Suavemente, voámos sem qualquer trepidação por cima daquela paisagem única da Capadócia, resultante da erosão dos dois vulcões já extintos, dando origem a notáveis formas que a natureza esculpiu para nosso deleite.
Com a leitura desta obra, que depois o filme reforçou, muitas vezes sonhámos com a possibilidade de fazer a experiência, possibilidade que iria materializar-se dentro de alguns minutos.
Já no ar e sem apreensões
No meio de dezenas de balões, sobrevoando a fantástica paisagem da Capadócia
Na aterragem, tínhamos à nossa espera umas tantas garrafas de «champagne», forma simpática de nos despedirmos mais pelo gesto do que pela qualidade do vinho que nos foi dado a beber. Que saudades tivemos então do bom espumante português, não tão conhecido como o francês, mas não de inferior qualidade.
O sorriso é demonstrativo do quão agradável foi a experiência
Mas até que se chegasse a um voo tão tranquilo, muita água passou por debaixo das pontes. Lembremos apenas os trabalhos pioneiros do português, embora nascido no Brasil, Padre Bartolomeu Lourenço de Gusmão, o que nos obriga a recuar ao início do século XVIII, mais concretamente a 1709, quando conseguiu, em Lisboa, que a sua «passarola» subisse a 4 metros de altura, ficando assim para a história como o primeiro voo conseguido pelo homem. Mais tarde, José Saramago não se vai esquecer do feito, prestando uma verdadeira homenagem ao Padre Bartolomeu de Gusmão numa das suas obras-primas, «O Memorial do Convento», numa edição da Caminho, relembrando também que os tempos não estavam de feição para os que queriam construir um futuro melhor, progressista, como atesta esta pequena transcrição desta prodigiosa obra de Saramago:
«O padre Bartolomeu Lourenço entrou violentamente na abegoaria, vinha pálido, lívido, cor de cinza, como um ressuscitado que já fosse apodrecendo, Temos de fugir, o Santo Ofício anda à minha procura, querem prender-me, onde estão os frascos. Blimunda abriu a arca, retirou umas roupas, Estão aqui, e Baltasar perguntou, Que vamos fazer. O padre tremia todo, mal podia sustentar-se de pé, Blimunda amparou-o, Que faremos, repetiu, e ele gritou, Vamos fugir na máquina, depois, como subitamente assustado, murmurou quase inaudivelmente, apontando a passarola, Vamos fugir nela, Para onde, Não sei, o que é preciso é fugir daqui.»
Ao que parece, hoje já não é necessário «fugir daqui», é o próprio Governo que a emigrar nos aconselha.




