EDITORIAL – Palestina – um novo Holocausto.

logo editorialUm dos maiores problemas para compreensão do mundo actual é, além de um excesso de informação, a complexidade das estruturas que o dominam. Como num tapete, os fios da trama e da urdidura, cruzam-se e passam a fazer parte de um todo em que o pormenor se torna invisível. Religiões, credos e partidos políticos, movimentos sociais, lutas sindicais, fazem crer que há, como nas histórias infantis – os bons e os maus. No entanto, verificamos que ao mudarmos de campo de luta há bons que se convertem em maus e vice-versa.

Quando se condena a selvajaria israelita, não o fazemos em defesa do islamismo. Os clérigos islâmicos, ao impor as suas leis desumanas, são aliados dos militares de Israel. Publicámos ontem um manifesto de Gandhi escrito em 1938 quando o horror do Holocausto começava a ser conhecido. A ocupação dos territórios da Palestina pelos judeus imposta pela Grã-Bretanha era também notícia. Os nazis e simpatizantes de Hitler, usavam o crime que se estava a cometer na Palestina para justificar a repressão anti-judaica na Alemanha. Gandhi não se deixou confundir e condenou ambos os crimes.

É preciso compreender que não existe contradição em condenar a estrutura eclesiástica do Islão, de um integrismo primário e insuportável, defensor de uma moral incompatível com a realidade económica e social de um mundo globalizado, e, em condenar também a raivosa reacção do militarismo hebraico que, por cada judeu morto, exige a morte de cem palestinianos. Isto, vivendo os judeus em território que roubaram e de que se acham legítimos donos baseados no que se diz num livro de histórias. Clérigos islâmicos e políticos hebraicos, fazem parte do mesmo bando.

A excisão genital das raparigas muçulmanas e o apedrejamento de adúlteras, os atentados suicidas, não podem servir de desculpa para a destruição de aldeias na Palestina. Se o Ocidente quer «humanizar» o Islão, que o faça no plano da economia – proibindo as trocas comerciais com os estados que não respeitem a carta dos Direitos Humanos proclamada pela ONU em 1948.  São os crimes e as injustiças de que os islâmicos têm sido vítimas que permitiram a expansão do integrismo e que transformaram homens comuns, trabalhadores, estudantes, intelectuais, em terroristas.

O poder militar de Israel é desproporcionado se tivermos em conta a pequenez do estado judaico. No entanto, não fora a protecção dos Estados Unidos e da União Europeia, e teria já sido pulverizado. Um crime não se resolve com outro crime – o Ocidente devia empregar o seu poder desmilitarizando a região e não ajudando uma das partes. Ainda por cima, ajudando quem roubou a matar quem foi roubado.

 

 

 

3 Comments

  1. Bravo, Carlos Loures! Precisamos também divulgar as ideias de israelenses que não acreditam nas soluções violentas, mas na possibilidade do diálogo e da negociação. O caderno Prosa e Verso do Globo de sábado, 12 de julho, publicou um artigo do escritor Etgar Keret, onde se lê: “A paz, por definição, é um acordo entre dois lados, e nesse tipo de acordo cada lado tem que pagar um preço real, pesado não só em território e em dinheiro, mas com uma verdadeira mudança de visão de mundo.”

    abraço solidário

  2. *Excelente artigo -como nasci numa terra onde foi sempre possível conviver como amigos de peito ,cheguei a ser madrinha de casamentos e celebrar esses eventos como se fossemos todos do mesmo ramo e eramos mesmo …E ste tema apaixona-me solenemente -Ali nunca nos preocupámos com as diferenças religiosas mussulmanas -E agora?Inacreditável .Arrepiante .*

    *O extracto que mais me apaixonou foi :”* Se o Ocidente quer «humanizar» o Islão, que o faça no plano da economia – proibindo as trocas comerciais com os estados que não respeitem a carta dos Direitos Humanos proclamada pela ONU em 1948. São os crimes e as injustiças de que os islâmicos têm sido vítimas que permitiram a expansão do integrismo e que transformaram homens comuns, trabalhadores, estudantes, intelectuais, em terroristas. O poder militar de Israel é desproporcionado se tivermos em conta a pequenez do estado judaico. No entanto, não fora a protecção dos Estados Unidos e da União Europeia, e teria já sido pulverizado. Um crime não se resolve com outro crime – o Ocidente devia empregar o seu poder desmilitarizando a região e não ajudando uma das partes. Ainda por cima, ajudando quem roubou a matar quem foi roubado.

    POSTEI-O NO MEU FACE -Maria

    1. Agradeço os comentários de Rachel Gutiérrez e de Maria de Sá. A questão da Palestina, o genocídio que os israelitas estão a levar a cabo com um método que nada fica a dever ao dos nazis no extermínio de judeus, será aqui debatida à nossa maneira – expondo as opiniões dos colaboradores do blogue (comentadores incluidos) e evitando a «informação» que circula em mensagens anónimas, tantas vezes errada e descredibilizadora da verdade objectiva, demasiado forte e pungente para que a «reforcemos».

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