O saber das crianças e a psicanálise da sua sexualidade – 15 – por Raúl Iturra

 

 

 

Parece-me haver elementos suficientes para entender as feridas causadas nos mais novos, que passam a ser, em adultos, ou mentes brilhantes ou mentes apagadas. É por esta questão que abordo a definição de anomia de Durkheim. O abuso sexual é analisado pelo autor recorrendo a trabalho de campo e a estatísticas, contudo, não faz qualquer referência ao abuso de crianças.

 

São os analistas e os Etnopsicólogos, como Georges Devereux, Marcel Mauss e o seu afamado discípulo, hoje com cem anos, Claude Lévi-Strauss , que o irão fazer. O abuso emotivo e sexual da criança, análise central nos textos de Freud, Klein e Miller, conduz a uma psicopatia como a relatada por Miller no seu Thou shalt not be aware, capítulo 4, parágrafo 2, página 37, quando estudou um caso completamente diferente dos, até agora, analisados por ela: a psicopatia desenvolvida por uma criança de 9 anos à morte do seu pai. Um pai que o tinha criado dentro de formas religiosas estritas. O analista que tinha tratado do caso comentou com Alice Miller que, as duas formas de aproximação ao facto eram correctas: a teoria de analisar impulsos definidos por Freud, e a mais usada por ela, a de uma pedagogia livre de preceitos, na que o desenho era parte importante.

 

Mas, a criança tinha desenvolvido um problema Edipiano sentindo-se feliz com a morte do seu pai. A criança precisava de uma análise das suas ilusões de ver anjos que a ameaçavam pela morte do pai. Na minha opinião, este é o caso em que existe apenas medo, um medo edipiano, como anteriormente referi. No entanto, como Bion entendeu, a partir da sua experiência de trabalho em grupo com membros do exército em guerra, nos anos 40 do século passado, existem duas alternativas quando os abusos emotivos e perversões com a infância aparecem: ou aprendemos a ser criativos para sair do buraco do desencanto, ou essa dor dá cabo da nossa racionalidade , ideias, por sua vez, retiradas do conceito do Eros freudiano (1923 ), utilizado por Klein e Miller nas suas análises.

 

NOTAS:

 

 

