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OS HOMENS DO REI – 78 – por José Brandão

D. MARIA II (reinou de 1834 a 1853)

D. Maria II nasceu no Rio de Janeiro, no Palácio de S. Cristóvão, a 4 de Abril de 1819, recebendo o nome de Maria da Glória Joana Carlota Leopoldina da Cruz Francisca Xavier de Paula Isidora Micaela Gabriela Rafaela Gonzaga. É a segunda rainha de Portugal com este nome, filha de D. Pedro, primeiro imperador do Brasil e quarto deste nome rei de Portugal, e de sua mulher D. Leopoldina, filha de Francisco I, imperador da Áustria.

 

Quando, em 1826, morreu D. João VI, era já seu pai imperador daquela nação tornada independente e, assim, não favorável a que seu chefe de Estado cingisse a mesma Coroa de que o país fora colónia. Daqui a abdicação de D. Pedro em sua filha do reino a que como rei outorgara uma Carta Constitucional, mas pondo como condição o casamento dela com seu tio D. Miguel, que ficaria como regente até que a rainha atingisse a idade de governar. Tinha então 5 anos a pequena rainha.

 

É sabido que D. Miguel, inicialmente jurando a aceitação de tais condições e nunca tendo posto em dúvida a legitimidade do reinado de seu irmão primogénito D. Pedro, foi promovido a rei absoluto de Portugal, quebrando o juramento feito da aceitação da Carta, do casamento e da regência, do que resultou a continuação da realeza de D. Pedro IV até à outorga da Carta Constitucional e, depois de tal acto, a sua regência.

 

Querendo D. Pedro que sua filha fosse educada na Áustria, na corte do imperador seu avô, veio a rainha para a Europa, acompanhada do marquês de Barbacena, que trazia igualmente o encargo de negociar o casamento em segundas núpcias do mesmo D. Pedro com a filha de Leuchtenberg.

 

Quando, porém, que o barco aportou a Gibraltar foi informado do perjúrio do irmão D. Miguel, já então no exercício efectivo da sua realeza absoluta em Portugal, daí resultando que à rainha fosse mudado o itinerário de Viena para Londres, onde o problema internacional levantado pela nova situação teria a sua solução definitiva. Enquanto a pequenina rainha física e moralmente se desenvolvia no convívio das duas damas, continuava D. Miguel em Portugal um reinado a que era favorável o governo presidido por Wellington.

 

A França, pela mesma altura com o seu rei Carlos X em obediência à Santa Aliança, era igualmente favorável ao miguelismo. Todavia, a revolução que elevou ao trono Luís Filipe foi útil à causa liberal, à qual também a mudança de Governo em Inglaterra criou melhor ambiente.

 

Com 16 anos D. Maria II casa em primeiras núpcias com o irmão da sua madrasta D. Augusto de Leuchtenberg, que faleceu dois meses depois não tendo havido descendência. Começava tumultuosa a vida do regime liberal. D. Pedro já o tinha sentido em manifestações oposicionistas em S. Carlos. Agora, era o levantamento do povo contra Palmela, chefe do Governo, suspeito de ter feito envenenar o rei para tornar possível o casamento do filho com a rainha. Os tumultos mantiveram-se, mesmo depois da substituição do Governo de Palmela pelo de Saldanha, minados em guerrilhas pelos fogachos do incêndio miguelista, ainda não extinto de todo.

 

Passado um ano de viuvez realiza-se novo casamento da rainha. Desta vez com D. Fernando de Saxe-Coburgo Gotha, em 9 de Abril de 1836. Jovem como ela, chegou acompanhado, por determinação do rei dos belgas, Leopoldo, do ministro belga Van der Weyer, que, vindo como mentor dos jovens esposos, também procuraria servir o seu senhor, o rei Leopoldo.

 

Entretanto, no reino mantinha-se o clima de instabilidade. As discussões políticas decorriam mais de quezílias pessoais e rivalidades políticas que de confrontos ideologicamente consistentes. Eram polémicas estéreis e incompreensíveis para a quase totalidade da população. Por exemplo, Costa Cabral era inicialmente um Setembrista radical, ligado aos clubes maçónicos e então próximo de José Estêvão. Posteriormente foi evoluindo no sentido de apoio à Carta de 1826. No meio de todo este mar encapelado assiste-se uma profunda crise social. Carestia de vida, atraso ou falta de pagamento dos vencimentos aos funcionários públicos, das pensões etc., em contraste com os elevados rendimentos dos titulares de altos cargos da administração.x

 

Neste entendimento, o pronunciamento militar no Porto que restaurou a Carta Constitucional de 1826 e levou ao poder Costa Cabral foi o corolário lógico. O governo então existente, e em funções há cerca de um ano, era presidido por Joaquim António de Aguiar, destacado político cartista, e tinha Costa Cabral como Ministro da Justiça. Em Janeiro de 1842, Costa Cabral faz mais um pronunciamento militar; restabelece a Carta Constitucional. É indicado para ministro do reino e governa em Ditadura até 1846.

 

Declaradamente D. Maria II ia pactuando com o Cabralismo e os seus excessos.

 

Costa Cabral governa com mão de ferro. É acusado de dominar toda a administração, de fazer censura e de dominar, inclusivamente, a própria rainha, que já lhe dera o título de marquês de Tomar.

 

Com na sua longa concordância política com Costa Cabral, ela comprometeu até as suas próprias virtudes de esposa. Essa concordância exagerada vai custar à rainha a afronta e ignomínia de ser acusada de manter relações mais íntimas com o seu ministro. Incidente que ultrapassa as fronteiras e caricaturas e artigos maldizentes em jornais estrangeiros vão deixar amargurada D. Maria II.

 

O que cumpre dizer é que no momento em que a imprensa portuguesa soube que Costa Cabral, para desafrontar a honra da soberana, querelou um jornal inglês, explodiu numa tempestade de protestos contra a imprudência de sujeitar a honra da rainha a um escândalo internacional.

 

Tendo perdido o ensejo de repreender os jornais que haviam dado origem à calúnia que uma gazeta inglesa apenas dela reproduziu, com quase geral clamor, exprimiu o reconhecimento das virtudes da esposa e da grande educadora dos reis e infantes seus filhos que por esse título ficaram na história como paradigmas. E, de facto, não houve melhores educadores de filhos que os pais de D. Pedro V e D. Luís.

 

A 15 de Novembro de 1853 morte da rainha ao fim de 19 anos de governo. Morreu no Palácio das Necessidades em consequência de parto do seu décimo primeiro filho.xxx Duque de Palmela e Costa Cabral foram homens da rainha D. Maria II.

 

A seguir –  Duque de Palmela

 

 

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