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OS HOMENS DO REI – 62 – por José Brandão

Alexandre de Gusmão (1695-1753)

 

Alexandre de Gusmão natural do Brasil, como seu irmão Bartolomeu Lourenço, mais velho que ele dez anos, nasceu em Santos, do mesmo respeitável casal Francisco Lourenço, e sua mulher Maria Álvares.

 

Também, como seu irmão, frequentou o Seminário jesuítico da Baía, de que o padre Alexandre de Gusmão era o reitor e a ambos se afeiçoara, a ponto de consentir que lhe adoptassem, por mais distinto, o nobre apelido Gusmão.

 

Concluídos os estudos na Baia, mandou-o também seu pai, aos 15 anos, a exemplo do que os Jesuítas haviam determinado ao irmão mais velho, continuar a sua educação literária em Portugal, na Universidade de Coimbra, que, em 1714, lhe conferia com distinção o grau de doutor; e D. João V, assim informado, o nomeou aos 19 anos secretário da Embaixada em Paris, a cargo do embaixador D. Luís da Câmara, conde da Ribeira.

 

Aproveitou em Paris o jovem secretário a excelente oportunidade para mais se valorizar, cursando na Sorbonne a Faculdade de Direito Civil e Romano, em que também se doutorou, e, visando mais altas ambições, ao passo que seu irmão Bartolomeu se celebriza como inventor da famosa máquina de voar, Alexandre, disposto a prosseguir na diplomacia, ia aproveitando o tempo disponível a consultar os arquivos da Embaixada e estudar a colecções de tratados, correspondência e outros instrumentos diplomáticos da intrincada política externa da Europa do seu tempo. Nesses estudos e atentas meditações se habilitava com bagagem indispensável às suas ambições políticas. No fim da missão, regressou com o embaixador a Lisboa, em 1720, trazendo também, por dever fraterno, o irmão Bartolomeu, que arrastava já na grande urbe uma vida de miséria.

 

Em Portugal, tratou logo Alexandre de Gusmão de que o seu grau de doutor pela Sorbonne lhe fosse, como foi, ratificado, com todo o protocolo universitário, pela congénere de Coimbra.

 

Reconhecendo-lhe por tantos títulos o alto merecimento, D. João V nesse mesmo ano o elevou a fidalgo da Casa Real e o chamou à governação, colocando-o à testa dos serviços de administração interna e negócios exteriores da Secretaria de Estado do Reino.

 

Também seu irmão Bartolomeu, em pleno favor no conceito do monarca, voltara entretanto a frequentar a corte e, por capricho régio, lhe haviam sido aproveitados os talentos e formação eclesiástica, bem como a categoria de capelão-mor da Casa Real, para servir na diplomacia, em 1722, como enviado extraordinário à Cúria Romana, a fim de obter do Pontífice as dilectas pretensões do beato monarca, todas de ostentosa pompa, como a elevação da arquidiocese lisbonense a patriarcal, o cardinalato perpétuo aos seus prelados, os maiores privilégios litúrgicos à capela real, mitras para os cónegos, canonizações, indulgências, outros benefícios à Igreja e alto Clero e, por cúpula de tanta ostentação, o título augusto de Rei Fidelíssimo, a ele e seus sucessores.

 

Mas como, em 1723, padre Bartolomeu de Gusmão, ao cabo de mais de um ano de porfiadas e dispendiosas negociações, nada ainda conseguira de positivo em Roma, apesar das largas somas de ouro e ofertas de diamantes aos purpurados magnates do tribunal da chancelaria da cúria romana, recorreu o soberbo D. João V, mais vexado que indignado, à sagacidade e experiência do irmão Alexandre para desenvencilhar o negócio, como adido à Embaixada. Chamou Bartolomeu a Lisboa, ficando Alexandre ministro plenipotenciário junto do Vaticano até 1730.

 

No decurso desses sete anos, tratando asperamente os cardeais e verberando-lhes as escandalosas exigências de dinheiro, conseguia em breve, por sua autoridade moral, resolver todos os assuntos pendentes a contento de seu venerando amo, e com tanta admiração do próprio pontífice que desejou este elevá-lo a príncipe romano. Não lhe consentiu o rei aceitar a excessiva dignidade, talvez para não perdê-lo do serviço do Reino; e de facto em 1730 era chamado a Lisboa, precedido do grande prestígio adquirido como diplomata.

 

Mercê da sua excepcional capacidade de trabalho, isenção e lúcido critério, retomou na corte suas funções na Secretaria de Estado, exercendo a administração da justiça, alfândegas e Universidade, esclarecendo os textos ambíguos da legislação vigente e, por seus contactos no estrangeiro, foi nele restabelecido o abolido cargo oficial de escrivão de puridade, como secretário de Estado adjunto do soberano para os negócios estrangeiros, de cuja correspondência cifrada só o escrivão de puridade tinha o código, e o monarca ciosamente chamava a seu exclusivo despacho. Nessas missões de estrita confiança em política externa, soube Alexandre de Gusmão firmemente manter sempre a dignidade da Nação e da Coroa.

 

Tão ascensional carreira política de modo nenhum o empolava, nem lhe perturbava a lucidez nem a inteireza de carácter. Observador atento, ciente do clima político do reinado e da índole do soberano, o seu mordaz espírito crítico não poupava as prodigalidades excessivas, a pleno benefício do alto Clero e da Igreja e em prejuízo das instantes necessidades de saneamento económico-financeiro e do progresso material do Reino.

 

Nomeado em 1742 para o Conselho Ultramarino, da Secretaria de Estado da Marinha e Conquistas, ali prestou serviços admiráveis aos domínios do Ultramar.

 

Por morte de D. João V, findava-lhe a feliz carreira política pois logo foi extinto o invejado cargo de escrivão de puridade. Mais três anos apenas sobreviveria ao seu augusto amo e amigo, a quem durante vinte anos lealmente servira com exemplar discrição e aprumo, sem sombra de servilismo.

 

Amargurados lhe foram esses últimos anos de vida pela morte prematura dos dois filhos e o devastador incêndio que lhe destruiu a casa, todos os haveres e a preciosa biblioteca, decerto recheada de irrecuperável correspondência e documentação política. Bem se pode, todavia, inferir sem exagero como foi providencial o seu longo treino político de vinte anos. Na plena confiança dum orgulhoso monarca, não podia deixar de ser benéfica sua discreta acção moderadora dos excessos do absolutismo, sua disciplinadora intervenção nas novas estruturas dum Estado obsoleto, em crise de crescimento pela recente e brusca reorganização administrativa à moderna.

 

Foi este Dr. Alexandre de Gusmão um dos homens ilustres do reinado que, sem o prever, iam preparando o terreno propício ao surto de reformas básicas do reinado seguinte.

 

Alexandre de Gusmão morreu em Lisboa no ano de 1753.

 

A seguir:Sebastião José de Carvalho e Melo

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