Refiro Marcel Mauss como Etnopsicólogo por dois motivos: primeiro, por estudar a mente humana através da teoria do sacrifício, do pecado, dos rituais, mitos e ritos campos de estudo nunca antes analisados da forma como Marcel Mauss o fez: com trabalho de campo, contexto histórico e etnográfico e com explicações etnológicas da mente humana. Etnológicas ou Etnologia, não são só a forma de denominar a Antropologia em França. É toda uma ciência que estuda a mente humana por meio das palavras, das ideias e das acções. O dicionário usado por mim para este texto diz: do Gr. éthnos, raça + lógos, tratado. s. f., ciência que estuda os factos e documentos recolhidos pela etnografia; estudo dos povos e das raças, nos pontos de vista dos seus caracteres psíquicos e culturais, das suas diferenças e afinidades, das suas origens e relações de parentesco, em: http://www.priberam.pt/dlpo/definir_resultados.aspx. O seu mais brilhante discípulo, Claude Lévi – Strauss, fala também de Etnologia. Um segundo motivo, é o seu famoso livro sobre a dádiva – que tenho severamente revisto num livro meu, citado antes -, resultante do estudo das formas de pensamento de vários povos, a partir das investigações etnográficas de outros, como Malinowski, Boas ou Thurwald. A sua conclusão é paradoxal: depois de estudar de forma analítica as actividades de outros povos do mundo, denominados no seu tempo não civilizados, acaba por estudar a sua própria nação e de analista da psicologia dos porquês e dos como dos povos cujas etnografias foram estudados por outros, acaba por passar a estudar a antropologia da economia materialista histórica, socialista marxista. O texto é de 1923-24: Essai sur le don: forme et raison de l´échange dans les sociétés archaïques, publicado inicialmente em duas partes da Revista, fundada por Émile Durkheim, L’Année Sociologique, mais tarde editado em formato livro, intitulado L’Essai sur le don, Presses Universitaires de France, 1950, 197 páginas, enviado à editora pelo estudante de Marcel Mauss, Claude Lévi – Strauss. Este discípulo compilou e editou toda a obra de Mauss em três volumes no mesmo ano, e na mesma editora. Marcel Mauss, pela perseguição nazi a que fora sujeito, tinha as faculdades mentais perturbadas, não usava a razão, tendo retrocedido da idade adulta para a infância. Marcel Mauss que, aterrorizado por causa dos seus descendentes, intelectuais e consanguíneos, poderem desaparecer na Segunda Guerra Mundial do Século XX, tal e qual tinha sido na Primeira Grande Guerra, fugiu do real refugiando-se numa calma paranóia, esta parte da nota foi retirada do meu texto “Marx, Durkheim e a teoria da infância”, publicado no periódico A Página da Educação, nº115, ano 11, Setembro de 2002, texto em linha em: http://www.apagina.pt/arquivo/Artigo.asp?ID=2013. O trabalho mais interessante de Marcel Mauss, pode ser lido em: http://classiques.uqac.ca/classiques/mauss_marcel/socio_et_anthropo/2_essai_sur_le_don/essai_sur_le_don.html, ou no sítio web: http://pages.infinit.net/sociojmt. Há versões em português, da Editora Edições 70, uma de 1988, e uma outra com melhor tradução, de 2001. É esta última versão que eu recomendo. Recensões e excertos de texto, em: http://www.google.com.br/search?hl=pt-PT&q=Marcel+Mauss+Ensaio+sobre+a+d%C3%A1diva&btnG=Pesquisa+do+Google&aq=f&oq= . Claude Lévi – Strauss ao falar da Antropologia, distingue entre etnografia ou saber dos outros com trabalho de campo, que, como actividade de cientista, não é a sua melhor opção e Etnologia. Especialmente na conferência oferecida no dia do seu aniversário – nasceu a 28 de Novembro de 1908 em Bruxelas, filho de pais alsacianos – afirmando, entre outras coisas: “Detesto as viagens e os exploradores. Disponho-me a narrar as minhas expedições. Mas, quanto tempo [levei] para me decidir a fazê-lo!”. Citação retirada do início do seu livro publicado em 1955, que lhe valeu fama imediata: Tristes Trópicos, a sua autobiografia intelectual. Um livro tão magnificamente escrito que o júri do prémio Goncourt publicou nesse ano um comunicado manifestando o seu pesar por não poder premiá-lo pelo facto de se tratar de um ensaio e não de um romance, texto completo com o título de Centenário de Claude Lévi-Strauss, em: http://www.ambafrance.org.br/abr/atualidades/actualite_en_france_levi.html. Tristes Trópicos é a tradução, da responsabilidade de Jorge Constante Pereira, do seu livro Tristes Tropiques, Plon, Paris, 1955, editado em português pelas Edições 70, integrado na Colecção Perspectivas do Homem, 1979, Lisboa. Para estarmos certos da sua opção, diga-se que o texto começa com um capítulo intitulado: “ O fim das viagens”, pode-se consultar em: http://www.google.com.br/search?hl=pt-PT&q=Claude+L%C3%A9vi+-+Strauss+Tristes+Tr%C3%B3picos+&btnG=Pesquisa. Nos seus livros de 1952: Race et Histoire, encomendado e editado pela UNESCO para comemorar a criação da Declaração dos Direitos Humanos, define