Site icon A Viagem dos Argonautas

O saber das crianças e a psicanálise da sua sexualidade – 32 – por Raúl Iturra

 

 

 

A terceira via parece ser apenas o debate de Freud, Klein e Miller e outros, não mencionados no texto. Nem Giddens, nem Wojtila antes, Ratzinger hoje, Lutero no passado pretérito, ou Calvino no passado perfeito, ainda Jaime Tudor desses tempos, sabem organizar os desenhos das crianças. Antes, desenham a sociedade dentro da que as crianças e jovens são abusadas, sexual e emotivamente. Estas ideias são as bases dos desenhos de que trata a sessão seguinte. Pretende-se com esta saber como é que as crianças aprendem.

 

Mas, é-me impossível acabar esta parte sem comentar sobre o abuso sexual e saber das crianças. Os mais novos pouco ou nada sabem sobre sexualidade, mas sentem desejo e procuram a sua satisfação. As crianças não são esses “anjinhos” que a mente cultural julga conhecer, nem de uma ética a concordar com o aprendido na catequese ou advertida pelos pais. Sabem por ter ouvido falar de sexualidade aos seus adultos, como tenho observado no meu trabalho de campo , ou por sentirem a libido trabalhar nos seus corpos. Libido que leva os mais novos a esfregarem-se entre eles ou ao destemido jogo de tentar agarrar os órgãos genitais dos amigos, com imenso prazer e em presença dos adultos, ou masturbarem-se às escondidas num grupo de amigos, com ou sem ejaculação, conforme a idade púbere ou pré púbere. Um outro jogo que gostam de fazer é tentar tocar as mamas das raparigas ou jogar com o rabo delas, ou, o mais atrevido de tudo, beijá-las ou atirá-las ao chão montando-se sobre elas imitando movimentos de coito por largos minutos.

 

Se isto acontece, é porque, como já foi explicado antes, ao falar dos analistas que teorizam sobre a libido, teorias usadas por nós ao longo do texto, essas crianças sentem prazer sexual e têm a urgência de o satisfazer de alguma maneira. Há os mais atrevidos, pelos seus nove ou onze anos, que seduzem meninas para ir com elas para a cama ou para palheiros ocultos. Factos narrados aos seus amigos pares e a mim próprio, por terem confiança comigo, por saberem que eu não ia admoestar nem repreender ou dizer aos seus adultos. Todos fomos crianças um dia e lembramos esse sentido do desejo, satisfeito de várias formas. A minha observação, tem-me conduzido a entender que na idade pré púbere, os meninos são mais activos e a sua libido não tem género preferido. O preferido é a confiança no amigo, para ninguém saber o que entre eles acontece; as meninas são mais passivas e permitem facilmente a aproximação dos rapazes. Não consigo esquecer essa criança rechonchuda que estudei na Comuna de Pencahue, Província de Talca, Chile, apetecida de forma erótica pelos seus amigos; o que ele gostava, esse Yarin de 8 anos em 1999, rapaz prostituído pelos adultos na casa dos homens como é denominada entre o clã Picunche dos Mapuche, que habitam Pencahue. Ele e o seu amigo da alma, Marcelo, eram sempre convidados para a casa dos homens, na que eram sodomizados. Não me parece correcto dizer abusados, apesar de a lei proibir trato sexual com menores, definido como delito de pedofilia, tema que já abordei noutros textos, especialmente no livro Maria de Botalcura, escrito conjuntamente com a minha irmã, a Dra. Blanca Iturra. Não é favorecer a pedofilia. Os actos pedófilos são uma felonia, punida por lei, pelo menos na União Europeia, aliás, noutros textos, emito o que raramente faço por escrito: juízos de valor.

 

Dou um veredicto, um julgamento o que um escritor de ciência não deve fazer. Ainda assim, essa parte da mente cultural dos Picunche e de vários Huinca, esse nome Mapuche dado aos chilenos que significa estrangeiro e os ditados da mente cultural, no presente caso, não podem ser punidos. Podem, sim, ser prevenidos com ensino ou outro tipo de actividade para distrair a mente, como Bion aconselha num dos seus textos citado antes.

 

 

Exit mobile version