O saber das crianças e a psicanálise da sua sexualidade – 10 – por Raúl Iturra

 

Diz Miller. “…na minha obra, especialmente no meu texto Thou shalt not be aware. Society’s Betrayal of the Child…» , que em português seria: Não sereis conscientes da verdade. A traição da criança pela sociedade, de 1998 (… tenho observado que as experiências traumáticas que acontecem às crianças em idade temprana, e que são reprimidas, normalmente são exprimidas em trabalhos criativos, como pintura, poemas.

 

No entanto, a sociedade, na sua quase totalidade, não está consciente do fenómeno, como os próprios artistas. Também eu não tinha reparado nesta conexão, se não me tivesse confrontado no decorrer do meu próprio desenvolvimento como intelectual, com o como e o porquê dessas crianças que sofrem, podem-se reprimir e, mais tarde exprimir o seu sofrimento em arte….Problemas da minha própria infância orientaram-me para assuntos destas crianças em geral, bem como a novas descoberta dentro deste campo…Cinco anos mais tarde, comecei a pintar e a escrever, livros que não teriam sido possíveis se a pintura não me tivesse libertado dos traumas da minha própria infância, uma liberação interna que o desenhar me dera” .

 

Era-me quase impossível deixar de reproduzir este comentário para entender que criatividade, desenho e escrita, são também resultado de uma frustração emotiva da infância do artista, essa criança a sofrer com as pessoas maiores da sua casa, ou por ser punido sem causa, negligenciado ao pedir carinho, ou, ainda, por ser mimado demais. Mimos que corrompem essa criança ao pensar ou sentir que a vida é fácil, e caso não seja, ai estão os seus adultos para tomar conta do problema e o resolver. Não são palavras de Alice Miller, são ideias derivadas da minha própria experiência com crianças.

 

Tenho observado que crianças mimadas , quando adultas, não sabem como e o que fazer das suas vidas, o seu desempenho é sempre díspar. Todas as crianças, quando adultas, se desenharem, não o fazem apenas por divertimento. Esse desenho passara a ser uma ajuda para a cura dessa enfadonha ideia da vida ser fácil. Donde, nestas circunstâncias, desenhar, corresponde a um descongelar de dentro de nós dos sofrimentos causados pela vida ou pelos objectivos procurados, em criança, e não atingidos.

 

Expressão louvada e querida, sem nos darmos conta que se trata de uma resposta para as felonias cometidas com as crianças por qualquer via das denominadas neste texto. Assim, ser-me-ia também impossível deixar de aprofundar a procura de Freud em relação à arte que Miller usa como terapia para os seus pacientes . No livro original (em alemão), publicado em 1979 e em 1983, em inglês, intitulado Thou Shalt Not Be Aware, a autora recorre às noções (de 1905) usadas por Freud sobre sexualidade infantil para chamar à atenção do mundo sobre essa realidade brutal que, se fosse alterada, mudaria de vez, com as formas tradicionais de entender o crescimento dos mais novos.

 

Realidade brutal de impedir a masturbação, de práticas abusivas dos adultos, de falarem com voz forte para os mais novos. Realidade brutal, como está definida no texto citado de 1905 , que, como anteriormente vimos, se fosse alterada, mudaria as formas tradicionais de ignorar a sexualidade da criança.

 

NOTAS:

 

O saber das crianças e a psicanálise da sua sexualidade – 10 – por Raúl Iturra Diz Miller. “…na minha obra, especialmente no meu texto Thou shalt not be aware. Society’s Betrayal of the Child…» , que em português seria: Não sereis conscientes da verdade. A traição da criança pela sociedade, de 1998 (… tenho observado que as experiências traumáticas que acontecem às crianças em idade temprana, e que são reprimidas, normalmente são exprimidas em trabalhos criativos, como pintura, poemas. No entanto, a sociedade, na sua quase totalidade, não está consciente do fenómeno, como os próprios artistas. Também eu não tinha reparado nesta conexão, se não me tivesse confrontado no decorrer do meu próprio desenvolvimento como intelectual, com o como e o porquê dessas crianças que sofrem, podem-se reprimir e, mais tarde exprimir o seu sofrimento em arte….Problemas da minha própria infância orientaram-me para assuntos destas crianças em geral, bem como a novas descoberta dentro deste campo…Cinco anos mais tarde, comecei a pintar e a escrever, livros que não teriam sido possíveis se a pintura não me tivesse libertado dos traumas da minha própria infância, uma liberação interna que o desenhar me dera” . Era-me quase impossível deixar de reproduzir este comentário para entender que criatividade, desenho e escrita, são também resultado de uma frustração emotiva da infância do artista, essa criança a sofrer com as pessoas maiores da sua casa, ou por ser punido sem causa, negligenciado ao pedir carinho, ou, ainda, por ser mimado demais. Mimos que corrompem essa criança ao pensar ou sentir que a vida é fácil, e caso não seja, ai estão os seus adultos para tomar conta do problema e o resolver. Não são palavras de Alice Miller, são ideias derivadas da minha própria experiência com crianças. Tenho observado que crianças mimadas , quando adultas, não sabem como e o que fazer das suas vidas, o seu desempenho é sempre díspar. Todas as crianças, quando adultas, se desenharem, não o fazem apenas por divertimento. Esse desenho passara a ser uma ajuda para a cura dessa enfadonha ideia da vida ser fácil. Donde, nestas circunstâncias, desenhar, corresponde a um descongelar de dentro de nós dos sofrimentos causados pela vida ou pelos objectivos procurados, em criança, e não atingidos. Expressão louvada e querida, sem nos darmos conta que se trata de uma resposta para as felonias cometidas com as crianças por qualquer via das denominadas neste texto. Assim, ser-me-ia também impossível deixar de aprofundar a procura de Freud em relação à arte que Miller usa como terapia para os seus pacientes . No livro original (em alemão), publicado em 1979 e em 1983, em inglês, intitulado Thou Shalt Not Be Aware, a autora recorre às noções (de 1905) usadas por Freud sobre sexualidade infantil para chamar à atenção do mundo sobre essa realidade brutal que, se fosse alterada, mudaria de vez, com as formas tradicionais de entender o crescimento dos mais novos. Realidade brutal de impedir a masturbação, de práticas abusivas dos adultos, de falarem com voz forte para os mais novos. Realidade brutal, como está definida no texto citado de 1905 , que, como anteriormente vimos, se fosse alterada, mudaria as formas tradicionais de ignorar a sexualidade da criança.

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