Etnologia já no título, ao falar de Raça, e no Capítulo 1, analisa a contribuição das raças humanas para a civilização, enquanto no seu texto de 1962: La pensée sauvage, Librairie Plon, antes de qualquer outra abordagem, fala da Ciência do Concreto para combater a ideia de que o denominado pensamento primitivo não tem pensamento abstracto. Usa a língua da Etnia Chinook do Noroeste dos Estados Unidos para provar o seu acerto de que todas as civilizações têm pensamento abstracto, o que estuda nos oito capítulos do livro com a lógica das classificações totémicas, de casta e de totem. Lévi–Strauss demonstra que o pensamento mítico e o pensamento científico, enquanto formas de conhecimento, são partes do pensamento abstracto das diversas culturas das sociedades do mundo. Quem não tiver pensamento abstracto, é uma pessoa que recua no seu saber ou ainda não está capacitada para entender o pensamento da ciência do concreto. É o que Freud teria gostado de saber para enriquecer a sua teoria do inconsciente, só que a temática e o conteúdo do livro foram escritos dezenas de anos a seguir à morte de Freud. No entanto, os seus discípulos, usam este e outros textos, como fazem os analistas, para entender esse inconsciente descoberto por Freud. É este o motivo para denominar Lévi-Strauss como Etnopsicólogo. Aliás, ele próprio, usou muito a teoria freudiana para as suas análises, até criar a teoria estruturalista da Antropologia, que usou para estudar o pré-consciente e o consciente dos indivíduos. Porquê Etnologia? A Etnologia é o estudo ou ciência que estuda os factos e documentos levantados pela etnografia no âmbito da antropologia cultural e social, procurando uma apreciação analítica e comparativa das culturas. Na sua acepção original, era o estudo das sociedades primitivas, todavia, com o desenvolvimento da Antropologia, o termo primitivo foi abandonado por se acreditar que exaltaria o preconceito étnico. Assim, actualmente diz-se que a etnologia é o estudo das características de qualquer etnia, isto é, agrupamento humano – povo ou grupo social – que apresenta alguma estrutura sócio – económica homogénea, onde em geral os membros têm interacções presenciais, e há uma comunhão de cultura e de língua. Este estudo visa estabelecer linhas gerais e de desenvolvimento das sociedades. O etnógrafo observa basicamente as diferenças entre as sociedades, na proposição de Mauss como ensina no seu Manual de Etnografia, desde o modo de andar e usar o corpo (técnicas corporais) até à celebração do casamento e dos funerais. Deve-se descrever e analisar toda a vida social de um povo e um lugar, observar principalmente o que esse povo diz acerca de si mesmo e o modo como identifica os seus participantes. Na prática o estudo da etnologia acompanhou a expansão do mundo europeu para o oriente, África, Austrália, Américas e Oceania. No início, confundia-se com o estudo das raças e dos povos conquistados, refira-se que a divisão humana nas raças que ainda hoje conhecemos foi uma invenção dos europeus que estudavam a desigualdade das raças para justificar os seus objectivos colonizadores. Texto que não me pertence, mas investigado por mim e retirado de uma das entradas Internet da página web: http://www.google.com.br/search?hl=pt-PT&q=Etnologia&aq=f&oq=, especialmente a entrada http://pt.wikipedia.org/wiki/Etnologia. Bion, Wilfred, (1961e após várias reedições, a que tenho comigo) 2000: Experience with groups, Routledge, Londres. Este texto pode-se sintetizar assim: Freud escreveu do seu melhor sobre a estrutura da mente humana; Melanie Klein, por sua vez, deu do seu melhor saber, nomeadamente com os textos sobre as ansiedades primitivas do ser humano em pequeno. Poder-se-á dizer que Bion soube integrar as estruturas dos processos primitivos e os seus conteúdos, apesar de ser em textos com uma escrita difícil, às vezes grotesca e excêntrica. Klein conseguiu mostrar a, por vezes, demência do nosso comportamento; Bion soube desenhar em mapas a geografia dos nossos processos comportamentais inconscientemente psicóticos, sempre a bater por cima de nós, tomando ou angariando, por vezes, a nossa vida individual, em grupo ou institucional. O seu estilo de escrita é, às vezes, extremamente formal, ao ponto de usar a matemática para se exprimir, ao descobrir que as palavras tinham um sentido diferente do que queríamos exprimir, as palavras eram significativas. Esse estilo é tão formal, que usa não apenas a matemática, como recorre a símbolos algébricos no esforço de se afastar das formas comuns, de cliché, no uso de palavras e conceitos. Comentários a partir de vários sítios na net, da minha leitura de Bion e da minha análise do seu saber. A comparação entre Freud, Klein e Bion, está bem explícita em: http://www.human-nature.com/rmyoung/papers/pap148h.html. Sobre a sua escrita, veja-se: http://pt.wikipedia.org/wiki/Wilfred_Bion.

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