma manobra de gente que quer complicar ainda mais as actuais cisões político-ideológicas, acirrar os ânimos contra os que professam essa religião, interferir negativamente no problema, hoje tão presente, das correntes migratórias de países islâmicos para os “ocidentais”, quase todos, como se sabe, mui cristãos…

 

Aliás, a propósito disto, já só faltavam os disparates anunciados pelo José Rodrigues dos Santos como constando do seu último livro (alguns, ouvi-os mesmo da boca do escrevinhador, ontem, e são de fugir)! A criatura, que deve ser um dos exemplos mais completos de auto-convencimento que por aí se espojam, pensa ter descoberto a “verdade” sobre questões que são controvertidas há praticamente dois milénios e, sobretudo nos últimos dois séculos, estudadas por académicos de diversas especialidades e elevadíssimo prestígio! Estou mesmo a vê-lo, como foi sub-repticiamente sugerido na “reportagem” que anunciava o lançamento do “livro”, a “informar-se” na Biblioteca do Vaticano (e sabe-se lá quantas mais) – nas mais diversas línguas, do aramaico ao latim, expressas nos mais diversos tipos de escrita, dos hieróglifos egípcios aos alfabetos grego ou cirílico, passando pela escrita cuneiforme… para nos trazer finalmente a VERDADE ou DÚVIDAS-PERGUNTAS-QUESTÕES nunca antes levantadas na mais mínima parcela do planeta (parece que é o que pensa o tontinho)!

 

Só posso prometer que não lerei os tais disparates “ao vivo”, porque, há algum tempo, a VISÃO ajuntou a uma das suas edições – em boa hora! – um daqueles caderninhos que, contendo o primeiro capítulo de uma “obra”, pretendem aguçar o apetite dos tão desejados leitores para lerem a dita. Nesse 1.º capítulo de um dos últimos livros deste escrevedor, entrava um camião e suas dependências (motorista, carregadores e mais uns etcs. mui misteriosos e secretos): como o homem não é um escritor a sério e não sabe népia de literatura, passei uma dezena de páginas a sofrer a transformação do veículo em camião e do camião em veículo, mais os carregadores que carregavam o camião e o condutor (ou motorista) que guiava o veículo e sujeitos que dirigiam o carregamento e descarregamento do camião ou do veículo, e o veículo e o camião e o camião e o veículo e…

 

Ora, eu não nasci para sofrer! Pelo que, se alguma vez me tivesse passado pela cabeça ler algum livro do senhor, despassou-me de vez: não há paciência par ler quem escreve tão mal!

 

E, ainda por cima, já estou muitíssimo bem servido: a propósito de seitas cristãs e versões da divindade, semi-divindade ou humanidade completa de Jesus Nazareno e como nasceu e se já vinha divinizado ou a divinização lhe chegou depois, ou nunca chegou, ou vinha atrasada, ou apanhou-o a meio da “assunção” e mais uma miríade de dissensões das mais díspares e disparatadas, que se espalharam entre os cristão do primeiro milénio e mais uns tantos séculos, chega-me e sobra-me o Umberto Eco, que junta uma imensa erudição a um humor refinado… Umberto Eco que o JRS nunca terá lido, senão tinha vergonha de proferir as parolices que lhe ouvi… Aliás, ando a ler (bem devagar e com especial degustação) a versão do Eco da invenção, no séc. XIX, dos célebres “Protocolos de Sião” e outros textos anti-semitas e anti-maçónicos, tão úteis ao nazis e quejandos, no último (?) livro dele “Il Cimitero di Praga”, baseado em acontecimentos e personagens históricas reais (como outras obras dele) e que já foi alvo, quando saíu, de umas críticas aparvalhadas, entre elas a duma suposta erudita do “Osservatore Romano”. Se há alguma coisa infinita é (como creio que já alguém escreveu) a estupidez humana…

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